O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Todos faziam questão de estampar uma cara de quem estava num bar de rock. Eu estava num território manjado, onde quase todos se esforçavam para parecer alguém mais interessante do que realmente eram. Com meu jeito despojado, bem como a parada repentina naquele barzinho, me faziam, sem esforço, parecer alguém pior do que realmente eu era. Isso às vezes funcionava, porque o campo para surpreender é enorme. Entretanto, algo poderia me introduzir num “lugar-comum”: o gosto por clichês.
O bar até que era bem legal, parecia e tinha o clima do porão de um navio — foi essa minha melhor descrição —, tinha uma boa banda de rock e estava lotado. Tudo dava a impressão de estarmos numa festa americana, na qual todos sabem os papéis que tinham a obrigação de representar. Cada grupinho refratário a interferências ou alguma mistura comprometedora: populares, atletas, nerds, esquisitos e os sem-grupo. Essa configuração é muito ‘Sessão da Tarde’, muito clichê. Esse desenho já seria o bastante para eu observar a ridícula movimentação, a diferença é que eu estava no meio daquele filminho meio bobo.
Para agitar mais ainda o que já não prometia tédio, um cara covarde e embriagado além da conta espancava sua (dele) namorada no banheiro. O boteco parou para conferir o que interrompia aquele caos organizado. Os seguranças aproveitaram a oportunidade de encontrar um indivíduo mais covarde que eles, então surraram, com alguma legitimidade, o rapaz. Com algum eufemismo, eu diria que o cliente foi “convidado a se retirar. Na verdade, ele foi jogado pra fora do nosso novo “templo de diversões”. Contudo, o baterista aproveitou o clima permissivo para tirar sua “casquinha”. O baterista, vendo que os seguranças transportavam um corpo desfalecido pelo álcool e alguns golpes, juntou as baquetas numa mão e castigou o outrora agressor como o bumbo de sua bateria.
Meio que querendo voltar para o ambiente de confraternização e seguindo aquele tácito roteiro clichê de classificação livre acima dos 14 anos, eu fui impulsionado a romper aquele silêncio constrangedor. Gritei “ROCK AND ROLL”, a banda começou a tocar e os clientes a beber, rir e conversar. Assim, a festa seguiu seu roteiro previsto, sem cortes, previsto como os clichês.
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🔵 O cantor bêbado
O Antônio Marcos estava bebendo na padaria! Com essa efusiva exclamação, algo prometia interromper a rotina daquela casa. Mas quem foi o Antônio Marcos? O cantor e compositor fez muito sucesso como cantor romântico, também na Jovem Guarda. Agora estava ali, numa padaria perdida num bairro de Guarulhos, equilibrando um copo com álcool, contando as histórias do mundo artístico e algumas piadas de salão.
Em casa, logo a notícia se espalhou. A partir desse momento, a curiosidade revezou a frequência àquela padaria. No começo dos anos 80, meus irmãos e eu éramos muito novos, mas suficientemente observadores para relatar o que estava acontecendo: a pessoa que cada um encontrou não era a mesma. Os efeitos do álcool fizeram que os que chegassem depois, encontrassem um cantor mais, eufemisticamente, extrovertido. O processo de transformação tornava difícil o reconhecimento da figura cambaleante e histriônica que performava na velha padaria, escorado na geladeira de sorvetes. Definitivamente, ao vivo aquilo era chocante, portanto a televisão sempre enganou.
O cantor e compositor fazia um exagerado “esquenta” antes de um show no teatro do bairro. Mesmo sem idade suficiente para saber do drama pessoal, era evidente que aquele sujeito logo arruinaria sua própria apresentação. Mesmo assim, o périplo continuou, afinal era famoso, que aparece na TV, “alguém importante”.
Aquele curioso evento era um fragmento da história do músico. Aquilo que víamos, infelizmente, era um capítulo do descenso pessoal. Ou melhor (ou pior), o diagnóstico da derrocada. O que, para mim, era apenas um artista alterado e contando uma piada de papagaio, representava um prato cheio para os fofoqueiros da época.
O astro da TV, das revistas e do rádio jazia ali, escorado numa geladeira de sorvetes, contando causos e piadas que, hoje, devem disseminar o tédio no Retiro dos Artistas. Pelo que sei, não chegou a arruinar a apresentação. Lógico que não tive uma boa impressão do primeiro artista que vi fora da tela de um aparelho de televisão.
