Lista de Poemas

TODO MUNDO SABIA

Das delícias na fogueira
Milho assado na brasa
Churrasco ‘fogo de chão’
Torresmos na frigideira
Queijo coalho sobre a grelha
Peixe na telha e arroz de suã
Na lenha acesa do fogão
- Dessas nossas gulosas manias
Todo mundo bem sabia

Do vinho nobre junto à lareira
Nossas mãos aquecendo-se
Sobre a leve pálida chama
Crepitando na escuridão ;
Das modas cantaroladas
Soladas ao violão
Vigiados por estrelas
Beijos de lábios molhados
Bebericando enluarados licores
Nas noites de cantoria
- Das nossas doces estripulias
Todo mundo já sabia

Dos corações apaixonados
Olhos felizes namorando
A volátil fissura de enamorar
Pela noite inteira lambuzados
Todo mundo até sabia
 
O que ninguém entenderia
Seria explicar o que hoje se espalha
Que tudo aquilo que ardia
Foi tão só fogo de palha
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MENININHAS

Elas brincam de ciranda em volta da vila
Dão-se as mãos
Pulam amarelinha
Cantam modinhas
Balançam na gangorra
Passam anel
Se escondem escondem do mundo

Jogam peteca e bola de meia
Contam estrelinhas
Lambem a lua
Tomam sorvete com caramelo
Lambuzam-se de chocolate
Lacrimejam
Ardem de lampejos
Beijam-se carinhosamente quando se veem
Entrelaçam os olhares
Solfejam cada uma das notinhas
Recitam as letras do alfabeto

Assim fazem nossas menininhas
Dos olhos quando se cruzam
Loucas de desejos
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AMOROSIDADE

Assim
A quero em mim
Singelamente pudica e audaz
A quero em mim
Como se nada soubesse e tudo escondesse
Segredos mentiras beleza
A leveza do seu corpo metido em êxtase
Assim a quero em mim

Vem
Pois quero tê-la em mim
No despojamento da alma que ama e traz amor
Aquela que descompromissada se dá umedecida
Absolutamente amante desperta sensações
De navegar voando e voar parada
A quero em mim
Assim, assim

Amada
Sou sua castidade, sua prescrição
Não há maior paixão, tara
Dá-me alucinada seu folego, sua maldade
Faça-se em mim
Assim, assim
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PEDAÇOS DE MIM

Aparentemente quando recolhemos os cacos
Damos a entender que estamos alquebrados
Divididos ao meio, prostrados e tortos
Fadados ao desterro, condenados e em desespero.
Não são estes os pedaços de mim que desejo evidentes
E sim os de contentamento e profusa exaltação.
Bem aventuradas partes do meu ser quando trazem contentamento
Bem aventurados momentos do meu tempo que produzem alegrias
Bem aventuradas as horas do meu dia que constroem otimismo
Bem aventurados os olhares que transmito, os silêncios que distribuo
Bem aventuradas as palavras que propalo, as ideias que espelho
Bem aventurados os segredos que te conto para teu discernimento
Bem aventuradas as lições que retribuo quando aprendo o que ensinas
Bem aventurados os apelos que te faço para que também melhores
Bem aventuradas as paixões vivenciadas escolhidas como pérolas
Bem aventurados todos os nossos encontros e os diálogos que mantemos
 
Sejam benignas as porções que me reparto
Os fragmentos e estilhaços que por mim tocam teu ser
As frações que te alcançam e complementam
As fatias que se somam aos prazeres que te acrescem

Porque és parte
Somamos pedaços
Unindo ao todo o que nos torna então inteiros
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ATÉ O ULTIMO INSTANTE

Ainda terei coragem
De esquecer essa saudade
Voltar àquela esquina
Acostumar-me a estar sozinho
Escalar outros encontros
Arriscar por novos ritmos
Jogar fora velhas folhas
Ilegíveis e sem nexos
Deletar fotografias
Revisar alguns escritos
Retornar lá no começo
Desfazer tolas manias
Repensar certas bobagens
Não ser tão intolerante
Deixar de ser inocente
Enfrentar minhas fraquezas
Resistir aos teus encantos

E se nada for possível
Danem-se fatos e mundo
Disfarço essa tristeza
Saio à tua procura
Até o ultimo instante
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E POR VEZES

E por vezes
Discordo eu
Do que pensas
Porque tenho
Os meus próprios
Conceitos

É teu direito
Entender como queiras
Desde que a mim
Me respeites

Por bem querer-te
Com ternura
Te respeito
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BANHO DE CHUVA

Era bom passear na garoa
Saltitar poças após qualquer chuva boa
Molhar-se na salseira mansa
Encharcar no aguaceiro de final de tarde
Coisa de criança, brincadeiras da adolescência
Que permanecem na memoria

Corríamos na velocidade das enxurradas
Melados de lama, cantando feito pássaros
Correndo pelo barro revolvido
Pisando descalços o capim ensopado
Balançando galhos
Roubando as flores molhadas no jardim

Nascia uma fina sintonia
Entre nossa liberdade e alegria
E as nuvens
Encantada meninice que inocentemente fluía
Sem explicação

Agora temos medo da molhaceira
Qualquer molhadela nos põe tensos
Presos à pressa, broncos com a agua a escorrer
Que não passa e não nos deixa passar
Andar, caminhar, correr

Nos esquecemos de morrer
De rir largados na chuva
Tão disforme e aguada tornou-se nossa vida
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APEGO

Todas as palavras de benquerença
Traduziriam talvez pequena parte
Do zelo que aprendi a dedicar-te
Desde que convivemos

Sigam os sonhos adiante
Como tem seguido a sina
Cumpra o sol o seu destino
Reacendendo incontáveis dias

Passaremos pela vida fortalecendo
Dividindo alegrias bons momentos
E nas frágeis horas de tormentas
Estaremos inquebráveis
Enfrentando os ventos

Amo-te assim secreta e cegamente
Nesse particular e delicado apego
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PROSSIGO

Passam os pássaros tagarelas
Um pouco acima dos fios
Resvalando nas pontas das árvores
Rasantes sobre telhados
Em algazarras pelas janelas

Brincam de voar no centro do sol
Em círculos similares
Sem pedir licença pela barulheira

De tanto vê-los assim acesos
Voa também o meu pensamento
Além do peso da consciência
Sobre as nuvens da ignorância

Enquanto espalham-se à beira da fonte
Uns continuam voando sem parar
Prossigo a pensamentar
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DESAPRUMO

Saio da casa da sala
Do quarto do banho

Desaprumo
Caio de cima do muro
Saio por ultimo sem eira

Separo-me do teu corpo
Minha meta do teu rumo
Primeiro

Embora nem queira  sair
Parto irrequieto
Ofegante

Te levo assinada
Na alma sobre a linha
Em duas vias
Uma tua
E outra minha
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.