Tanta gente me tem inveja e eu, louca, sem remédio, Não percebo essa gente, por invejar todo este tédio. Esta alma tão vazia. Que o tempo me esgotou do melhor com que nascemos. Oh Meu Deus, Eles não sabem que a minha alma está perdida. Não imaginam o inferno de viver a minha vida. Toda a dor, toda a amargura. Ah, como eu dava tudo para voltar a ser menina!
82
Desejo
Amor, Eu sou tão louca, Que às vezes julgo ver, O mar na tua boca. Oh amor, o desejo, De prender os teus braços, Como dois laços, Na minha cintura ou no meu peito. E acredita, amor, Ninguém te vê como eu te vejo. Nem há no mundo outros olhos, Tão brilhantes só de olhar-te, Mãos que ardem de tocar-te, Como astros num lampejo. Outra boca, Outro fogo que se alastre, Pelo meu corpo, quando te beijo. Oh amor, amor, Se isto não é loucura, Diz-me então, amor, O que será!
80
Não Digas Nada
Peço-te que não digas nada, Uma só palavra será demais. Eu não quero saber do que viste, A quem te deste, onde dormiste. Os teus olhos nada me dizem, Sombras e verdades que se fingem. Porque eu, confesso triste, Não perdoo jogos e habilidades, Esses fracassos e fragilidades, Refúgio de quem não sabe amar. Que só almas fracas falam assim, Falam do que vêem sem alcançar. Eu não quero saber por onde andaste, Até onde, com egoísmo, te levaste. Porque eu, não quero essas mãos, E longe de mim esse olhar. Porque eu, Não quero braços, Que me toquem sem me abraçar. Eu quero olhos por onde viaje, E uma boca que me fale sem falar. Por isso, escuta o que te peço: - Não digas nada, segue!
86
Virei As Costas
De tanto te querer, andei perdida. Achei-me só, de alma gasta, Numa alegria demasiado vazia. Pois enquanto o mundo corria, A vida por mim passava, Passava e eu não a via. Meus olhos cegos de te ver, Eu tão cansada de esperar, Uma vontade de correr, Cruzar a rua e te abraçar. Mas um dia, Sem ter mais o que perder, Que perdida andava eu. E sem saber o que me deu, Nesse dia, disse basta. E a sorrir, dobrei a esquina, Disse-te adeus em surdina, E virei as costas à desgraça!
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Assunto Banal
O homem que outrora amei, É agora, na minha boca, Um mero assunto banal. De escárnio e de riso, E, talvez, de algum desdém. Como um artigo de jornal. O homem que outrora amei, É só isso, Um mero assunto, Que não interessa a ninguém.
81
Depois Do Fim
Lá fora, a chuva cai grave e pesada. Um dia, seja eu também uma gota. Uma graça lembrada, Nessa face em que escorra. Afinal, No fim somos apenas, A lágrima acendendo a lembrança, Para que nos corações não se morra. Sim, essa saudade infinda. Porque depois do fim, Como as gotas da chuva, Sim, depois do fim, Somos tanta vida ainda.
81
Enlouquecida
A primeira palavra é o que me custa. Depois disso todo o texto corre. E, como ele, Tudo o que se esconde em mim, Pelas páginas abertas escorre, Em chamas, Do princípio ao fim. Numa cadência sedenta de gritar, Abrem-se mundos, correm astros. E confesso, pela fantasia, Posso voar ou andar de rastros. Tão cega, decerto, já tão enlouquecida. Escrevo sempre a mesma coisa, É sempre mesma história já tão lida. O mesmo papel que não tem graça. Mas a fúria não passa, Escreva isto e mais aquilo, Faça eu o que quer que faça.
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Não Importa
É verdade que eu nunca te escrevi. E se tantas vezes tentei, Nunca te disse nada do que senti. - Oh homem como te amei! E agora esta vontade louca de o gritar, Mas o que importa isso agora, Se não tenho forças para te abraçar, Tudo acabou e já foste embora. Oh meu amor, O que para nós tinha sonhado, É agora ruído, mera dor. E ainda que tivesse falado, Ao ver-te ao longe, tão distante, Tenho a certeza, Que por muito que tivesse dito, Digo agora com tristeza, Nunca teria sido bastante. Ah amor, eu repito, Se em poemas não te soube amar, Não será com palavras que te vou odiar.