Muitos anos depois, com a morte do cantor, fiquei sabendo que presenciara o contrário, aquele cara estava sendo consumido vivo pelo alcoolismo. Eu era testemunha de um ídolo em decadência.
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🔵 Um bom espetáculo
Cheguei no histórico teatro da PUC, o Tuca. Ao mesmo tempo, vinha o grupo musical, com visual típico de roqueiros. Tinha certeza que eu não havia errado, aquele ‘show’ mudaria minha relação com a Música.
Adentrei um ambiente novo, para mim, e estranho para os espetáculos musicais que eu conhecia, mas não hostil. Tudo era diferente e muito confortável, comparado aos festivais de estádios. Lá, sim, nos antigos estádios o território era hostil e tudo concorria para que o espectador vivesse a pior experiência possível. Mas, ignorando os obstáculos — talvez pela pouca idade, muita energia e disposição para enfrentar quaisquer autoridades e proibições —, aquilo era divertido.
Alguma mudança estava acontecendo. Cabelo bem penteado, bem vestido e comportado, parecia até que eu estava indo a um casamento. Mas não, ali era o teatro da PUC, mas a apresentação não seria associada a nenhuma manifestação estudantil. Acostumado a encher a cara com cerveja em festivais de rock, talvez fosse chegado o momento de degustar um café e mastigar um ‘croissant’.
Encontrei a fileira e minha cadeira na plateia. Em vez de AC/DC, Nirvana e L7, ouvia Gilberto Gil, Djavan e outros músicos que, ao invés de gritarem, apenas cantam. Enquanto lia um programa do teatro, relaxava ao som da MPB ambiente. E assim foi, até desligarem o som, apagarem as luzes, informarem as instruções de segurança, darem três toques sonoros e uma voz desejar “um bom espetáculo”.
O conjunto Boca Livre entrou no palco do Tuca e “destruiu”. Aquilo representou uma disrupção — ou um chamado — em tudo o que eu entendia como música tocada ao vivo. A partir dali, um semitom não seria mais tolerado e era hora de eu tomar uma atitude e aprender a tocar violão.
Saí dali sem tomar o café, mas crente de que a música boa e inspiradora não vinha de tão longe, como Seattle, e arremessada num estádio de futebol para uma multidão ensandecida; poderia estar aqui no Brasil, num teatro de Perdizes ou num barzinho do Bexiga sendo executada para um auditório bem comportado.
O grupo sempre me remeteu a um passado distante. Quando, no rádio, tocavam boas, contudo velhas canções, vinham como algo empoeirado. Entretanto, na década de 90, na casa da minha irmã, assisti a uma rápida entrevista, bem como a nova formação do Boca Livre, num programa de TV. Já não tinha ficado perdido no passado.
A apresentação do Tuca foi só a primeira que vi, depois fui a muitas.
Em 2021, a polêmica dessas vacinas e tudo o que envolve a polarização cindiu o Boca. Concluindo: aquela reformulação do conjunto, nos anos 90, ficou muito no passado, empoeirada.
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🔵 Jornal pra embrulhar peixes e bananas
Não perdia tempo. Assim que anunciavam que havia uma pilha de jornais, eu corria resgatá-los. Eu vendia os impressos na feira, que usava-os para embrulhar bananas e peixes. Era um triste fim para textos de excelentes jornalistas, mas poderia ser bem pior. Os periódicos eram das semanas anteriores, portanto velhos para manter-me por dentro dos últimos assuntos, porém novos para embrulhar peixes e bananas.
Essa era uma maneira de juntar algum dinheiro e exigir uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e troco de bala no recreio da escola.
Essa prática laboral era precocemente capitalista, embora voluntária. Atualmente seria considerada trabalho infantil, talvez abandono de incapaz, e eu estaria condenado a engolir a merenda escolar servida pela prefeitura de Guarulhos. Também ficaria entregue à completa ignorância, isso porque não me desfazia dos jornais sem que fossem folheados. Com esse ritual, não deixava escapar as principais reportagens, colunas, opiniões, suplementos de cultura, esportes e, lógico, as tirinhas. Comigo, os noticiosos exerciam a nobre função de formar alguém intelectualmente. Após minha pueril triagem, a Folha de São Paulo cumpriria uma função menos nobre.
