Cometo sempre a imprudência de acreditar. De me fazer ao caminho quando todos me dizem que não é por ali. A inocência de pensar que quem dá a sua palavra tem honra. E que vale mais a morte do que ser verme maleável. Uma jura não devia ser uma treta. A necessidade de acreditar que uma palavra não é só uma palavra. Que dizer a verdade é tudo o que importa. Incauta esta busca pela clareza. Em que o preto no branco vale mais do que qualquer manobra ou habilidade. Esqueço-me que o mundo é para os ardilosos, hábeis na encenação. Esqueço-me que no fim ninguém quer saber do que disse. Tropeço sempre no egoísmo parvo que se enfurece e me derruba. As máscaras não deixam ler o que diz a pele. E são bonitas e vestem personagens magníficas. Discursos dignos de prémio, posturas que transpiram rectidão. Mas que vão beber ali, ao mar da aparência, gotas de traição. E o pano cai, o ego inflama-se e a fractura exposta deixa ver o sujo que há por dentro. O lixo abunda… e dignidade? Nenhuma.
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Pessoas Como Nós
Pessoas como nós olham nos olhos. Pessoas como nós asfixiam a tristeza com abraços. Pessoas como nós apertam os laços com nós cegos. Pessoas como nós lambem lágrimas para estancar a dor nos outros. Pessoas como nós amam almas e aceitam corpos. E nunca o contrário! Pessoas como nós só mantêm distâncias discretas. Pessoas como nós sonham com a mesma velocidade com que as estrelas rasgam o céu. Pessoas como nós destroem trilhos para fazerem o caminho. Pessoas como nós guardam saudades. Pessoas como nós nunca partem porque levam o coração cheio. Voltam sempre! Pessoas como nós vestem-se de emoções. Pessoas como nós embebedam-se de ilusão. Pessoas como nós rasgam o peito para arrancar mágoas. Pessoas como nós dançam músicas que ninguém ouve. Pessoas como nós não se envergonham de esfarrapar os joelhos. Pedir perdão é tantas vezes a única forma de perdoar. Pessoas como nós esperam, tantas vezes, para sempre. Pessoas como nós sofrem por nadas, aparentemente, enormes. Pessoas como nós dão o braço a torcer só à terceira. Mas rasgam sorrisos logo à primeira! Pessoas como nós amam, como só ama o amor!
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Preto e Branco
Na caixa guardo as cores, para depois. Na mão, seguro o preto. Preto carregado, é preto sem dúvida. Intransponível como tudo o que há para dizer. A folha perde a palidez, Tinjo palavras no papel. Mas o branco, continua branco, Em cada espaço, em cada silêncio. É branco alvíssimo, sem dúvida branco. Puro, como o toque de almas nos corpos. Como todos os beijos e abraços que demos. Se fecho os olhos parecem poucos, E demos tantos. Mas não há dúvidas, O preto, Verdadeiramente preto, No branco, Imaculadamente branco, Diz saudade, diz que não volta, diz fim.
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Carta aberta à baixeza de espírito
Oh baixeza, se é que me ouves, ouve com atenção! Eu posso descer à lama, posso rastejar nela. Mas nunca, ouve bem baixeza, nunca vou lamber botas! Porque na vida há quem beije pés, e eu beijo tantos. Mas lamber botas, nunca! Antes morta! Perder-me em esquemas de importâncias vãs e sujas, nunca! Sabes baixeza, na vida há quem se dê demasiada importância. Importância que só existe nas suas cabeças. Cabeças pequenas que alimentam o ego em compras e vendas de um poder que não têm, um poder poucochinho como o seu espírito minúsculo. E a culpa é tua baixeza, a culpa é mesmo tua, sua parva! Ouve baixeza, na memória ficam só os grandes, os que não se rebaixam ou se vergam com medo. Na memória ficam os que lutam pela verdade, os que mesmo na lama mantêm a verticalidade. Sabias baixeza? Só que tu baixeza, reduzes as pessoas a uma espécie de plasticina tão maleável quanto os desejos pérfidos das mãos em que caem. Pois, eu sei que não sabias… E sabes baixeza, eu posso dançar na lama porque eu, mesmo na lama, tenho coluna vertebral, mantenho a palavra. Minha cara baixeza, na vida há os que importam e os que se julgam importantes. Porque, lembra-te baixeza, as pessoas mais vazias são as que vivem cheias de si. E na vida, há quem arrote a si de tão cheio. E tu baixeza, vives nestas pessoas. Haja misericórdia às suas almas! Oh baixeza, diz-me tu, estas pessoas têm sangue?! Eu não sei… juro que não!
