Lista de Poemas

instruções para falhar

Poema dedicado a meu primo, Tiago Ferreira

escreve
sobre as árvores que se abatem
abatidas sobre os inóspitos ossos dos pés 
escreve
sobre o pesado frio da manhã
cutelo que ergues nas tuas pobres mãos 
escreve
sobre a inerte pálpebra que do teu coração
escreve 
nem que seja pra dizer o que não disseste 
escreve
ainda que a ausência gramatical
escreve 
porque escrever é coisa extraordinária
escreve
porque ao escrever és extraordinário 
escreve
que o deslumbramento acaba frio na alma
escreve
que a ávida vida vem sem o aviso 
escreve
sobre o ombro pousado sobre os pássaros 
escreve
que a inutilidade bruta é maior que a polida
escreve
que continuar pelo caminho certo é desistir
escreve
que sobre sobre sobretudo que o quê 
mas escreve.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "instruções para falhar")

85

girassóis ensanguentados

quanto mais as pálpebras me pesam
dois girassóis ensanguentados de luz 
na inconstante crisálida da existência 
mais lúcida e límpida me parece a terra
envolvendo no mistério litúrgico as mãos 
ouço as cinzas levantarem o pó do tempo
ouço ainda o coração martelar os ossos.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "girassóis ensanguentados")

94

quasar

coração
basculante
pulsante
mínguante

(Pedro Rodrigues de Menezes, "quasar")
331

termodinâmica do gesto

nada que venha dos outros 
excepto o seu silêncio 
sobretudo a sua inexistência 
me transforma
me transborda
e é entre estes aborrecimentos
que me atiro para a economia
do gesto
da palavra
do tempo.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "termodinâmica do gesto")
 

176

as três mil Marias

Maria sem Glória 
Maria da Desgraça 
Maria das Cem Dores
Maria da Desconsolação 
Maria da Farinha Amparo
Maria do Sarcasmo
Maria Toucinho do Céu 
Maria do Desespero
Maria da Reincarnação
Maria de Luzes
Maria da Guerra
Maria da Depuração 
Maria sem Remédios 
Maria dos Carnais Prazeres
Maria da Derrota

(Pedro Rodrigues de Menezes, "as três mil Marias)
339

vinte e dois de julho

mês de julho
dia vinte e dois
farias sessenta anos
mais os quatro decorridos
sobre o ano que adormeceste
a palavra pai é como um balão aceso
sobre a imprecisão contígua da boca cerrada
só a prejuízo a poderei pronunciar com a leveza certa
porque arde e não sei quando se fará noite dentro de mim.

 
(Pedro Rodrigues de Menezes, "vinte e dois de julho")
600

nas asas cegas

nas asas cegas
a traça sonda

sobre a luz da vela

a misteriosa beleza
o lúgubre destino

a sua morte inesperada.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "nas asas cegas")
655

teorema geométrico da solidão

evadido como um iceberg
certeiro na sua longa deriva 
voo a remos no deserto fértil 
e sobre este coração pousarei
pulsantes teoremas gargantas 
lúgubres espinhos sem rosas 
porque é preciso ser preciso 
capaz do brutal cálculo bruto
renascer precioso das pedras 
porque é inevitável evitar 
noites despertas de aurora
cegar a visão-cisão do astro
imaginar-me sem imaginação
o catártico fogo da memória 
a bravura do mar feito terra 
e mesmo que só caminhe só 
saberei procurar com as mãos 
extraordinários peixes alados
e mesmo que caminhe só 
mesmo que só caminhe 
não terei só chegado.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "teorema geométrico da solidão")

115

ceteris paribus ou a síndrome da variável inútil

dizer o que é certo
fazer o que é certo 

dizer o que é certo sem fazer o certo
expoente inútil da educação formal

se nas palavras não houver acção 
agilidade da inexorável coragem 

acordaste a deturpação teórica 
pariste a exponencial hipocrisia

por tudo isto nunca foste nada
senão nada mais do que isto

jamais fizeste explodir astros 
jamais criaste a ínfima luz.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "ceteris paribus ou a síndrome da variável inútil")

76

integral do kernel universal

o maior perigo no mundo
o maior perigo do mundo
é ter neurónios que falem
ter lábios que se calem
entre uma e outra coisa
a coisa é outra coisa
pura brilhante expoente 
quadrado da raiz quadrada
f de xis elevado a potências
limite infinito bem definido
é tudo isto 
ou nada disto
é exacerbação sebácea 
é medicina tradicional
é o vento 
é o livro esquecido
são os amigos
a ansiolítica vontade 
somos tanto 
somos tantos
e o que resta
é um resto
compósito 
vestígio 
breve
isto 
um
1

59

Comentários (6)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Carina Alexandra Oliveira
Carina Alexandra Oliveira

Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo

Cândida
Cândida

Lindo bjnhos

Cândida
Cândida

Está tudo bem grande poeta bjnhos

Cândida
Cândida

Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos

Rosa Lima
Rosa Lima

Orgulho na escrita do meu querido Primo

Pedro Rodrigues de Menezes é um poeta português nascido em São Domingos de Benfica (Lisboa) no dia 24 de Março de 1987.