O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
A piada até que durou bastante. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é um comediante. A anedota funcionou muito na propaganda, na posse, nas aparições em público. Entretanto, a brincadeira foi longe e ele se elegeu. A pilhéria poderia render um mandato — o Tiririca está conseguindo se esconder na Câmara —, mas estourou uma guerra que exigiu um governante de verdade. Estamos testemunhando que não dá certo o bobo da corte trocar o cargo com o rei.
Danilo Gentili conseguiria sustentar a piada até a rampa do Planalto. A primeira greve, manifestação na Paulista ou invasão do MST acabaria com a graça.
O voto de protesto — macaco Tião, rinoceronte Cacareco e o palhaço Tiririca — sempre piora a situação. No caso de um ser, digamos, pensante, como o Tiririca, políticos espertos leem as conjunturas e empurram o “voto de protesto” para “puxar” (eleger) eles mesmos.
Agora o presidente dá Ucrânia não sabe o que fazer. O sujeito está praticamente montando uma guerrilha urbana, armando qualquer um que encare segurar uma arma: civis, estrangeiros, pessoas de até 60 anos de idade. É a tática do “cada um por si” ou “bumba meu boi”. O final poderá ser trágico como na Guerra do Paraguai.
Embora autoritários, muitos dos atuais governantes são fracos, do tipo que acham que vão resolver confrontos entre nações dialogando, cantando Imagine, criando uma “hashtag” de paz ou iluminando algum monumento com as cores do país invadido. Logicamente, estou me referindo a Joe Biden, Justin Trudeau e Emmanuel Macron. Incluiria João Doria, mas ele nunca será presidente da República. Essas figuras que citei são a mais fiel tradução do que chamo de homens de geleia, dispostos a mandar vigiar, perseguir, dificultar, delatar, cancelar e anular quem ousar exercer alguma liberdade. É o sujeito que denuncia o crime hediondo abraçando a Lagoa Rodrigo de Freitas, soltando pombas, vestindo branco e gritando “agora chega”. Disfarçam-se “lacrando” e sinalizando virtude.
Enquanto o Ocidente está discutindo linguagem binária, ideologia de gênero, banheiros trans, aquecimento global e a Greta Thunberg está enfiando o dedo na cara de autoridades, a Rússia mostra que a guerra não é filme da Netflix
Foi esse o “caldo” perfeito para o macho tóxico Vladimir Putin, ex-agente da KGB, agir. Vendo que a pandemia deixou a maioria dos governantes sem saber o que fazer, Putin sabia que era só avançar.
No peito do Putin, ainda bate um coração soviético.
25
Navegar é preciso, viver não é preciso🔵
Litoral de Santa Catarina, estava tudo ótimo, mas alguém teve a ideia de mergulhar, afinal havia placas de agências convidando para o passeio. Por que não?
Antes, uma aula e algumas perguntas. As questões eram do nível: o que acontece se eu parar de respirar? Todavia, eu completei o questionário como se fosse uma prova da Fuvest. Eu acredito que todos encaravam aquelas folhas como uma competição, afinal estavam concentrados naquelas perguntas tolas.
No dia seguinte, partimos para a inédita aventura. Entramos num barco que parecia aguentar ida e volta sem afundar. Chegamos no local, uma ilha bonita, água cristalina e, no barco, um bando de turistas que mal sabiam a diferença entre uma galinha para um tubarão. Mas eu também era neófito na exploração do fundo do mar. Além disso, eu conhecia razoável variedade de peixes por fotos, aquários e bancas de pescados.
O mergulho propriamente dito foi de, no máximo, seis metros de profundidade. Mas tudo correu bem e pude ver alguns cardumes, tartarugas e outras criaturas, dignas do Discovery Channel. Quanto mais eu submergia, mais vinha à tona minha hipocrisia, achando exuberante toda aquela fauna marinha em seu habitat natural. À noite, no restaurante, me referindo àquelas maravilhas marinhas pelo eufemismo “frutos do mar”, eu acharia muito mais lindo todos eles chegando, mortos, numa travessa, fumegantes e empanados. Os bichos estranhos ficariam bem numa paella e o cardume frito, numa porção com cerveja. Que delícia!
Não podia existir esse dilema. Ser retirado da água fresca e jogado, às vezes vivo, em óleo quente e água fervendo é muito cruel.
