Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

78

No Bar

Quanto mais tento esquecer,
Mais se acorda o pensamento.
E vejo ainda,
A pista tão cheia de gente,
A música, a dança, o riso alto e o momento,
Quando esbarrei o meu olhar de frente,
Oh céus! Como lembro!
Aquele brilho e o fulgor discreto,
Nos olhos mais serenos que já vi.
E naquele breve instante,
De mim ainda perto,
Assim, sem nada o prever,
Ah! Juro que senti,
O capricho do corpo,
O desejo de me atrever.
81

Privilégio de te amar

Que privilégio é este de te amar.
Não há distinção maior do que me ver no teu olhar.
Ah, e aquele toque que me arrepia a alma.
É verdade que, para mim, o nosso amor é uma honra.
O que importa que não sejas perfeito se te amo?!
O amor não é magistral,o amor é tão só amor.
E é tanto… e é meu e teu, é nosso!
Tens a mágica de ver o mar no verde dos meus olhos.
E eu vejo o céu na tua boca e música nas tuas mãos.
Tens o dom de me amar.
E quem disse que amar-me é fácil?!
O amor possibilita o impossível, o impensável.
E eu desejei impossivelmente o impensável.
Desejei este fascínio de corpos favorecidos pelo encaixe das almas.
Ah, como te amo!
O amor é um perfeito e requintado caminho que me conduz a ti.
E àquele nós que poucos sabem.
Poucos saberão como se beija um coração.
Porque isso é mistério dos verdadeiramente amantes.
Amantes como nós.
Ah, como beijas o meu sentimento!
Que privilégio é este de sentir dois corações que batem em uníssono.
Juntos numa perfeita comunhão.
Juntos prometem ao mundo que cuidarão um do outro.
Não há maior privilégio do que poder cuidar de ti muito para lá da vida.
E saber que o fazes também na mesma sem-medida!
O amor basta as desavenças e o nosso é bastante!
O nosso amor é um regaço que nos acolhe, é um afágo valioso.
Ah, como somos ricos e abençoados.
A natureza concede privilégios somente a quem ousa amar.
E nós desafiamos a vida e desfiamos os sentimentos um a um.
Quero que todos saibam que o amor não são desfiles, é apenas um corajoso e emocionado grito.
Que todos oiçam que te amo.
Eu ouvirei sempre o teu grito porque me é puro.
Amamo-nos como ama o amor…
Ah…! E isso é um honrado e inexplicável privilégio!
20

Recomeça

O mundo continua a ser o mundo.
Essa espada não trespassa o tempo.
Não vêm milagres da tua mão.
Há cansaço e não nascem frutos neste chão.
Segue pela estrada nova que te surge.
Já não importa que as nuvens choquem.
Ou que o teu caminho, com o dele, não se cruze.
Se tiver que ser, que se enlameie o coração.
Se possível, que não haja pressa que mate a vontade.
Acalma a alma no mar da verdade.
Alteia a bandeira do triunfo, esse e só esse,
Que se banha na aragem do voltar a começar.
Porque o mundo, não te esqueças, continua a ser o mundo!
15

Jardim das Virtudes

Venho cá de vez em quando
Vejo um rio correr pró mar
Uma neblina vai-se formando
Abre-se o peito numa aragem
E desvendo as virtudes do amar

Ao longe vejo a ponte, o luar
Deixo-me ficar neste jardim
No escuro oiço o Douro respirar
Banho o coração nesta paisagem
Embalada numa noite sem fim

Benditos os recantos da cidade
Os bancos de pedra gastos e sós
São lugares que acalmam a ansiedade
No silêncio passam-nos a mensagem
Desatam-se cá dentro todos os nós

Com muita paz e grande calma
Neste lugar sereno, me deixo dormir
Jazem aqui os pesos da minha alma
E assim cá me fortaleço da coragem
De partir em busca de um novo sentir
29

Tu Não Sabias

Tu não sabias da minha procura.
Da ânsia desmedida que enfurece o jardim.
Não sabias que te procuro sempre.
Mesmo quando já luz nenhuma alumia o caminho.
Eu sei que não sabias.
Tu não sabias da minha busca interna.
Incessante como as ondas de um mar revolto.
Bem sei que não sabias.
Eu sabia que desconheces os meus segredos.
Nunca soubeste desvendar os mistérios dos meus lugares.
Ermos, fatídicos como todo o meu jeito de amar.
Tu não sabias dos meus tropeços e arranhões.
Que arranhada sempre esteve a minha alma.
Fraca, encoberta num céu de saudade.
Tu não sabias, tu não conheces.
Eu sei que não sabias.
Se soubesses jamais terias partido.
Agora é escuro e não sei de luz nenhuma.
19

Eu Peço

Eu peço que se apaguem as luzes.
Que se tinjam as lágrimas.
Eu peço às flores explicações.
Complicadas e nunca achadas.
Eu peço ao lume que se alague.
Ou se murche dentro do peito.
Baú que se torce e entorpece.
Eu peço ao vento que afaste o véu.
A débil raia que me turva a vista.
É azeda esta lonjura que me habita.
Eu peço ao mar que me queime a pele.
Que nada toca ou nela perdura.
É insano todo o meu pensar.
Que tudo pensa e nada o satisfaz.
São pedidos irreais e excessivos.
Como demasiada sou toda eu.
Eu peço para calar a voz da minha pressa.
A vida ama-se devagar.
Eu peço calma nesta hora de te abraçar.
26

O Mundo Morre

A porta bate e as janelas escancaram-se num grito alto.
O vento entra num rompante de lamento aflito.
É frio e o ar pesado gela tudo.
A pele eriça-se num arrepio que vem do fundo.
O coração sangra e encolhe-se em defesa.
A folha cai em silêncio duro e seco.
A luz apaga-se num escuro solene e defunto.
E enfim, o mundo cai nessa espera em que sempre morre o mundo.
18

Sono

O sono traz memórias pesadas.
Daquelas que se arrastam pelo chão riscado.
O seu eco não deixa espaço à paz do silêncio.
Este sono molda-me a vontade.
Altera-me o batimento regular do coração e das palavras.
Tudo se confunde numa mescla absurda.
A noite diz-me que a morte é o fim.
Mas é mentira…
O escuro é ardiloso e tolda a vista cansada.
Como cansado está já todo o corpo.
Inerte e endurecido na espera de uma imagem à qual jamais voltará.
O sono é este inferno onde os desejos gritam de dor.
É por isso, e só por isso, que teimo em não adormecer.
20

Saudades

Não sei o que fazer com as saudades que guardo.
Se as calo, trespassam-me a alma e vidram-me os olhos.
Se as largo, revoltam-se e impõem-se como muros que não avanço.
É inútil toda esta nostalgia.
Ter saudades, é uma bala a entrar no corpo.
Como inútil é a vontade te contar onde as escondo.
Devo enterrá-las na gaveta dos fundos.
É preferível esquecer o que é inútil.
Amar-te é inútil.
Amar-te não chega.
A vida é mais do que um toque ou um olhar profundo.
A vida é mais do que um abraço sem fim e um beijo que não acaba.
Tudo é pouco, é um nada para quem deseja mais.
31

Ó noite!

Dormi à noite ao relento,
Numa espera suspensa de te encontrar.
Na minha boca nem um lamento,
Só uma tristeza vidrada no olhar.
Ó vida!
Ó lástima!
Ó vizinha desgraça!
A morte faz de mim cadáver,
Nesta sede de me acabar!
18

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