Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
E atravessaram, enfim - poeta e poetisa -, as frias e voláteis grades das verbalizações;
e se amaram - onírica, silente e distantemente - com versos secretos, corpos ausentes e fulgurosas imaginações;
e com tal fulgor que não esperaram sequer serem servidos do doce e infinito cântaro de sublime união;
logo eles, conhecedores do quão difícil seria voltarem à laiva e dura realidade, com suas almas em exausta desilusão.
161
MUTAÇÕES
Ao alvorecer, entre as coisas singras do mundo,
aprendi a fertilizar vazios, com as incautas salivas do verbo.
Ao entardecer, entre as metamorfoses dos pássaros e das borboletas,
já era céus, mares e sonhos no disfarce plácido.
Ao crepúsculo, pela primeira vez, resolvi contemplar meu envilecido reflexo
e percebi que era, na verdade, um penhasco taciturno.
À noite, fria e insone, com o cálice vazio entre destroços e cinzas rupestres,
ando-me a esperar, em convulsões íntimas, meu definitivo estio de mim
no apagar-se das faustas e degeneradas luzes do palco.
190
MANEQUIM
Foram de líquido as sublimes palavras de tua boca, por isso desaguaram nos rasos precipícios dos mares;
foram de pluma os cândidos sonhos de tuas insensatezes, por isso sumiram às rajadas vazantes dos ventos;
foram de reticências as pálidas tessituras de tua mente, por isso se desenharam em insanas concupiscências às telas mambembes;
foram de chumbo as imanentes vesanias de teu cerne, por isso nos conduziram a torrenciais chuvas de fogo,
e à odiosa e inexorável morte - em mim - de tuas faustas e infames asas.
126
FLOR DESPETALADA
Alguém machucou seu coração dizendo-lhe que me viu cachorrando por aí.
Com a singra no peito, ela foi averiguar o maldito dito, e me viu cachorrando por aí.
E eu, que realmente a amo, mesmo cachorrando dissimuladamente por aí,
e que me escondia para não fazê-la sofrer, só queria saber quem foi o grande filha da puta que lhe contou isso.
146
LAÇOS AMALDIÇOADOS
Passou por mim uma flor de fulgas palavras, a me mostrar rotas de liberdade entre sonhos e fantasias bordadas;
quando percebi que ela escondia seu outro lado que, obscurecidamente, nada tinha de agrado,
já era tarde demais: foi então que começou meu fardo entre ventos, tempestades e descalabros.
151
O CIRCO CHEGOU!
Neandertais amanhecem embriagaos em ondulações lumes, a descobrirem os pálidos véus das sombras inocentes
e a adornarem os vazios ermos com plenitudes figuradas.
Pelos chãos pavimentados de melodias chilreadas por pássaros azuis e de cheiros aspergidos por flores madrigais,
caminho buscando algum sentido em cada ato e em cada passo entre o estranho magnetismo da coisas,
não obstante sempre me afogando em algum rio de turvas águas, ou em alguma viela escura e alagada.
205
O BAILE CHEGOU AO FIM
Pensei que um dia descansaríamos em caminhos que não se convergissem em chuvas de fogo,
ausentes da rigorosa complexidade de nossos cernes, dos malfazejos versos de nossas bocas,
dos rútilos devaneios de nossas mentes, dos inalcançáveis silêncios de nossos sonhos e das afiadas lâminas de nossas fantasias.
Mas, de minha falésia ao árido deserto, onde não mais podes me escorrer tua seiva, e de onde não mais posso descortinar teus véus,
ainda guardo reminiscências de teu cântaro esquálido, de tua alma nevoenta, de tuas enigmáticas reticências
e de tuas sílabas juncas a forjarem alvos arrebóis em itinerários de pseudoliberdade, onde tantas e tantas vezes te caías camuflada.
Ainda bem que outros pássaros, também puristas como tu, apaziguaram-te com novos sonhos, alegorias, versos, concupiscências e salivas ébrias;
ainda bem que não mais podes me ver com tempestades na retina, a lutar, enquanto não se extingue o dia, contra minhas próprias apocrifias,
que tantas vezes me conduziram a soberbos voos e cruciantes quedas - junto com meus semelhantes sapiens -
nas dissimuladas coreografias da vida.
165
INSOLENTES MÁSCARAS
Os abnormais se disfarçam com insolentes máscaras, entre labirintos idílicos e bestiários demoníacos.
As rimas que engravidam sonhos e os verbos que ressoam regozijos evidenciam as hégiras iludidas das próprias senciências espúrias.
A pura e virgem floresta foi inexoravelmente violada, gerando multidões de filhos apócrifos, de modo que as chagas marfolhas se espalharam por todo espectro:
pássaros artificiais voam a cingirem os céus com sonhos, fantasias e esperanças exíguas;
borboletas flutuantes pululam, de flor em flor, a adornarem esplêndidos jardins rupestres;
pavões menestréis pupilam composições de belas sinfonias, para tentarem mover inércias oníricas;
papagaios despercebidos tartareiam, em repetições moucas, as reticentes promiscuidades dos verbos e dos versos;
vagalumes incautos elogiam, luzindo seus faróis, os ermos e frios silêncios das sombras noturnas;
marimbondos negros não conseguem, carregados de solidão e ruína, ladear risos em quimeras inexeqüíveis;
serpentes assassinas silvam, em fome insaciável, às rasas e secas superficialidades dos chãos e dos lodos;
lobos se vestem ovelhas, em soturnas esperas, para o abate das frágeis presas que perderam as asas.
Ao fim, o baile está formado no inferno dos homens; e os corpos dançam encurvados em intensos frenesis,
à nau das insânias incontidas, das palavras voláteis, das concupiscências vadias e das esperanças exíguas.
E as almas - se existem - singram em agonia, por não termos o mínimo de cuidado para que não morram no vazio.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*