Lista de Poemas

UM TOLO

Estou prestes
A me sentir um tolo
Não consigo controlar
A inconteste vontade
Em não partir o bolo
Que me deste

Transforma-lo sim em pedaços
Pequeninos para as formigas
Fartarem-se plenas
Levarem nas costas as migalhas
Distribuindo doces entre amigas
Às carreiras imensas

Depois vê-las
Dormir saciadas
Cansadas do dia inteiro
Absurdamente contentes
Sem assombros e remorsos
Como fazem os inocentes
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EXISTE UMA DISTÂNCIA MAGNÍFICA

Existe uma distância magnífica
Debaixo dos lençóis que te abraçam e recobrem a cama
Há o corpo aceso por onde falas
E as tuas garras repartem comigo
A insanidade que entremeia e vivifica

Vivo na imensidão do uso da poesia
Que se derrama e perpetua pela orla
Sou afim teu anverso travestido de abrigo
Quando conversas repleta dos apelos
Versáteis à sombra da alquimia

Se o travesso coração e alma entendessem
Das paixões que se debruçam sobre as eras
Abrandarias meus tropeços
Consertavas as tardias conveniências
Antes que as nossas parcas chances nos perdessem
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AUSÊNCIAS

                  Paulo Sérgio Rosseto

Você deixou meus olhos
Sedentos novamente de olhar os teus
Reluzentes, apaixonantes 
À mercê da lua e dos sóis
Que flanam e flutuam aos teus pés
Incisivos, decididos, decisivos
Abundantemente fartos 
De sonho e saudades

Sou alguém que alimenta a alma
De indulgências e fantasias
Nas madrugadas, de manhãzinha
E por todo o resto do tempo
Em que fico intimamente sozinho
Dentro da arrebentação que consome
Os partos que geram as ausências
Daquilo que guia nossos dias

É assim que convivo com a folia
Fabricando espaços, ocupando rumos
No ensejo de enxergar o norte
Atrelado às tuas claras boias
Que me salvam quando entristeço
Adormecendo nos pensamentos
Remexendo as gavetas e caixas
Em que guardamos nossas alegrias

@psrosseto

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PARENTES

A casa nem tão grande
Ficou de repente mensurável
Com as portas dos quartos sem trancas
Onde nas camas já não mais se repousa na sesta
Pois a hora desse descanso
Agora é formal e duradoura.

Eu nem soube que vieram
Mas os vi, vivi e convivi
Ganhei abraços quando estavam
Cantamos, comemos, beberam comigo água e vinho
Antes de partir
Entre risadas e broncas obesas.

Creio que o tempo se alimentara de nós juntos
Justamente quando nos encontramos esvaímos
Certos da eternidade ornada em momentos
Assim próximos da rotina
A um vulto na retina sem cor.

Gosto que arde no peito
Vontade e certeza de rever
Cada rosto e ouvir suas doces vozes
Como se foram previstos pela volta
Advirão, e os terei justos
Colados, íntimos, parentes.
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A CADEIRINHA

Descansando dobrada
Vestida de azul e branco
Abrandada
Guardada no plástico
Imóvel
Estática
Limpa e despreguiçada
Depois de tanta praia
Depois de muita água
Depois de intensa farra
Em meio à distância
Concreta do silêncio
Perguntou-me a cadeirinha
Com sorrisinho cismado
- Ei, cadê meu menininho?
- Ah, está brincando ali
Do outro lado
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A NAVE E O GOZO

Quisera tivéssemos as mesmas taras
As expressões mais raras
Viajantes nas súplicas da libido
Às claras, nada escondido
Nem proibido, nunca involuntário
Unicamente desejoso e conexo
Sempre presente, poroso
Às vezes perplexo, próprio
Em íntima similaridade
Sob estado de contemplação
Amplamente benfazeja

Por esse tom ameno
Cultuaríamos então o apego
A tudo que se apregoa e enseja
- O vinho, a pétala, a névoa
A nave e o gozo
Que nos envolve e espera
Quando se deseja
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FRATERNOS

