Lista de Poemas

MAIS FORTE QUE EU


... naquele dia,
comecei a sentir diferente
o vento,

a ver
diferente as coisas
do mundo

e a pirar
com a sedução das damas
de lingeries brancas

Era, digamos, inusitado em meus particulares atos. Reservado desde cedo. Nunca tinha visto algo assim além da minha imaginação.

Subi ao muro para andar em cima da lâmina. Esquilibar-me em fios, desde cedo sou acostumado, mas, de repente, teve uma mágica visão: uma deusa estava deitada se queimando no terreiro da casa dela só de calcinha e sutiã.

Lógico, era novo, mas já era um cãozinho esperto. Desci do muro só o pegando por cima com as mãos. Corpo escondido, mas olhos esquinados a postos.

A calcinha enfianda naquele rabinho, o pacotinho na frente da caldinha, os contornos das coxas junto com a bunda e alguns pelinhos por ali. Pelinhos, eu nunca tinha visto nada e aqueles pelinhos me fascinaram. Não é humana, pensei. E raro nessas coisas me enganava.

"O que tu quer vendo aí?", fui surpreendido pela pergunta, ao loge, do anjo.

"Nada, não, desculpa", pedi com medo e de lá me cascando.

Nunca soube o que ela pensou, mas sei que bati punheta imaginando aquilo por longos anos!
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NOSSA CABANA AINDA ESTÁ LÁ!

Cerra teus olhos
profundamente, enquanto
te contemplo,
sente o vento
de minha respiração tocar teu ombro,
teu rosto e teus lábios,
sente minhas mãos bobas
te enudecendo e te apalpando
para todo lado,
sente nossas latitudes
se tocando a ponto de quase desencadearem
carnais terremotos,
esquece nossas obscuridades
um pouco e vem comigo deitar
na mesma estrela que colei no céu
daquele rigoroso inverno
sobre nossa cabana
de amor.
Não podemos mais nos ver:
sei que não, mas sente meu pulsar
ao te amar e contigo gozar na eternidade
que ainda me há!
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COMUNICADO

Preciso deixar claro
que sou um cavalheiro
quando abraço-se ao ritmo da valsa
e sutilmente beijo-te
a boca,

sim, sou um cavalheiro
quando sussurro aos teus ouvidos
palavras de amor,

e quando desnudo-te o segredo
guardado entre as coxas, com a clara intenção
de te levar ao êxtase
e ao gozo.

Não obstante,
quando chegam as chuvas,
eu me declaro culpado de esquecer-me
do singelo amor, das noites de fulgor
e dos sonhos à nuvem;

e de carregar-te comigo,
como um enegrecido anjo da morte,
à beira de abismo profundos
e vazios.
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NÃO FUI EU QUE ME FIZ HUMANO!

Não fui eu
que me fiz humano,
fui jogado
no mundo assim;
então,
como meus irmãos que se dizem
mais puritanos,
quando
me lanço com minhas
asas inválidade,
só vario o lugar
e o modo, mantendo todas
as possibilidades
no sonho,
na fantasia,
no amor,
na dor,
no desejo
e no consequente naufrágio!
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A VERDADE SEMPRE DESMORONA COM O OLHAR SAPIENS!

Já li de tudo
das geniais mentes humanas,

do complexo narcisístico,
das leis da física einteniana
e quântica,

das geometrias
imperfeitas, das singularidades
imprevisíveis,

do amor,
do desejo, do estilo, dos sonhos,
e dos êxtases,

do complexo de édipo
e da vaidade exercida com seu poder
de escolhas;

Ah, enfim,
já li e vi de tudo sobre o ser,
e nada do que vi, no entanto,
me fez sair do abismo e da escuridão
de onde pressinto que
surgi!
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INESQUECÍVEL DEVANEIO!

Já nem me lembro
do que seja um fluxo de sublime
amor à nuvem:

exatamente,
é preciso reconhecer,
agora que estamos realmente
a caminho do fim,

que tentamos cultivar asas,
sem jamais conseguirmos deixar
de sobrevoar abismos
e precipícios,

e que, realmente,
não creio que nossas ausências
nos sejam mais dolorosas
que nossas ácidas
chuvas;

mesmo assim,
amo-te de um estranho e louco amor,
sem que, incautamente,
jamais te tenhas percebido
do essencial:

era-nos necessário não só o amor,
mas também o respeito, a dignidade
e uma duradoura paz
ao onírico leito

para nos anestesiarmos,
de mãos dadas,
das angústias e das dores
do mundo.
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MANEQUIM

Foram de líquido
as sublimes palavras de tua boca,
por isso desaguaram nos rasos
precipícios dos mares;

foram de pluma
os cândidos sonhos de tuas insensatezes,
por isso sumiram às rajadas
vazantes dos ventos;

foram de reticências
as pálidas tessituras de tua mente,
por isso se desenharam em insanas
concupiscências às telas
mambembes;

foram de chumbo
as imanentes vesanias de teu cerne,
por isso nos conduziram
a torrenciais chuvas
de fogo,

e à odiosa
e inexorável morte - em mim -
de tuas faustas e infames
asas.
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AMOR E PAIXÃO

Por detrás do fino feltro
que separa esses dois sentimentos
pode-se perceber sua principal
diferença;

por exemplo,
há beijos, abraços e embaraços
que provocam delírios
de amor e paixão:

esta sempre a exigir,
do corpo, ilustre presença;
aquele a vigorar candidamente,
mesmo em longa
ausência.
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INESQUECÍVEL

... vives
aqui dentro

com gosto de amor
antigo,

com gosto de desejo
antigo,

com gosto de dor
antiga,

e com a eterna
esperança de não nos haver
nova partida.
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QUANDO A INSENCIÊNCIA RETORNAR

Cinzenta manhã
do primeriro dia do ano,

tu aguças
meu olfato e atiças meu desejos
pelas eternas sombras
da paz;

todos as temem
de detrás de seus humanos vitrais,
porque não a compreendem em sua essência
não-sapiens,

mas eu anseio
um não-ser, que só pode me pertender
depois que definitivamente
me deitar em seus braços!
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Comentários (7)

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fernanda_xerez

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez

Lindo e provocante!