Na feira-livre de domingo, não sei por qual motivo, eu conseguia realizar o meu comércio com certa vantagem. Talvez fosse romântica a imagem de um garotinho arrastando um carrinho cheio de jornais entre frutas, legumes e verduras.
Antigamente, a Folha de São Paulo era escrita por escritores melhores, não militantes políticos por isso era mais confiável; hoje, com tiragem muito menor, é eivada de “fontes” (“bucha de canhão”) pouco confiáveis: é um tal de “dizem especialistas” (escolhidos) e “diz leitor (quem?).
Manchetes confundem-se com “click bait” (caça clique) e matérias são escritas com a profundidade de um tuíte. “Ideias” já não são submetidas a uma reflexão mais embasada ou à lata do lixo.
Atualmente, jornalistas escrevem ameaças de morte: soma de militância política barata, falta de criatividade e sabe-se lá o que mais, talvez ausência de caráter. Nesse caso, os jornais já não sirvam nem para embrulhar bananas e peixes. A única utilidade é algo que nem sequer citarei.
“Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.
Raul Seixas cantou, alertou ou profetizou?
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🔵 Diversões eletrônicas
Entrei naquele cenário que era a descrição mais perfeita do que sempre classifiquei como “inferninho”. A descrição é desoladora: um bando de desocupados e escravos do vício. Entregues ao álcool e ao tabaco, largavam latas vazias e bitucas ou tocos de cigarros semi consumidos.
Fora outras cenas incompreensíveis, era esse o panorama encontrado no “fliperama” Colorado. Esse “inferninho” provavelmente abrigava o que havia de pior e mais desolador na sociedade oitentista.
Revelando a desesperança de mais de vinte anos de governo militar, aquela juventude gastava o seu tempo e algum dinheiro num “fliperama” imundo, entretendo e esquecendo a monotonia, entre máquinas de diversões eletrônicas.
Distraindo pessoas escondidas no concreto impessoal da Grande São Paulo, restavam as companhias do Pac-man, Rally-X, Cavaleiro Negro, Shark... Prevendo que alguém que se divertia com seres pixelizados ou uma esfera doida precisavam de entorpecentes, as máquinas vinham equipadas com cinzeiros. Variando entre “arcades” e “pimballs”, a juventude da incipiente “década perdida. gastava tempo, fichas e o troco do pão com a “brincadeira viciante”.
Somente a idade contada em algarismos unitários pode explicar o impacto daquele panorama, bem como a atual idade pode produzir uma reflexão mais aprofundada do que significava aquilo.
Esse hábito — ou melhor, esse vício — se estendeu por outros CEPs; em cada cidade, a localização do “fliperama” tinha a mesma prioridade que a sorveteria. Essa febre se esgotou, felizmente, no Atari. Apesar de eu não substituir o futebol na rua pelo joguinho eletrônico, gastei algumas tardes esfarelando o “joystick” inconfundível do disruptivo videogame.
A máquina preta que “estraga as vista” virou febre em 1983, e (sabe-se lá em quantas parcelas) meus pais conseguiram obter um exemplar do revolucionário brinquedo. O objeto que veio da falecida Mesbla mudou os hábitos da casa: em horários inimagináveis, sempre havia uma alma insone sentada diante do console. “Flashs” estroboscópicos e tiros vindo da sala preenchiam a escuridão. Sem saber, meus pais recuperaram um menor hipnotizado pelas luzes coloridas do Colorado.
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🔵 Liberdade ainda que tardia
Logicamente, aconselho que ninguém faça algo parecido. É perigoso em vários sentidos. Entretanto, trabalhando durante o dia e estudando de noite, ducha quente, jantar no prato e cama aconchegante se tornam urgentes. Assim, cabular aula não era uma infração, mas uma necessidade.
Fugir do colégio era muito desafiador, lembrando a dificuldade enfrentada por quem tentava ganhar o lado de fora da prisão de Alcatraz.