O evento estava muito tranquilo, podia até ter a trilha sonora de uma flauta transversal. Precisávamos de algo mais rock’ n’ roll, e foi o que tivemos. Na volta, “o mar não tava pra peixe”, ou seja, estava turbulento. Mais uma vez, o chamamento suicida me convidou a “dropar” aquelas ondas que arrebentavam na proa do barco. Meu cunhado, esquecendo esposa e filhos, topou a insana aventura. Por que não?
Na parte de cima da embarcação, juntamo-nos a um punhado de argentinos, naturalmente pouco apegados à vida. A cada imenso volume d’água que quase adernava completamente a escuna, gritávamos e ríamos, como num Boca Juniors e River Plate ou Corinthians e Palmeiras. O “capitão” e a tripulação, num misto de raiva e responsabilidade, chamavam todos para baixo. Por causa da insistência, descemos com cara de Jack Sparrow, o pirata e Simbad, o marujo. Todos nos olharam com cara de Dramin.
De volta ao tédio, aquele convés mais parecia a espera do Poupatempo. Levantei e fui, me equilibrando, até o banheiro. Um dos tripulantes perguntou: “Tu tá mareado (enjoado com o mar)?”. Essa pergunta veio com um triunfante sorrisinho escapando no canto da boca, típico de quem estava esperando o turista paulista enjoar. Com a negativa à pergunta, terminei o passeio que virou aventura com vontade de beliscar uma porção de peixe com uma cervejinha bem gelada.
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Pura paisagem 🔵
Nêga
A Nêga era uma catadora de entulho. Nêga: este termo era usado nos anos 80, auge do politicamente incorreto e quando o “bullying” (que não tinha sequer esse nome) era comum. Se fosse hoje (2022, em tempos politicamente corretos), a Nêga chamaria Afrodescendente e seria uma recicladora de materiais.
Ela protagonizou uma cena digna de Steven Spielberg. A Nêga desfilou na minha rua, vestida de noiva, em companhia de um noivo imaginário ou se casando com a vida. Com um impressionante vestido, achado não se sabe onde, era de, literalmente, parar o trânsito. Essa, realmente, não é uma cena que se vê todos os dias.
Na vanguarda, (essa palavra é horrível, mas é o que tínhamos pra hoje), ela resolveu fazer o que teve vontade e jamais fariam por ela.
Bar da Maria
Aquele não era um ambiente bom. Se o local não podia ser recomendado a adultos, menos ainda a nós, crianças. A Maria, coitada, era a proprietária do comércio etílico e a maior consumidora do estoque.
No meu aniversário, não lembro que idade, sei que eram menos de oito anos. Não sei por que, mas o destino fez meu irmão, um amigo e eu atravessarmos a rua, até o referido boteco. Alguém, acho que o amigo, resolveu falar que eu ficava mais “idoso”. Maria, àquela hora da manhã, já aditivada, mas de bom coração, anunciou: “hoje, você pode pegar o que quiser!” Eu examinei o ambiente: alguns ovos coloridos boiando numa água turva dentro de um pote suspeito; torresmos com péssimo aspecto; uma bandeja com nacos de salsicha acebolada muito oxidados; pacotes de cigarros Vila Rica e Continental (as propagandas diziam que aquilo era legal); e, no alto, garrafas de Cinzano, Fernet, Tatuzinho, Velho Barreiro e outras bebidas. Achei que nada daquilo era pra mim. Fiquei desanimado.
Foi quando veio a luz. Escolhi um chocolate Grand Prix e uma Coca-Cola que devia estar escondida por ali. Fiquei entre a Coca, Tatuzinho e Velho Barreiro. Tatuzinho tinha um nome simpático e um rótulo bem legal, mas odor forte, a garrafa de Velho Barreiro possuía bastante conteúdo, mas achei o nome um pouco assustador. Acho que minhas escolhas foram sensatas.
Um dia qualquer, o bar da esquina estava fechado. Lógico que eu não era frequentador, mas aquele bar fazia parte da paisagem. A Maria fazia parte da paisagem... a Nêga também... Tanta gente passa como figurante em nossa vida...
48
Melhor fantasia ♦️
Apesar de contrariar seus irmãos ideológicos do Catraca Livre, a ativista Txai Suruí apanhou sua fantasia de índia — que pareceu ter sido adquirida numa lojinha de mágica da Rua 25 de Março — e correu para a Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP26), na Escócia. Quem pagou? Certamente, alguma alma caridosa, que, querendo o bem comum, já havia patrocinado Adélio Bispo.