Mas, retém esta baixeza, quando não há laços, respeito, honra, dignidade e outras tantas qualidades que desconheces ou que matas…quando não as há, o sangue não basta!
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Afinal, sonhar é não viver!
21
...
Há gavetas que não se devem abrir. Melhor que se guarde o passado, No armário do fundo, bem arrumado. Porque é impossível ver o presente, Continuar ou seguir em frente, Teimando em viver a olhar para trás.
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À Beira-Mar
Faltaste tu naquele dia. E cresceu em mim aquela angústia lugente, De quem guarda nas mãos, Suave e fria, Uma triste memória ainda quente, De quem fomos noutro dia. E todos os rostos que passaram por mim, Ah...! Quem me dera não lembrar, Cada traço definido que percorri, Sim! Todos eles foram de encontro a mim, Tenho a certeza, Foram de encontro a mim para me recordar de ti. Naquele dia em que faltaste, Não houve sol e nenhum vento, Só o grito asfixiado do lamento, Perdido por entre a chuva e a gente.
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O Amor Não Cura Tudo
Hoje acordei com a sensação de que já tinha vivido este dia. Louca, pensei. Repetidas, uma a uma, todas as coisas que sentia. Mas loucura, nenhuma. Só um calor a escorreguer pelo rosto, Para me lembrar, Calmamente me lembrar, Que a vida é, assim mesmo, crua. E há dias em que acordar, Não tenho dúvida, É um novo passo atrás na luta, Porque o amor, Ah, o amor! O amor salva-nos mas não cura tudo!
17
Chuva
As pingas certas e sequenciais que caiem do andar de cima, Penso sempre que são lágrimas. É ridiculamente inevitável, penso assim. Imagino todas as lágrimas que me escorreram pelo rosto. Daquelas quentes e salgadas que, Como as gotas de chuva sempre certas e sequenciais, Pingam do queixo para o peito. Gosto do sabor das lágrimas, Antigamente não gostava. Quando vejo a chuva penso nisto, E em todas as lágrimas que deixei por chorar, Por cansaço, vergonha ou sei lá o quê. Vejo a chuva e penso assim, Tão ridiculamente patética, Agradeço por ela chorar por mim.
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A Noite Interminável
Lembro-me do cais da Ribeira naquela noite de Quarta-feira quente. As esplanadas despidas e o passeio deserto que nos impunham serenidade. O Douro transformado numa brilhante passerelle onde aquela lua amarela e reluzente desfilava grandiosa. - Onde está toda a gente? – Perguntaste de braços abertos a rodopiar sobre ti mesmo. - Reservei a cidade para nós. - Disse-te naquele jeito de graça que te fazia rir e ficar com o ar de quem quase acreditava em impossíveis. - Fazes-me melhor, Pilar. Fazes-me sempre ver o mundo como um lugar bonito. Lembro-me de nos perdemos em conversas e de todas as nossas teorias mirabolantes sobre a vida. Deitados, com os pés na borda do rio e os olhares presos naquele manto de veludo azul-escuro de céu. - Sabes, o tempo antes nunca acabava e agora parece pouco para tantos sonhos. – Disseste-me, sem mais, como quem anuncia um fim não desejado. - O tempo é o que quiseres que seja. Fecha os olhos. Tens cinco minutos para me dizeres o que farias se fosses o dono do tempo e lhe pudesses pôr um travão agora. - Oh…! – Respondeste naquele teu tom resignado. Levantei-me, dei-te um puxão e disse para dançarmos. - Estás doida? Não! - Aquele teu medo de pé-de-chumbo assustado. - Xiuuu…! Dançámos num ritmo que o rio meio adormecido nos ia sugerindo, dançámos sem nos importarmos com o olhar de curiosidade daquele senhor que passeava o cão. Lembras-te? Afinal, sempre me disseste que não havia problema nenhum em sermos loucos e, como sempre te disse, eu confiava em ti e deixava-me ser. - Percebo-te, obrigada! – Agradeceste-me no final. Hoje, esta estranheza de me sentir calma. Lembro-me daquela noite que nunca mais teve fim. Como te disse, somos nós que fazemos o tempo ser para sempre.