O primeiro desafio era juntar e convencer um punhado de rebeldes que “não dessem pra trás”. Reunida a turma, que bem parecia ser a escória do sistema estudantil da época, era chegado o momento de despender um esforço muito maior que qualquer equação exigiria. Mas antes, uma observação: o aspecto era desanimador. Roupas mal ajambradas, cadernos e canetas insistindo em desafiar a gravidade, postura alquebrada e disposição que denunciava que não conseguiríamos chegar muito longe. Contudo, o motivo da fuga parecia nobre, apesar de estar ciente que alguns de nós, assim que ganhassem as ruas, iriam ao fliperama (casa de jogos eletrônicos).
De qualquer maneira, aqueles maltrapilhos haveriam de estar lá fora, sob o risco de ficarem entregues aos vícios de fora da sala de aula: cigarro e truco. A aula de matemática, de qualquer forma, ficaria fora do cardápio.
Apesar de não frequentarmos as aulas de Educação Física, era necessário algum preparo físico, porque, logo de cara, escalaríamos um alambrado de um 3,5 mts. Vencido o alambrado, tivemos que atravessar uma quadra poliesportiva. Cumprimos esta etapa, correndo curvados para diminuir a silhueta da fila de fugitivos na escuridão, sempre tomando cuidado para não despertar a atenção do inspetor de alunos.
Logo depois, uma valeta imunda acrescentaria cuidado à fuga. Era tarde demais para haver algum desistente, então seguimos o longo percurso tomando cuidado para não aumentar a escatologia da ideia porca. A valeta seguia por um caminho que, provavelmente, terminaria na sarjeta, logo, na rua. Não poderia haver lugar mais apropriado para 5 jovens “matando” aula: a sarjeta. Porém, havia mais um empecilho, a valeta seguia íngreme e poderia causar um acidente constrangedor. Como a combinação de fatores era vergonhosa, decidimos subir por uma floresta que devia ser resquício da Mata Atlântica. Como não troquei um punhado das malditas equações por rudimentos de ornitologia e botânica resolvi enfrentar aquela pequena selva sem maiores observações.
Aquele pequeno matagal ao longo da montanha úmida seria a etapa mais difícil, porém a derradeira, por isso o ânimo, já que estávamos a um passo de conquistar a tão sonhada liberdade. Foi perseguindo este objetivo, sujos, machucados, suados e quase chorando, mas com “sangue nos olhos”que pulamos o muro que separava o interior opressor da escola da imensidão permissiva da rua.
Alcançando o lado de fora da escola, acreditamos ter conquistado a sonhada liberdade; anos depois, mas a tempo, descobri que o caminho mais curto, seguro e fácil de conquistá-la é dentro da sala de aula. Em concursos públicos e vestibulares, tenho certeza, as questões que eu não soube responder foram ensinadas nas aulas que cabulei.
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🔵 Máfia Ceciliana
Máfia Ceciliana, aquele letreiro roubava a atenção de quem passava ali. Comigo e minha namorada não foi diferente. Gostando muito do assunto, não perderia a oportunidade de furar a “Lei Seca” numa casa que fazia alusão ao crime organizado do longínquo início do século XX, mesmo que quase 80 anos depois.
Entramos no recinto como se estivéssemos invadindo um território sagrado ou proibido. Melhor dizendo, como se ali fosse uma “speakeasy” (bar disfarçado para enganar a Lei Seca), e estivessem presentes alguns dos “capos” das famílias mafiosas dos Estados Unidos.
Mesmo sem a indicação de alguém, puxamos as cadeiras e começamos a examinar o local. A “omertà” (código de silêncio) apenas permite contar uma pequena parte do que vimos. Pois bem, a primeira impressão, desagradável, foi de que entrávamos de penetras no final de uma festa. Enquanto éramos observados, reparávamos na decoração do bar temático; o que mais chamou nossa atenção, era uma, digamos, instalação artística — uma mesa de pôquer e alguns gângsteres pendurados no teto.
Apenas duas mesas estavam ocupadas: em uma delas havia uma única pessoa, um sujeito pouco afeito aos cuidados de quem sai de noite, estava acompanhado de um copo e um toco de cigarro. Introspectivo, circunspecto e depressivo, parecia querer compartilhar sua solidão. Sua alternativa seria, com a televisão sintonizada num canal de televendas, perambular por um apartamento minúsculo e imundo do Minhocão.