A narrativa do Aquecimento Global estava colando, até que começou a esfriar muito, inclusive nevar onde nunca havia ocorrido o fenômeno. Ficou mais fácil e abrangente empurrar a expressão “mudanças climáticas”. Isso pegou mais fácil que a expressão inédita que disseram ser a mais dita em 2016: “pós-verdade”.
Mas o tema aqui é, na verdade, carnaval. A militante “indígena”, Txai Suruí, ganharia, no Hotel Glória, em originalidade, desbancando o saudoso Clóvis Bornay (eterno “hors concours”). A nossa índia, que parecia uma folclórica dançarina da Banda Carrapicho, estava pronta para falar o que a oposição precisava para tentar voltar ao poder. E a menina cumpriu a função a contento, “desceu a lenha” no Brasil.
Índios brasileiros estão sendo acionados por ONGs socialistas para reivindicar terras ou apenas atrapalhar políticos mais à direita. Nessas ocasiões, eles apanham um belo cocar de esplendor multicolorido, se cobrem com penas e se armam com arco e flecha e partem para o desfile. Alguns simulacros de autóctones não se dão ao trabalho nem de esconder o calção de futebol e a bicicleta.
A nossa índia tipo exportação cometeu um ato paradoxal: espinafrou o País, mas, também, promoveu nosso turismo no melhor estilo anos 80. Raoní, Txai ou qualquer silvícola da vez, para os europeus, não passam de figuras exóticas. A ONU adora ver o bom selvagem (do Novo Mundo) frequentando nobres palácios na Europa, isso cria um impacto antropológico (o ancestral e o atual). A nobreza europeia adora um indígena de cocar e paletó. Desse jeito, os gringos continuarão pensando que aqui tem jacarés e macacos na rua.
A oposição e o Velho Continente já decidiram: esse ano tem Carnaval e o prêmio vai para Txai Suruí.
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Gaiatos num caiaque 🔵
Alguns acontecimentos desafiam a sobrevivência. Algumas pessoas foram vítimas da minha insanidade e desapego à vida, às vezes o contrário.
Meu cunhado, infectado por minha quase nula avaliação do perigo, embarcou num caiaque duplo condenado ao naufrágio, quase um novo Titanic sem violinistas. Na praia de Bombinhas, Santa Catarina, saímos na malfadada e precária embarcação.
Na saída, quase atropelamos alguns inocentes banhistas, posando para uma pretensa fotografia histórica. Mas tudo bem, as iminentes vítimas foram desviando daqueles dois malucos num desenfreado bote. Assim, conseguimos singrar o ameaçador oceano.
Não contentes em dar uma voltinha, ali na costa, fomos até uma prainha, e outra, e outra... Como disse Fernando Vannucci: “A África é logo ali”. Podíamos até descobrir um novo continente e batizá-lo, até mesmo encontrar, numa terra distante, criaturas fantásticas ou bestas mitológicas. Mas isso é coisa da imaginação de Júlio Verne, encontramos nem sequer um barco do Greenpeace ou a Greta Thunberg. A praia estava muito longe e, como aconselharia Jacques Cousteau, o bom senso obrigou a volta.
No retorno, uma tempestade ameaçou adernar nossa única salvação. Na verdade, nem chovia, nosso infortúnio era provocado por uma imprevista corrente de vento que levantava uma quantidade atlântica, e concentrada em nós, de gotículas de água marinha. Além disso, a força da água impedia o efeito da remada. Em “alto-mar”, numa situação desesperadora, sem astrolábio, sextante, carta náutica, telescópio, rádio, comida, água dessalinizada, kit de primeiros socorros ou alguém que nos guiasse pelas estrelas, tínhamos que regressar.
As correntes marítimas do sul nos devolveram à terra. Ou, simplesmente, o oceano nos expulsou, de suas turbulentas águas, por absoluta imperícia. Chegamos à areia, com a imponência dos navegadores Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo, depois de vencermos o terrível oceano Atlântico e seus imprevistos. Mas fomos recebidos com indiferença e, até, desprezo, como dois malucos que se arriscaram “por mares nunca dantes navegados”. Tamanha humilhação e opróbrio faziam de todos indignos da saudação de dois verdadeiros heróis. Somente Ernest Hemingway para reconhecer a vitória do Homem contra a Natureza.
Quando chegamos, pra variar, os banhistas tiveram que, mais uma vez, sair da frente, para terminarmos essa inédita aventura com um atribulado desembarque.
Conclusão: para nós, uma epopeia; para a Humanidade, apenas dois imbecis num caiaque.
