A viagem continua… Traço um plano e faço-me ao caminho. As saudades pesam-me na bagagem. Mas não me desfaço de nenhuma. Cada uma tem o seu encanto e a sua dor. O vento sussurra palavras que não entendo. E folhas rodopiam numa dança de tons alaranjados. Há calma. Há uma serenidade que se veste de frio. Encolho-me dentro de mim num murchar absoluto. Assaltam-me considerações perversas e patéticas. Cresce uma fome de desapego. Tiro dos bolsos as memórias que trago. Deixo-as ficar pelo caminho num rasto de luto. Prossigo em busca de coisa nenhuma. Nada, nunca encontro nada. Chego ao fim, nova estrada, novo rumo, E a viagem continua.
17
Sem Tempo
Aperto o tempo nas minhas mãos como se fosse meu. Agarro-o como se, no fundo, agarrasse todas as oportunidades. Deixo-me ficar na ilusão desse controlo. Sorrio e nem noto que ele se esvai como areia por entre os dedos. Abro as mãos e não sobra nada. Nem oportunidades e já nem tempo para as sonhar.
14
!
Toda a dúvida é uma vontade suspensa!
62
O Perto fez-se Longe
Escrevo no teu corpo as convenções. Vais falando, estás longe. O sol queima a pele que já não sente. Perdes os dedos em mim. E desenhas-me a história nos contornos. Traço firme na luz imperfeita. Escorro a garrafa, vou escrevendo. Na debandada das emoções. Vais lendo lá de longe, no tom da manhã. Sabe a frio o meu corpo de ti tão perto. Perco a tua voz no eco da moral chagada. O arrojo vem longe, no rascunho desconexo. Não está certo. Pertence a ti a obra de acabar. Morremos assim num acordar duvidoso. A fantasia está longe. Morremos assim sem o amor regressar. Ao fundo, o fim ao longe. Está tão perto.
68
De perto, ao longe
O fim ali tão perto. Espelhado no sol daquela manhã. O teu corpo inundado pelo frio impiedoso. O regresso visto assim de longe. Apagas ao de leve as histórias delineadas. Escrevo pelo corpo à tua alma. Só depois, reinvento-te hoje. As feridas afogadas na garrafa terminada. O lado claro da tua pele curada. Fazem sentido palavras de vontade encharcadas. Por perto, o tempo abranda nesta volta, vinda de longe. O que dizes aproxima-se, depois. Aqui, de perto, o fim acena ao longe.
56
Cartas
Escrevo cartas de amor na real certeza do erro. De dentro como o desejo manda. Escuras, assim a verdade molda. Escritas ontem. Não me parecem sentidas hoje. Paixão arrependida do arrebatar fácil. Tarefa parva da alma sozinha. Ouve o piano numa melodia sombria. A tela, em nódoas, de cinza e árido pintada.
66
Look Around
Look around. We are all the same… Imperfect souls in bodies seeking for perfection. Look around. We want everything and we run for nothing, Depleting feelings and wasting our days. Leaving so many lives behind. Look around. We walk in circles, lost in tricks. Look around. In fact, we just need one thing. What's best dress, under the skin… Love. The long and, definitely, the only way.
31
Diz-me Tu
O teu corpo destemido que se fez ao meu. O sabor da tua pele tão perto da minha. Um sorriso aberto, um beijo nos olhos. Esse momento lento num tempo suspenso. O mundo não abrandou. Nem o mundo nem a vontade de chegar ao avesso. A tua voz no meu pescoço e o abraço que se deu. O meu perfume na tua língua. Fez apetecer um assalto que não aconteceu. O teu cheiro em mim. Ah! O teu cheiro ainda… Diz-me tu o que fazer com ele.
25
Beber O Mundo
Quero conhecer o mundo pelos teus olhos. Pela tua boca, a cidade não é a cidade. Pela tua boca, eu não sou eu. Tu não falas do que vês, falas do que sentes. Amas os pormenores, conheces a alma. Vais ao avesso e desvendas os enigmas. Não alcanço esses lugares, não lhes conheço o sabor. Quero ir nas tuas viagens. Sentir para lá do que vejo, ver para além dos corpos. Respirar as cores, tocar com o olhar. E no regresso, cerrar os olhos e ver tudo de novo. Ser capaz de voar. Ser maior em pensamento. Ter a imaginação como limite. E na base, Ah… amar! Beijar o vento, abraçar o mar. Banhar-me nas emoções e vestir a vida com verdade. Poder ser tudo em todo o lado. Devorar os sonhos a rir, derrubar as paredes do quadrado. Quero viver assim, como deve ser, intensamente. Embriagar-me de vida, beber o mundo.
17
Saudade II
É ali que me separo de ti. E a saudade se insurge de faca empunhada. Golpes e ais. A saudade é feita de ais. Por todos os beijos que se perdem. Por todos os abraços que não se dão. Por todas as palavras que se calam. Abrem-se feridas sem remédio. Não há cura para a saudade. Há ais profundos. Há medo de esquecer. Não saber mais o cheiro. Não reconhecer a voz. Perder, por entre recordações, os detalhes. Não recuperar histórias. A saudade é fechar os olhos e querer voltar. Mais do que voltar ao momento, Voltar a ti e sentir tudo. Viajar nas emoções. Ter-te e ter tudo o que de ti me faz falta. Ah… esta saudade.