Rafael Rocha

Rafael Rocha

n. 1949 BR BR

Jornalista, escritor e poeta natural do Recife, capital do estado de Pernambuco-Brasil. Cinco livros já lançados em sua vida de escritor.

n. 1949-10-01, Recife - Pernambuco

Perfil
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ZOMBARIA

Um deus ameaçador e assassino
Cria um destino para a criatura:
Se a raça humana tiver o desatino
De nele descrer é uma raça impura.

Ele diz: "Sou uno, sou o verdadeiro!
Dos mil deuses do mundo sou o real".
Mata o filho na cruz como o primeiro
Torturado à verdade de seu mal.

Para o homem cria paraíso e inferno
Diz: "As ruindades da vida são tua culpa!"
Tal grande deus sempre tem desculpa.

Mata inocentes! Proclama sua bondade!
Cria castigos e decreta a insanidade
E ri e zomba! Este é nosso pai eterno!
Ler poema completo
Biografia
Rafael Rocha, jornalista, escritor e poeta natural do Recife, capital do estado de Pernambuco-Brasil. Cinco livros já lançados em sua vida de escritor. Meio a Meio (poesias), A Última Dama da Noite (romance), O Espelho da Alma Janela (contos), Marcos do Tempo (poesias) e Olhos Abertos para a Morte (romance). Seu livro de contos O Espelho da Alma Janela foi agraciado no ano de 1988 pela Academia Pernambucana de Letras com o prêmio Leda Carvalho, mas antes, em 1986, recebeu Menção Honrosa da Academia de Letras e Artes de Araguari (Minas Gerais-Brasil) pelo seu conto Grãos de Terra Sobre. No ano de 2011 foi novamente agraciado com Menção Honrosa pela Academia Pernambucana de Letras, prêmio Vânia Souto Carvalho, pelo seu romance Olhos Abertos para a Morte.

Poemas

14

TEMPO MARCADO

Quando a gente se achar por essas ruas do mundo
O que irá rolar?
Serão águas deslizando de cascatas gigantescas
Ou um pequeno rio correndo para o mar?

Quando meus olhos olharem dentro de teus olhos
O que irão falar?
Dirão talvez que teus piscares e olhares
Querem me decifrar?

Quando meus dedos enlaçarem os teus dedos
Como irão se apertar?
Esquentarão palma a palma as duas mãos
Para não acenar

Aquele adeus que se apresenta sempre perto
Querendo ser distante.
Duas mãos enlaçadas fazem um sonho irreal
Tornar-se delirante.

E assim a vida marca outra vida por esse caminho
De corpo e de olhos e de mãos.
Marcando horas e minutos esperados nesse tempo
Mesmo que sejam vãos.
873

ARITMÉTICA FINAL

A passagem do tempo enruga e tortura
Aperta saudades e lembra a loucura
Do ontem perdido que não mais se faz.
A passagem do tempo é madrasta da vida
Subtrai sonhos! Torna a alma dividida
Entre o fim e o jamais.

Que merda esses cálculos impostos
A nossos corpos a trazer desgostos
Como querendo imitar ciência e arte!
Nada mais de perder tempo na paisagem
O ideal é matar essa miragem
Em que a morte nos reparte.

Sentar à mesa de um bar e sorver a noite
Nos goles das cervejas e em pernoite
Na primeira mulher a nos chamar.
Cigarro nos lábios acendendo a vida.
Antes que ela se diga por perdida
Melhor se embriagar.

Idiota o homem que não sabe o caminho
E leva o corpo em oração até o ninho
Do mármore frio, branco e sepulcral.
Sábio o homem que se faz semente
E vive a dizer ao seu mundo demente:
A vida é casual!

Tão estranhos são esses logaritmos
Todos dançando fora dos ritmos
Da raiz quadrada universal.
Nem o filho nem a virgem nem o deus
Explicam esses motivos de adeus
Na aritmética final!

Assim eu chamo meus amigos e as amantes
Venham até junto a mim serem as bacantes
Da orgia do vinho e do prazer.
Daremos vivas e tilinto a nossos cálices
De mortais deslizando até os ápices
Dos anseios de viver.
891

REPULSÃO

Tenho repulsão às vozes dos poetas incoerentes
Orando desvairados ao pé de cruzes e de imagens
No mundo e neste agora eles vivem tão-somente
às fantasias de cristos, espíritos santos e miragens.
Não buscam ver a realidade milenar do mundo
E cantam nas entrelinhas as odes mais sacrossantas
Imenso é o medo de morrer e mergulhar no fundo
Do ódio do deus que rege seus versos de pilantras.
880

DESPEDIDA

Tempo de viver o outrora da vaidade
Deixo crescer os meus cabelos.
Meus olhos, no entanto, os veem velhos
Na desconexão das rugas e dos dedos;
Então olho para todos os espelhos
Faço-me cego para os reflexos
E ao olhar o teu rosto entristeço.

Até parece a noite levando nossos dias
Matando a beleza dos tempos de antanho
Instantes onde só em fome de paixão
Vivias dentro de mim e eu dentro de ti;
Então nossos olhos perdem o tamanho
De observadores argutos de nós
E ao vermos um ao outro zombamos.

E dizes adeus querendo marcar a tua volta
Para um dia qualquer de outro durante.
E eu digo adeus com o peito em revolta
Por não poder pintar um quadro diferente,
Pondo cores nos teus olhos e nos meus
E tentando vadiar maciamente
Em nós.

Damos adeuses...
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