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Simplesmente Beavis 🔵
Estávamos em cinco, voltando da Broadway - não de Nova York, mas sim a casa noturna da região da Barra Funda. Um silêncio absoluto, parecido com o Beavis. O Beavis só se manifestava quando estava revoltado com alguma coisa ou quando precisava destruir algo. Eu escrevi “precisava” porque ele, apesar de viver num silêncio existencial, não consultava ninguém, simplesmente fazia o que desse na cabeça. E nunca vinha ideia edificante. Sempre terminava com prejuízo e o revertério era isonômico e democrático, pois era repartido entre todos.
Foi assim, nessa noite. O ‘hot dog’ da porta da Broadway já era passado, bem como a euforia da balada, só restava o relativo silêncio de uma São Paulo que não dorme, mas diminui o ritmo. Algumas sirenes e buzinas interrompem a impressão que a cidade descansa. Entramos no terminal rodoviário, que servia de caminho para o Metrô. Faltava pouco para os trens começarem a circular.
De repente, um estrondo breve, mas ensurdecedor, feriu o silêncio inebriante da noite paulistana. Só poderia ser uma pessoa: o Beavis! Na principal maneira dele demonstrar seu patológico e crônico descontentamento com o mundo, meu amigo calado quebrou sua costumeira quietude. Fez a única coisa que julgou ser possível para ser notado e ouvido pela sociedade. Parecia que a sociedade mais uma vez ignorou o Beavis, mesmo tendo se comunicado por meio de uma ruidosa destruição. Os amigos apenas reclamaram e seguiram ensimesmados.
Subindo a escada em zigue-zague para a estação, o clique de um revólver sendo engatilhado nos recebeu. No fim da escada, um segurança nos esperava. Um dos meus amigos ameaçou uma meia-volta impulsiva, mas foi rapidamente dissuadido pela mira do revólver. Como assaltantes de banco, fomos, em fila indiana e sem muita gentileza, conduzidos para, provavelmente, sermos “eliminados” e “desovados” em alguma “bocada”. O segurança pensou que ganhou a tediosa madrugada. A decepção veio quando, depois do interrogatório, descobriu que ninguém pertencia ao Primeiro Comando da Capital (PCC), “O que ele pensou ser a facção que atua dentro e fora dos presídios”, era apenas um bando de moleques insones e inconsequentes. Houve algum bate-boca e os ânimos exaltaram-se, mas logo a poeira baixou e o segurança se prontificou a “servir e proteger”.
Toda vez que o Beavis estava mais quieto que o habitual, já sabíamos: era iminente uma encrenca inversamente proporcional à quietude do meu explosivo amigo. Tenho certeza, ouvirei falar dele quando encontrarem uma bomba num shopping ou alguém invadir uma escola armado com uma metralhadora e granadas.
Concluindo: o Beavis jogou para o alto uma placa de trânsito. Apesar do intuito, para ele não parecia haver sentido.
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Zé de Abreu e sua pior interpretação ⚫️
José de Abreu resolveu contrariar toda a sua carreira e assumir o papel de canastrão. O ex-global não pode tropeçar numa filmadora, que ri afetadamente ou chora de dar dó. Apesar da motivação pessoal e intransferível, o petista finge que está agindo por razões humanitárias.
Outro dia, Zé de Abreu encontrou uma câmera dando sopa e atacou: ao presidente, dirigiu um impropério repetidas vezes e gargalhou teatralmente ou, provavelmente, de maneira manicomial (sei lá). Revelou mais um comportamento desesperado, pura técnica artística.
Logo depois, numa entrevista em Portugal, chorou. O ator não foi capaz de comover ninguém que conhece seu histórico de militante petista. Em prantos, Zé dava dó, Pena por ver um ator na sua pior representação, lamentando o fim da boquinha, sinalizando virtude ou pagando pedágio ideológico à “turma” patrulheira. Mesmo sem lágrimas, o farsante pôde exibir toda a sua técnica interpretativa aprendida na escola de teatro do Alberto Roberto (Chico Anysio).
Mesmo que pessimamente fingido, não é difícil que tenha interpretado ao rir e, no outro extremo, chorar. A desconfiança é porque ambas as manifestações foram exageradas. Pois é, criticado pela fanfarronice na televisão portuguesa, o artista agiu escatologicamente, como sempre, xingando.
Cuspindo e xingando, ele segue mostrando todo o seu engajamento e preocupação social. Assim prossegue, afinal o interesse é justo e defende, como um soldado, a causa do partido e, principalmente, pessoal, fingindo que é a vontade da população.