O músico ocupou o seu banquinho e começou a executar algumas canções. Depois, descobri que o sujeito solitário com cara de filósofo suicida era o autor de algumas das canções. O violonista parecia ter consciência de que o palquinho de um restaurante era pouco pra ele; o nosso filósofo de botequim demonstrava certo orgulho por seu pensamento estar, enfim, sendo espalhado nas noites de São Paulo; ambos, provavelmente, julgavam-se “gênios incompreendidos”.
Do nada, apagaram-se as luzes. Aumentou uma trilha sonora e alguns focos de luz iluminaram um artista no teto e um pano. Sabendo que aquele número foi preparado para nós, paramos tudo e prestamos atenção no espetáculo. O conjunto de evoluções no tecido (do teto ao solo) resultou em algo muito bom. Atendemos as expectativas e aplaudimos o artista.
Pronto, um artista mambembe, um poeta maldito, uma mama italiana, uns garçons meio preguiçosos e um casal avulso. Naquele cenário que emulava o clima mafioso, era fácil adivinhar que o papel de vítima já estava reservado para nós. Não restando outra saída, pedimos mais uma cerveja.
Como se colocássemos uma ficha, assim que chegamos cada funcionário foi acionado e exerceu sua obrigação: os garçons nos serviam como a nobreza, o músico tentou nos agradar, o artista executou seu número, quase perdendo a vida, porque quis dar o melhor de si e impressionar a pequena plateia. E a “Chefa” orientando cada um a ocupar sua função.
Somente quando saímos do recinto, fizemos a bem sacada associação do nome do lugar ao bairro paulistano onde estávamos: Santa Cecília. Era o ano 2.000, bebida alcoólica liberada, São Paulo, Brasil, entretanto, por algumas horas, experimentávamos algo que emulava um ambiente proibido, secreto e alheio à capital paulista.
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🔴 O terrível retrato
O menor dos males que a horrorosa reprodução poderia causar era o superfaturamento. Pois como a corrupção é praticamente obrigatória, a bem-intencionada suposta “homenagem” foi muito mal executada. O retrato dá calafrios em qualquer um que o encare.
A sinistra moldura foi encomendada por Geraldo Alckmim. A movimentação financeira talvez seja a explicação para a curiosa homenagem. Tentando reproduzir o que somente tecnologias como a toxina botulínica (botox), o Photoshop ou um filtro de imagens conseguiriam, o artista encarnou Leonardo da Vinci e pintou um José Serra parecido com um mordomo de filme de terror. Exibindo um sorriso sinistro, nada poderia ser mais parecido com a realidade. Na verdade, parecida é a cara macabra; o sorriso é que tentou dar um aspecto mais jovial. Sem sucesso.
Geraldo Alckmin, como se não demonstrasse um inconfessável péssimo gosto ao encomendar a horrenda peça, também expôs o lado mais obscuro da sua índole, aproveitando a oportunidade para exercer corrupção.
Agora, quem passa em frente ao retrato tem a desconfortável impressão de ser observado pela criatura da moldura. O ser enigmático retratado no quadro, justamente por representar José Serra, na tentativa de exaltar suas características mais positivas, exagerou no sorriso. Foi no exagero que o, vá lá, artista estampou um sorriso que, combinado com a artificialidade do conjunto, gerou um olhar jocoso, denunciador e reprovador. A simples presença do quadro deveria dissuadir um possível meliante de exercer seus métodos sub-reptícios.
A pretensa obra de arte acertou onde não pretendia e agora ameaça assombrar aqueles que cruzarem o caminho da incidental exposição. Se se duvidava que algo fosse mais terrível que uma encarada do próprio José Serra, a resposta é sim. Encarar a imagem do ex-governador é tão maléfico quanto.
O fato é que a, digamos, obra foi superfaturada. Encomendada para, por assim dizer, decorar o Palácio dos Bandeirantes, o autor pecou ao querer retratar um José Serra “filtrado”; se seguisse a carranca habitual, a reprodução sairia fiel ao modelo.
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🔵 Morrison Rock Bar
O “grande astro” da noite subiu ao palco. O barzinho de rock era bem acanhado, escondido na parte baixa da Vila Madalena, na verdade, Pinheiros. O local não lembrava nem de longe as grandes casas de espetáculos, muito menos os estádios. Havia pouquíssimo tempo para executar o rock mais tocado nas rádios em 97. Quem sabe, depois disso os mais distraídos se lembrariam de quem se tratava.
