Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

64

Ao censor


Lê e critica meu verso,
que te é permitido fazê-lo.
Só não me prives, te peço,
do direito de escrevê-lo.
473

Ave!


Por todas as Marias do mundo, ave
pelas mulheres cheias de graça, ave
por todas as benditas mulheres, ave
pelos seus frutíferos ventres, ave
por todas as mães ardorosas, ave
pelos pais e pelos seus filhos, ave
pelos sorrisos e pelos abraços, ave
pelos apertos de mãos, ave
pelo inocente olhar das crianças, ave
por todas as famílias unidas, ave
pelo trabalho e pelo descanso, ave
pelo alimento do corpo e da alma, ave
pelas tristezas e alegrias, ave
por todos os pássaros do céu, ave
pelos rios e pelas matas, ave
pelos desertos e pelos mares, ave
pelos vales e pelas montanhas, ave
pelos ventos e pela chuva, ave
pelo sol e pela lua, ave
pela natureza e as criaturas, ave
pelo bem que move a vida, ave
pela vida e pela morte, ave
por aquele que tudo criou, ave
pelas nossas orações,
Ave!
487

Chuva/Pluja

Um corpo na mesa-
e lá fora o dia chora
águas de tristeza

-

Un cos a taula -
i allà fora el dia plora
aigües de tristesa

Tradução para o catalão: Pere Bessó
379

Nec otium


Exausto desta batalha
vou lhe propor um negócio:
enquanto você trabalha
eu permaneço no ócio.
407

Canção do mar


Poema onde o mar é o protagonista, percorrendo os continentes, transportando, saudando, cantando, rugindo, protegendo e arrebatando vidas, numa constante, numa ininterrupta viagem.


No mar quase tudo nada
na imensidão que a vista inunda,
no mar quase tudo nada,
nada na superfície, nada n'águas profundas.
No mar quase tudo nada
e o que não nada ou quase nada
quando não boia, afunda...
No globo quase todo mar
na terra quase nada terra,
na vastidão que tudo circunda,
em movimentos ora de paz ora de guerra
quase tudo tudo nada
e tudo tudo é navegar...
Eia! Terras d'além mar!
Eia! Povos d'além mar!
Nada nada é tão perto
nada nada é tão longe
que o mar não possa alcançar.
E tudo que nada segue
no mar onde quase tudo nada.
No ondulado tapete repleto de vida,
na planície azul sem tamanho,
sob o sol ou na noite estrelada
o que não nada é estranho.
E lá no fundo que cores!
Há muito que admirar!
Algas, pedras, peixes, flores,
decorando o fundo do mar...
E esta brisa que delira,
suave perfume do mar
no marulho que enleva,
serena canção de ninar...
                                                                                                                           
Que ninguém passe pela vida
sem conhecer este mar...

E o céu quando beija o mar
seja no norte ou no sul,
que divino, que divino
é este amor vestido de azul...

E o mar quando beija a areia
serpenteia
serpenteia
deixando cobras na areia...
deixando cobras na areia...
Rema rema pescador
e observa os sons do mar.
Rema rema pescador,
no seu barquinho a flutuar,
que a tempestade é um terror
até pra quem sabe nadar.
Quase tudo no mar nada,
quase tudo nada no mar,
quase tudo o mar carrega
no seu diário navegar.

E o mar quando beija a areia
serpenteia
serpenteia
fazendo cobras na areia...
fazendo cobras na areia...
643

Jardín


Acerquémonos, pues, querida,
en medio del camino,
soñando  nuevos y viejos sueños,
que todavía ellos - los sueños -
no tienen edad ...
Seamos niños en un jardín de rosas
porque quiero quedarme contigo en la tierra
y dar gloria a las otras flores
más pequeñas que tú,querida.
Gloria a ti, Rosa!
Quiero sentir tu perfume,
acariciar sus ramas
y poco a poco llenar
de besos sus hermosos pétalos...
Tú y yo,
un jardín de sueños
donde me alimento
con tu aroma de sol y de luna...
Sueño?
Y por qué, Dios mío, este sueño,
como muchos otros
y para mi mayor gloria
no puede convertirse en realidad?
363

Canção final


Depois de muito fastio,
da dor cruel da partida,
do pranto intenso o estio
acalmou enfim minha vida.
 
Voltar talvez eu não possa.
Receio uma nova recusa.
- Que foi que houve da nossa
intensa paixão, minha musa?
 
Nem arrisco seguir os teus passos;
só de longe te olhar me contenta.
Um mistério fez o descompasso,
transformando a calma em tormenta.
 
Agora é esperar... triste sina...
Enrolar-me no manto...está frio!...
Tua imagem se esvai na neblina...
Já me embaça o olhar doentio...
527

Elmano no retorno a Portugal


Ó Gil, o que me fizeste, ingrato irmão?
Eu tão longe da minha gentil Lisboa
(no Rio, em Damão, Macau, Cantão e Goa)
e me roubaste de Gertrúria o coração?
 
Lutei tanto, fui soldado, fui tenente,
até doente estive em terras de Albuquerque.
Almejava sorte e glórias, mas moleque
entreguei-me à boêmia vida no oriente.
 
Seguindo a rota de Camões mundo afora,
busquei riqueza e um nome ilustre em outras terras.
De que valeu? Esforço vão... foi tudo embora...
 
Se não tenho Gertrúria, mais nada importa.
"Já Bocage não sou!..." Tudo se encerra
quando a esperança está morta.
520

Ave


Ontem, vi um pássaro no estertor da morte.
As asas não içavam o frágil corpo.
Das pernas - finos gravetos - esvaía a firmeza.
Peguei-o e não o senti: já não havia
movimentos, apenas imperceptíveis tentativas internas.
E eu, que sempre, tantas vezes,
desejei alçar voo como as aves
e desfrutar da liberdade da altura,
senti-me inútil...
Aquele pequenino ser, naquele momento
quisera sê-lo para transpor
as barreiras da liberdade.
460

Parentes


À maldade dos afins estando sujeitos,
Maldade de tio, irmão e cunhado,
Ainda que mal não lhes tenhamos feito,
Abramos os olhos, tenhamos cuidado...
 
São mui gordos os olhos dos parentes
Em cima de todo sucesso que temos;
Dão-nos conselhos, estão sempre presentes,
Aos poucos nos matam e tarde percebemos
 
A inveja oculta, bem como a ofensa
De quem à nossa frente se fez tão bondoso.
Quando vaza o fel a gente até pensa:
 
Meu Deus! Como causa tristeza e nojo
Quem só malefícios no peito condensa!
- A cobiça se esconde em fino estojo...
345

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