É melancólico esse último ato. Qualquer youtuber mirim sabe que não é recomendável discutir com “haters” na internet. Contudo, desavisado, é exatamente nessa modalidade de “trolagem” que o vilão da vida real caiu. É muito provável que ele esteja discutindo marxismo, ideologia, esquerda, direita e comunismo com algum pirralho, porque quando as ofensas são cara a cara: uma cuspida resolve tudo.
O septuagenário está fazendo questão de escorregar em cascas de banana, discutindo com quem o xinga de “mamateiro da Rouanet”. José de Abreu se tornou um ator (mentado).
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O último Carnaval 🔵
Numa cama de hospital, em 2009, eu balbuciei à enfermeira: “ano que vem, no centenário do Corinthians, vou sair pela Gaviões da Fiel, no Anhembi”. O hospital estava ficando vazio e silencioso. Era sexta-feira de Carnaval, a enfermeira, acostumada com aquele nível de delírio, achou que eu era mais um paciente com mania de grandeza, entupido de remédios. Deu um leve sorriso, fez que concordou com aquele absurdo e saiu do quarto.
***
No ano seguinte (2010), 100 anos do Clube do Povo, estávamos minha irmã, meu cunhado (de novo!) e eu, num ônibus velho, rumo ao Anhembi. O samba-enredo iria contar a história do centenário. A fantasia era um tanto ridícula, desfilar é ridículo, o Carnaval é ridículo, a Quarta-feira de Cinzas é ridícula. Durante essa festa, é permitido ser ridículo sem explicar o porquê. Pois bem, a fantasia, que parecia uma roupa de presidiário, era composta por um inexplicável chapéu e uma placa com a inscrição: “Abaixo a Ditadura”. Essa é a minha descrição; uma descrição mais detalhada, somente com algum carnavalesco.
As alas, repletas de turistas deslumbrados, estavam apinhadas (“pois assim se ganha mais dinheiro”). Fiquei mais tranquilo: entre alegorias e adereços, eu esconderia minha falta de samba no pé. A plateia e os implacáveis jurados não testemunhariam minha súbita falta de coordenação. Eu tinha certeza, aquele ano, se a Gaviões fosse rebaixada, a culpa seria minha; se fosse campeã também, era evidente, eu seria o responsável, pois nem a comissão de frente, nem a velha guarda, nem o mestre de bateria e nem o mestre-sala davam mais o sangue pela Escola do que eu. Quase que deixei o meu sangue, literalmente, tentando compensar a cintura travada, com esforço e dedicação.
Fui escondido entre a minha irmã e meu cunhado - eu estava em convalescença -, para garantir a travessia da Passarela do Samba sem prejudicar o desfile, que foi ensaiado (pelos outros) durante um ano. Diluído na multidão de passistas, eu pude disfarçar meu molejo de japonês, “sambando”, com as palmas das mãos, ora arriscando os dedos indicadores em riste. Havia vencido aquela avenida como um detento no Corredor da Morte, mas tudo saiu bem. Ainda suspeito que a Leci Brandão pesquisou minha árvore genealógica à procura de algum afrodescendente. Vivi um dia de estrangeiro em São Paulo.
Após a manifestação artística do imaginário popular e do folclore brasileiro, experienciando e vivenciando a alegria do baluarte que é o folião... Abandonando esses lugares-comuns de intelectual da USP teorizando o Carnaval, eu só queria sair dali e tomar umas cervejas geladas até começar a Quaresma. E foi isso que fizemos num barzinho da Zona Norte, relembrando o que acontecera há minutos.
Blog:”Gazeta Explosiva”
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Crônica de gelo e fogo 🔵
Esta crônica fala de homens disputando algo que não é palpável nesse mundo materialista. A contemporaneidade e suas facilidades não eliminaram o propósito atávico do Homem. O que fizeram vikings, visigodos, saxões, suevos e demais povos bárbaros, hoje é replicado por um bando de moleques irresponsáveis, num sábado à noite, indo pra balada. Em vez de cavalos, carros; em vez de espadas, um modesto estilete; e em vez de vencer longas distâncias para caçar, pilhar e conquistar terras, apenas sair de “rolê”.
Estávamos em três, descendo a principal avenida de Guarulhos. Tempos bicudos, quando a duras penas, uma geladíssima cerveja era parida a fórceps, com um rateio de moedas. Dinheiro curto e pavio também. É o 8 ou 80 da pouca idade, onde amigo não é aquele que separa a briga, mas sim o que aparece, do nada, dando uma voadora.