Embora digno, Henrique Lima não planejava isso para sua carreira: cantar e tocar para um punhado de bêbados num boteco de São Paulo. Pior que isso: alguém, embriagado e saudoso, berrando ininterruptamente para tocar “Bagulho no Bumba”, seu solitário sucesso.
Você que, sem ligar o nome à pessoa, pergunta: quem diabos é Henrique Lima? Eu respondo: o vocalista da banda “Os Virgulóides”. A banda, “descontraída”, surgiu no vácuo deixado com o desaparecimento dos “Mamonas Assassinas”.
O, então, despercebido músico paulistano sabia (estava acostumado) que após os primeiros acordes de ‘Bagulho no Bumba’ as coisas mudariam: Ele deixaria de ser o famoso “quem(?)” e a plateia olharia com mais atenção, talvez inveja.
Não deu outra, como esperado o velho sucesso, de tanto que tocou nas rádios e nas areias das praias, quando reproduzido ao vivo gerou comoção, um coralzinho honesto e despertou a memória afetiva na mais insensível das criaturas.
Por uns minutos até que foi legal lembrar da musiquinha que embalou alguns dos irresponsáveis finais de semana no litoral; mas, terminada a exumação da canção, tudo voltou a resumir apenas mais uma noite de sábado,
Entre conversas, risadas, vai e vens dos copos e alguns aplausos, Henrique Lima tocava como nos tempos de Rock In Rio ou com a mesma aplicação de quando vendia mais de 200 mil cópias.
É isso. Um dia você dedilha as cordas da guitarra e canta para milhares de pessoas; no outro, a mesma coisa distrai uma galera ensandecida, numa espelunca da Vila Madalena.
Henrique Lima parecia se vingar quando cantou: “É, é, é, é... Eu acho que o bagulho é de quem tá de pé”.
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🔵 Restaurante impagável
Chega de peixe! Cansados de frutos do mar e seu respectivo cheiro, bem como, dizem, o sabor da água, fomos a uma pizzaria de São Vicente, litoral paulista.
O que era para ser um tranquilo momento para matar a fome, se transformou num episódio inesquecível de suspense, paranoia e, às vezes, terror.
Um garoto até esquece da vida quando saboreia uma pizza sem se preocupar com a conta. Mas quando decidem sair sem pagar e... correndo. O que seria uma noite no calçadão do litoral, ganhou um enredo de filme policial dos anos 70, com trilha sonora.
Meu cunhado e minha irmã começaram a planejar a fuga. Mesmo assustado com a situação e mastigando (com dificuldade) os últimos pedaços (amargos) da borda com catupiri, eu calculei qual seria o meu papel no pinote caloteiro. Enquanto o plano era urdido, eu, olhando para a cara deles, sem querer acreditar muito naquilo, pensava, balançando a cabeça em desaprovação: eu sempre desconfiei desse cara, mas minha irmã... Eu não posso me envolver nessa sujeira e tenho que tirar a minha irmã do mundo do crime.
Quando retornei do solilóquio moral a estratégia havia avançado e, pior, eles haviam decidido qual seria minha participação na prática delitiva.
A pizza já havia sido devorada. Aquele cenário de assadeira somente com farelo, talheres abandonados e pratos com tomates e caroços de azeitonas desprezados, ilustravam meu ânimo e indicavam, num tic-tac imaginário, que a hora estava chegando.
Nessas alturas, eu já me sentia partícipe de um roubo a banco. Não teria alternativa, nosso destino seria algo como o presídio de Ilha Grande ou Alcatraz. Nunca me importei com isso, sabia que o estado de nossas prisões era deplorável. Na tal “escola do crime” eu, que iria fugir duma pizzaria sem pagar, seria preso com assaltantes de bancos, assassinos e traficantes.
No auge da “brincadeira” eles revelaram a farsa. Meu “background” cinematográfico facilitou um planejamento que jamais revelei. No fim, tentando rir daquilo tudo, eu disse que sempre soube que se tratava de “zoeira”. Acho que nunca convenci, mas com a dificuldade para juntar os trocados e quitar a redonda, acredito que a ideia de sair correndo sem pagar foi realmente debatida entre o casal.