Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Sou um cão líquido, eu reflito espelhos com a coragem de quem não se ousa olhar perante eles;
eu comemoro os mortos porque eles não podem mais usar nenhum céu ou nenhum desaguadouro como eu,
nem criarem mais nenhum palco, compor mais nenhum poema, ou se perderem em mais nenhuma ilusão;
sim, eu espelho o inferno dos vivos, com seus abastemas e com suas vesanias tão faustas e coloridas,
e eu comemoro com os mortos, beijando-os todos os dias com minha língua!
194
DE FRENTE AO MAR
Quando dela o fogo liberta a língua, não há mais autocontrole ou misericódia:
ou ela sobrepõe-me os lábios em beijos quentes e molhados,
ou ela me beija e me chupa peitos, pernas e a hígida haste,
ou, se nublada, ela me chove com o verbo ácido deixando-me semimorto e alagado!
111
EU PENSEI QUE ESTÁVAMOS EM UMA AVENIDA DE MÃO DUPLA
... se dizes que me ama, quem sou eu para duvidar do que tu escolhes e dizes,
mas se digo que te amo, por que achas que podes de mim duvidar,
como se eu andasse com máscaras sempre postas, com esplêndias e falsas cores
e com um inválido par de asas pregados no corpo, no coração e na alma?
146
A MULHER DO PRÓXIMO
De frente de minha casa, mora uma mulher que, toda tardinha, senta-se na beira do passeio da casa dela;
e eu, mais ou menos no mesmo horário, sento-me no passeio de minha casa de frente para a casa dela.
Como somos ambos casados, temos muita discrição e cuidado, deixantudo tudo ao acaso dos olhares;
vez em quando um sorriso, vez em quando uma cruzada de pernas, vez em quando um pedaço da calcinha,
vez em quando um sonho molhado, vez em quando uma esperança que jamais será frutificada,
vez em quando uma escondida e excitante punheta espumada!
136
FRUTOS DO SOL
Sob os raios intensos do sol,
lentros, estúpidamente enganados e soberbos
andam os homens com suas senciências, com seus desejos, com seus impulsos e com suas pseudovastidões.
Onde já se viu a real sabedoria das pedras? qnde já se achou alguma beldade que de fato supere a fragmentação sapiens?
E eu aqui, distante de tudo e preso em mim, vendo céus figurados e planícies devastadas, sem poder fazer absolutamente nada!
154
FLOR DE INVERNO
... era aquela flor, em forma angelical,
que nos distinguia dos demais humanos, imaginando que pudéssemos conquistar infinitos e sublimidades sem iguais
e que, por me fazer amá-la tanto e depois partir para a fria e infinita hospedagem da morte,
deixou-me sozinho a carregar ilusões e pesos humanos neste mundo de figuração junto ao lamaçal!
116
A ROSA ESQUECIDA
Ela fora, humilhantemente, abandonada e traída,
mas era tão iluminada que, mesmo em imensa dor e saudade
- do grande amor que a outros cantos e a outros sonhos a vida lhe levara -,
continuava a amá-lo, ausente e silentemente, com seu nobre espírito.
170
HIATO
Eram dois, que se diziam um em sempiterno amor:
ao fim, em doloroso hiato sobre pedras e abismos
que se lhes formaram, em desalinho à mente, ao coração e à alma:
um e outro se foram a se acharem, em si, vítimas do enlace incauto;
um e outro se foram, com severos julgos e açoites, a elegerem o comparsa como canalha.
204
MARCAS DO QUE SE FOI
Vou agora às mesmas planícies que guardam os segredos e as magias de minha tenra infância perdida;
tentando deixar-me, às costas - por exíguo destempo possível - o desalinho das feras sapiens.
E lá, mesmo que caiam fortes chuvas sobre a terra, as matas e os arbustos,
vou ruflar as pequenas asas azuis, libertar a indecifrável alquimia dos sonhos pueris e permitir que minha alma vazia se colora, libertamente, com lápis-cera.
162
À BORDA DA EXISTÊNCIA
Vede-vos, irmãos, os reflexos perante o espelho,
fazei a barba aos cuidados da lâmina, vesti o melhor terno, arrumai o cabelo
e maqueai-vos, a rímeis, as máscaras;
e, a rimas, o regozijo da palavra para vos irdes ao esplende baile na grande jaula circular da vida.
Lá, estarei vos esperando, irmãos meus, juntamente com toda nossa família sapiens.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*