Pois bem, andando na avenida, passa um carro e alguém, lá de dentro, grita alguma coisa. Eu não sei o que gritaram, mas não deve ter sido algo muito legal. Deve ter sido um insulto, porque eu não deixei o autor sem resposta. Eu não precisava de álcool para xingar ninguém, mas, junto à criatividade e à coragem, eu já contava com o aditivo etílico. Portanto, foi fácil escolher um impropério do meu vasto vocabulário.
Quando começaram a parar um... dois... três... quatro carros, eu saquei a inconsequência do impulsivo ato. Nesse momento, na minha mente, a minha vida passou como um filme. Enquanto eu, atônito, via tudo se acabar, pra piorar, presenciava o meu exército dividindo-se. A metade covarde enfiou a cabeça entre os ombros e sumiu por anos, talvez pelo vexame de carregar, eternamente, a pedra da vergonha. A metade valente e camarada de verdade voltou, com seu velho estilete entre os dedos. Pronto, agora seríamos dois a levar uma surra histórica. Quem presenciava o que estava para acontecer já poderia telefonar para o SAMU ou o Resgate, trazendo a pá.
O dia virou noite, a noite virou dia e ficou claro que era chegada a hora onde se revelariam os inimigos verdadeiros e os falsos amigos. Hombridade e retidão de caráter separariam homens de meninos.
Meu amigo estava se alistando num exército inferior (numericamente e materialmente), numa batalha perdida e se fosse um jogo, de derrota sabidamente iminente. Em tempos em que se prefere filmar com o celular, em vez de enfrentar a situação, esse episódio contém um punhado de valores abstratos e raros: honra, coragem, amizade... Vou parar, senão vai parecer que eu “maratonei” Game of Thrones e corri para escrever isto.
Para nossa surpresa e alívio, os primeiros a descerem do carro vieram cumprimentando, como se nos conhecessem. Fizemos o mesmo, sem saber o porquê daquilo. Aquela atitude inesperada talvez tenha ocorrido por um código de ética pela coragem demonstrada, em detrimento da covardia, do falso amigo, que se revelou.
No fim, tudo ficou na paz. Saímos ilesos, diferentemente do medroso que, para não perder o costume, sumiu de vergonha e medo.
Coragem só se mede em ambiente hostil. Cheios de confiança, fomos esvaziar umas garrafas.
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Quitutes 🔵
Talvez fosse a menor confraria/sociedade secreta do mundo. Como era tradição, meu cunhado (sempre ele) e eu fomos beber umas cervejas num inofensivo boteco pé-sujo afastado da cidade. Às vezes, vamos parar em um empório. Na minha observação de turista, esse tipo de estabelecimento é até mais a cara do interior, autêntico. O empório é muito pitoresco porque vende de defensivo agrícola a alimentos.
Foi quando ela surgiu. Como o som de um LP riscando, uma irritante microfonia ou um espelho quebrando, a... moça, interrompendo a conversa, ofereceu seus atributos femininos, como se a oferta fosse algo irrecusável. Não estávamos embriagados o suficiente, de modo que nosso senso estético obrigou-nos a declinar da generosa, gentil e explícita oferta. Traduzindo, para não tão bom entendedor: estava cedo demais para aquela coisa fofa virar uma princesa.
Não era possível permanecer no recinto. O horário e a frequência naturalmente espantavam os mais religiosos ou os que somente mantinham hábitos mais familiares. Sentimos o ambiente, outrora acolhedor, inóspito. Partimos.
Devido aos acontecimentos, a saideira tornou-se algo muito perigoso. O jeito seria trocar de boteco, abrir umas garrafas em casa (local salubre) assistindo a algum programa esportivo ou adiantar o Engov ou a aspirina e chá de boldo.
A caçadora avistou potenciais presas, talvez mais suscetíveis aos seus imaginários encantos. Pobres almas que, desavisadas, seriam vítimas fáceis da teia da “Viúva Negra” caçadora. O enganoso canto da sereia, subterfúgio da “Bruxa do Mar” encontraria terreno fértil para suas incursões erráticas. De mesa em mesa, alguém não resistiria a seus atributos e ela haveria de traçar seu destino.
No fundo, tudo é muito patético, triste. A moça estava apaixonada pela cerveja, oferecendo o que parecia possuir de maior valor em troca de um mísero copo da bebida e, talvez também, um punhado de salgadinho barato. Para ela, uma vida miserável, quase sem escapatória; para nós era apenas uma situação embaraçosa, da qual a saída era a avenida mais próxima.
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