Lista de Poemas

Áurea Cinzenta

O luar
 da cidade
escondeu-se
entre as fases
das faces pálidas
dos sóis insossos,
Sem céu.


Do livro, O Rio e a Criança.
 
 
 
 
 
 
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Um Gesto de Amor

Faria um mundo melhor sempre que pudesse. Mas se ele acabasse hoje, inventaria outro tão especial quanto esse para nós. Porém, no lugar do egoísmo desenharia uma primavera, no da indiferença, pintaria um jardim – onde haveria um casal de jardineiros cultivando as sementes da arte: gotas de orvalhos, flores, espinhos, pássaros, insetos, e, crianças, ainda inocentes, brincando com gude, de pega-pega, esconde-esconde ou bolinha de sabão...

Se o sol não brilhasse mais lembraria que havia apanhado no quintal de uma doce velhinha uma semente de girassol e só a fim de olhar para você acenderia uma luz, de uma vez por todas diria-lhe: não me deixe mais aqui tão só!

Se a lua se apagasse para sempre, mergulharia no mais profundo dos oceanos, pegaria uma estrela e faria refletir desta esperança uma constelação de versos as noites escuras, só a fim de vê-la feliz, perto de mim ou onde você estivesse.

Se o ar fosse suprimido, cautelosamente respiraria menos, faria de um pulmão uma nova Amazônia para compartilha contigo toda a pureza dos dias, só a fim de tê-la respirando perto de mim.

Se o mar secasse por inteiro e tivesse levado toda a areia da praia, pegaria um pouco de terra do nosso jardim inventado e jogaria por onde você fosse passar, só a fim de seguir suas pegadas para carinhosamente protegê-la.

Se o tempo não tivesse favorável aos nossos sonhos enfrentaria terremotos, tempestades, furacões, secas, frios... e ao encontrá-la convidaria para tomarmos banho de chuva, só a fim de celebrarmos nossos dias no mundo da liberdade e da imaginação.

Idem, como breves inocentes, brincaríamos mais e mais com vida, até entendermos que ela não passa de uma rápida brincadeira e que seria uma grande bobagem deixa para fazer amanhã, o que se pode fazer agora.

Se a poesia fosse extinta do universo escreveria estrofes com sabores de morango e sonetos com aromas de Alfazemas nas leves correntes das brisas, e antes do amanhecer dos dias cantaria a mais bela das canções, só a fim de curar sua angustia, transformando-a numa suave e gostosa harmonia.

E se isso ainda fosse pouco para convencê-la que as nossas vivencias são recíprocas, espetaria meu dedo num espinho, com o sangue desenharia um arco íris, e sob suas cores arquitetaria um palco para encenar uma comédia, só a fim de sentir teu sorriso da plateia. Todavia, antes que o espetáculo terminasse, diria-lhe enfaticamente para que todos soubessem: se liga o show da vida só tem importância com você!
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Os Donos do Mundo

⁠⁠⁠O mundo dos “donos do mundo” é como uma roda gigante, que quebra nas suas jornadas por não suportar os excessos, precisando de reparos ao longo do tempo. Mas, infelizmente, na maioria das vezes que ela quebra, há vítimas fatais em consequências dos acidentes.
 
No mundo dos “donos do mundo” não é diferente, há sempre uma data especial para os acontecimentos de seus propósitos, onde eles fazem alguns ajustes, só que infelizmente, neste caso, são milhares de vítimas de seres humanos e de tantos outros seres vivos, inclusive a terra com seus recursos naturais, que são dizimados impiedosamente! E eles ainda dizem que tudo acontece por uma boa causa.
 
Diante disso, fazem uso de todos os meios que dispõem, seja da diplomacia, diálogo, guerra fria; seja por meio do uso da inteligência, espionagem, sabotagem, fome, pandemia... ou ainda através das forças armadas impondo ocupação, violência, tortura, estupro, saques, guerra...
 
É a ordem pelo caos, estratégias nefastas aos contos maquiavélicos dos bons moços em nome da cura e de Deus! E assim celebram uma falsa paz, onde heróis transtornados são condecorados por governos comprometidos e nefastos, liderados por governantes coagidos, às vezes, inescrupulosos, apoiados por falsos profetas oportunistas.
 
Enfim, como o dono da roda gigante necessita desta funcionando para obter seu sustento, eles, os “donos do mundo”, absolutos no que fazem, também precisam continuar dominando o planeta para terem mais lucro e poder, mantendo astuciosamente a humanidade sob controle de seus planos indestrutíveis há milhares de anos.
 
Rama Amaral
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Caricatura da Exclusão

Pingo era um pingo: preta, pobre.
Passou a vida pedindo atenção!
Um dia tinha penitência, nem todo dia tinha pão.
Pingo não tinha pinta. Pulava para patrocinar-se!
Precisava de pessoas para poder persuadir!
Precisava de previdência para viver!
Precisou de pinga pra permanecer pingando pela vida...
Pingaram apenas pinga pra Pingo, pingaram, pingaram, pingaram.
Pingo partiu...
Pingo! Pessoa! Prestável! Popular!
E perfeita para o Paraíso?
Ou padecida demais para permanecer perambulando?


Do livro: O Rio e a Criança.
 
 
 
 
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