Nunca te aconteceu no silêncio sedutor da noite, Olhares para o fio de prumo de luz que te namora o rosto, Sem paternidade de madrugada ou de dia, E descreres de mim com um despegar lento mas feito de um transparente doloroso?...
Pergunto-te a pergunta muda e irrepetivel porque me sobra o Fumo de mais este cigarro, A subir apressado em serpente venenosa de despreocupação, A espera de nada, Mas desejando muitos tudos,
Não há riso nem portes de envio de solidão , nem sequer um adeus sacrificado quando o sol dá os sinais primeiros e últimos de ditadura dos dias sem cor,...
Só há um foste sem voltar á primeira casa do monopólio em que me tens preso para a eternidade .
Desnorteado andas putridamente perdido no vento, Sorvido no turbilhão do correr do tempo, És as mãos nos bolsos do sol abrasivo, abrasador, indubitável na morte que caminha na berma da estrada que ninguém vê,...
Foi lá que te encontrei, Falavas de coisa nenhuma com os olhos, Ouviam-te dezenas de sombras a encolherem ao sol, Prometias paraísos invisíveis, Com riqueza de suspiros, Lúcidas noções de felicidade, Mar, Amar por cima de todos os ódios,...
Até anoitecer foste rei no meio do clero da ignorância, E quando a noite veio, Subimos ao monte arredondado da dúvida, E por lá ficamos ainda, À espera que a espera nos leve para o mundo das coisas reais..
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...de noite qualquer coisa
A cidade descalçava-se de ti, Espreguiçava-se por cima das Torres recortadas num céu de chumbo que acolhia a noite num longo abraco, Em finos chuviscos de lama figurada, Desceste sobre as ruas que escorriam pessoas em calçadas gastas, Como sangue nas veias finas de um moribundo, ...
Foi a um poema triste, Decantado, Depurado de otimismos impossíveis de descrever, Que recorri para acordar sons adormecidos na cadência ritmada de vida que trazes...
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Rosa e quem a vê
Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca. Sem sal. Incongruências que não há, quando se observa de perfil. Salta à vista um golpe. Não, dois. Com certeza três. Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula. Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta. E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente. Observatório de emoções, não contundentes. E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê. Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar. Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem. A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado. E Rosa vai voltar logo à noite
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...de dentro de tudo
De dentro de tudo, de dentro do tempo, por fora dos segundos perdidos, Na roda, Dos minutos ganhos enviesados a mirar, De dentro de tudo sobes por qualquer coisa difícil nos rebordos que o Vento deixa,... Faço-me de pintor do Sol que é juiz de toda esta contenda, E com cuidados de som, Fica abafado, O rumor que a morte deixa, Por dentro de tudo...
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Escrito sim, vivido não
vi gente a escrever com polegares, algarviadas, assobiadas, pela celeuma de dias pesados,...
a serem frutos carunchosos, foram polpa de sangue, porque vi desnorte, senti composições fúteis e de sentido inexpugnavelmente triste,....
li até os olhos me doerem mais que maviosos ses colaterais,....
foram tertúlias que me mergulharam para não me afogar,...
e no fim sol referente, dias que laqueavam as singelas tentativas de mudar o mundo,....
pus-me de menos por tentar cingir-me em posição de feto desiludido,...
nasceu o sol, log-off, obra fechada, e consciência morta,....
menos uma noite para despedir o mim feio e corrupto....
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Refletir
guardo a dor no pé mais solto das conversas que tenho com a fantasia,...
se me falo no meio destas intransigências de desnorteado, faço-o porque quero criar transparências,...
coisas onde possa refletir a percepção dos dias que encontro nos fòlegos perdidos dos minutos quentes,...
nos anseios incolores,..
sobretudo em tudo, e no nada que é saber que se sabe tudo, sem concretamente passar do zero dos choros da ignorância....
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...de azuis silêncios
fazes-me quer o sim, quer o não, talvez o possível de entre qualquer coisa para ser muito pouco de assim-assim,...
e ao anoitecer de dias infindos, perto longe das partes metades do todo que coça a noite nos rebordos do teu sorriso de dia,....
e para o fim rochas agudas em notas mudas de discos opacos de qualquer coisa para afinar portentos,......
de azuis silêncios...
207
Dececiona-nos
Dececiona-nos, Incentiva-os pelo medo, A soma dos percalços desta confiança é a terra a transpirar gritos indecifráveis ao amor dos mortos que respiraram o fim juntos,...
Tudo isto escrito dá os escritores amordaçados que ninguém conhece, E o respirar dos dias iguais aos minutos seguidos de segundos esganados de solidão ..
204
Se de hoje a mil milhões de anos
Se de hoje a mil milhões de anos eu ainda estiver aqui sentado à tua espera, Não me irás ver mais, A tua memória ficará no éter do que o universo for na altura, Eu serei pó, O resto do que foi a experiência de te ter sorrindo, Capaz de me desfazer no mais pequeno átomo de felicidade, Que com a explosão das coisas reais me devolvia à infelicidade da felicidade desenhada,...
Se de hoje a mil milhões de anos eu ainda aqui estiver sentado á tua espera, Olha em frente e verás que estás a um segundo de não me largares na infinidade do para sempre..
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Domingo como nenhum outro domingo
Num dia de domingo o tempo passava triste como o bacalhau dos pobres, Havia os homens de soluções encardidas que em vez de falar optavam por estranhos sinais Com os sobrolhos unidos, O sofrimento das esposas era uma figura disforme e sem pernas que caminhava pelos Intervalos da chuva sem cor que o céu vomitava, E depois os pequenos, Os sorrisos de ouro e transparências escritas em inocências que saltitavam pelas poças douradas de lama,
Num dia de domingo somos tudo isto e nada ao mesmo tempo, Só querendo se volta a este andar para o lado como o caranguejo, Em que o tempo flui, Mais doce, Mas menos timidamente infeliz do que no resto dos sítios em que existem Domingos de manhã, Neste, como noutros dias, Só se olha pelos segundos disformes que faltam para que o tempo passe a ponte Vagarosa que o torna velho,
Num dia de domingo, Escreve-se assim porque ontem foi o resto da vida do universo que vai morrer alegre....