Sempre trocamos afetos
Olhares
Afagos
Rimos sozinhos dos descaminhos
E apegos
Às mínimas espécies
Cerceadas em nossos passos

Sentamos juntos
Na mesma cadeira da gigante roda
Que nos gira
Revira
Rola mansa ou veloz
No entorno da escada
Absortos e embarcados

- Por vezes cegos
Domamos frigidamente a cerca
E a cena e a estrada
Enamorados e guardiães
Aprendendo as proporções inexatas
Que nos entalam e atrelam
A mente e a garganta

Tão vasto é o deserto
E esse aperto isolado
Ludibria e nos enumera ternos,
Longe ou perto
Cada um a seu modo
Eternos reverenciando
O que nos torna perfeitos
Mais justos
Fraternos
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NÓ DE CORDA

Abraço as vindas cansadas
E os prêmios que me trazes
Quando te acolho nas mãos

Tu és a um só tempo navio e cais
Sou apenas simples amarras
De onde desgarras
E vais seguindo teu rumo
Ou permanece angélica
Cósmica e plácida amanhecer
Para meu peito deslaçar

Quem dera sendo eu nó de corda
Suporte os vaivéns dos teus mares
Das imperfeições acorde
E da realidade mórbida
Apague os traços e os rabiscos
Que os riscos dos teus oceanos
Cometem dentro dos meus planos

Choro tuas idas revoltas
Mas recolho as tuas voltas
Repletas de canção
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SOZINHA

Quando sentamos desconfiados os olhares na sombra dos edifícios
A cidadela parece esconder secreta dentro das suas prosaicas paredes
As sensações e certezas de que tudo se contrai, arquiteta e aquieta

Conseguimos medir no espaço entre o polegar e outro dedo
O tamanho do medo que sentimos
Ao revelarmo-nos desprotegidos

Por certo nos quartos e salas debaixo dos andares e lajes
Há mulheres contidas aquecendo comida
Meninas descalças contando dinheiro
Crianças colando os verbetes das aulas
Enfermos, cômicos, TVs ligadas, computadores acesos, celulares on
Camas desfeitas, janelas com cortinas cansadas, obliquas
Vasos que a descarga não conseguira esvaziar
Marmanjos abnegados bebendo água levemente gelada
Musica tocando entremeada a noticias de que o mundo acabara
E o que sobrara são gestos da sociedade em catarse

Luzes se fazem acesas pelo fim da hora que retarda
Pais retornam de outros países, de novos e velhos mundos
Em estado e maneiras líquidas desarmando-se dos costumes do dia
Carros sepultos no subsolo quietos hibernam
Enquanto despojados os calçados descansam nas soleiras ou cantos
À espera dos donos esquecidos dos passos por onde passaram

Alguém reza , outro esconjura, um trai, tantos sorriem, dormem ou choram
E na varanda, Sozinha delira e se degusta absorta deitada
Enquanto roça os dedos de leve nas pétalas das meias coladas às pernas
Aguardando a calma emergir úmida, sincera, serena, branda, branda, branda
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DEVIA IR CONTIGO

Devia ir contigo à Ilha de Balruos
Aprender como se governa.

Onde as filosofias afloram no ar
E nas brandas espumas das pedras
Que descolam no cais, convivem e enamoram.

Sei que não se parece às Cidades em que vivemos
Nem às Vilas incrustradas nas rochas como em nossa terra.

Há quem mande e respeita
Amplo em liberdade
Farto em sabedoria
Imerso em abundante compromisso com o sacrossanto
Direito do querer e pensar.

Devia ir contigo
Provar o gosto da ética e o sabor dos costumes
Em doses certas, nas porções exatas
Dados em troca da constância e do progresso
Frutos da evolução natural e perseverança das espécies,
Respeito ao bem público
Prazer nos serviços
Profusa crença e fé na palavra do próximo.

Porém minha fome
Ávida, dolorida e áspera
Desconfia de ti desacreditada em mim.
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.