Remisson Aniceto

Remisson Aniceto

n. , Nova Era (MG)

Perfil
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Vizinho ilustre


Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
Ler poema completo
Biografia
Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.

Poemas

64


 
Viver não me importa:
minha Rosa está morta!
 
Secou no jardim
com falta de mim.
 
A vida em comum
fez nós dois sermos um.
 
Ela partiu ontem à tarde:
fiquei só a metade.
 
Aspiro o tormento
que vem com o vento.
 
Perdi minha calma:
fugiu com sua alma.
 
A morte é a esperança,
não quero a lembrança.
 
Voltar não resolve,
sua vida não volve.
 
Ficar não consola,
a dor me assola.
 
Seguir é inútil
na estrada tão fútil.
 
Quero que anoiteça
e não mais amanheça.
 
Viver não me importa:
minha Rosa está morta!
324

O mais é resto...


Que é cedo dizem, mas não creio...
Tudo em mim se desvanece!
Carrego do tempo o infortúnio,
da taça o vinho é derramado...
Perguntas se rio? Não, não rio,
não distendem como dantes os músculos
da boca. Não são do riso os dentes
à mostra, são da loucura,
essa megera que o tempo me impôs.
Vivo a me consumir nas andanças do
pensamento; este ainda me é concedido.
Embalsamada a vida, o mais é apodrecido
pelo tempo e emoções idas...
Não sei no que me fio, se me fio...
Minh'alma foi no vácuo do tempo,
vaga e estranha era, se a tive.
Saídas de mim razão e emoção,
ela fugiu. Eu definho...
Ela vive.
333

Desvario


Maldigo o frio que gela e entorpece,
O Sol que arde e queima maldigo;
Maldigo a noite que os campos escurece,
A Lua que clareia e embeleza maldigo.
 
Malditos a vida, o amor, o riso, a paz
E tudo o que me faz sofrer, maldito!
Maldito este a quem nada satisfaz...
Imputo a culpa a quem se diz tão maldito!
 
Maldita a hora primeira - a do nascimento,
E todas as outras horas, malditas!
Malditos os momentos maus e os bons momentos,
 
Maldito o Inferno, malditos a Terra e o Céu!
Todas as coisas que há no mundo, malditas!
Maldito eu! maldito eu! maldito eu!
610

O novo acordo


Poema escrito quando estava em discussão a última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa
 
 
Uma longa viagem me inspira,
porquanto enjoado e absorto
é quando a palavra transpira.
Tomei um avião para o Porto.
 
Essa história de uniforme
que tentam vestir na grafia
vai deixá-la mais disforme
pra quem, leigo, escrevia.
 
Do soneto não me enjôo
e a mudança deu-me a idéia
de escrevê-lo em pleno vôo.
 
Amanhã, em outro voo,
talvez tenha outra ideia
quando tiver outro enjoo.
451

A Rosa dos anjos


Ó Rosa que no Céu estás plantada,
Rosa alva dos meus sonhos arrancada.
Tens a cor da bela nuvem em claro dia,
Perfumando os céus azuis da Fantasia.
 
Ó Rosa santa, das flores mor-rainha,
Tu perfumaste o jardim da vida minha.
Triste Flor na primavera colhida
Por quem de inveja me roubou a fé na vida.
 
Etérea Flor, se sem querer foi que partiste,
Foge do teu anjo guardião nalgum descuido.
Quem te quer mais que o Céu na Terra existe.
 
Que a levassem nada fiz por merecer.
Vem, Flor nívea, derramar teu santo fluido,
No jardim que sem teu pólen vai morrer.
604

Encontro


No “Bar e Café Pessoa” encontrei Fernando.
Ele bebericava numa caneca de porcelana,
lendo “O Corvo”. Puxei uma cadeira da mesa ao lado
e sentei, observando seu porte magro, alheio a tudo
em redor. Ali, o mundo e o pensamento eram
somente dele. Sobre a mesa de tampo fino,
repousava uma caixa envolta em papel pardo,
com uma etiqueta da Air Portugal. Ele devia ter
chegado há pouco de lá, talvez para visitar o Reis.
Fiquei observando-o durante longo tempo.
Calmamente, após pousar “O Corvo” sobre a mesa,
ele dirige sua atenção a mim, uma expressão
de desalento no olhar, como a dizer:
- Fui descoberto!
Ouço a voz da garçonete e viro o rosto:
- Sim, traga-me café numa caneca de porcelana.
Volto-me e já não o vejo. Corro até a porta,
perscruto a rua parcamente iluminada.
Não o encontro, ele sumiu definitivamente.
Retorno à mesa onde ele estivera.
A garçonete se aproxima e repete:
- Não temos caneca de porcelana, senhor.
Abro o pacote que, na pressa, ele esquecera.
Há vários livros, entre os quais um de Poe
que me chama a atenção, intitulado

“Histórias Extraordinárias”.
491

Criatura


Qu'imagem é esta de mulher que me persegue,
vinho suave que – eu sequioso – me embriaga,
que teima em existir por mais que eu negue,
me abraça, me incendeia e logo se apaga?
 
Ave branca que atravessa meu caminho
e cruel, com seus beijos me amordaça,
me faz enlouquecer com seus carinhos,
depois me abandona – esvoaça...
 
Por que me segues tanto, ó criatura,
vinda de um sonho antigo ou do futuro,
me dás a ilusão duma ventura
depois me deixas só no quarto escuro?
 
E assim, abandonado os dias passo,
fechado, longe de tudo, enfadonho,
ansiando pelas noites quando abraço
a doce imagem dela quando sonho.
657

Entrega


Floreios, floreios, floreios...
Pra quê tantos floreios?
Eu renuncio, já estou cheio!
Cheio da vida e da esperança,
cheio da música, cheio da dança
inútil das horas e da falsa bonança.
Farto das festas, dos hurras!, vivas,
dos tapinhas destes convivas.
Cansado da lengalenga dos meus amigos.
Serão amigos... ou inimigos?
Só quero a paz de estar só
e a solidão da minha paz.
Não quero um ombro, não quero o dó.
Mereço uma placa de “aqui jaz...”
Quero a carícia da terra fresca;
que ela me abrace e eu adormeça...
485

O mendigo

 Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.
                   Cruz e Souza
 
 
Angústia, rejeição e vil loucura
tornaram tua alma tão sombria,
ó poeta imortal, imortal brancura
das essências musicais da Fantasia...
 
Alma de fé profunda, clamorosa,
bálsamo das paixões mais cristalinas,
mar revolto de espumas dolorosas,
nascido em santas terras catarinas.
 
Hoje, sentado lá no etéreo canto,
isento da carnal miséria e do desprezo,
já não te afligem mais a dor e o pranto.
 
Aqui, da cor carrego o amargo peso
e as mesmas ânsias que cantaste tanto.
Mas tenho, qual tiveste, o Sonho aceso!
 
420

O teatro

Estreitam-se da nossa Pátria as cercanias,
cresce a fome com a fuga das divisas, ri a peste.
A Nação, outrora honesta, se rende à tirania
de quem ouro recolhe e de poder se veste.

Queixoso é o povo dessa Lei que o oprime;
a sangria corre solta em cada Estado;
quem matou se desculpa e se redime:
a Mão do Poder é branca e sem pecado.

Olhem bem, vejam só os desgraçados.
NEROS se protegem na armadura
dos votos que lhes demos. Fazem festa!

Só nos cabem os ossos rejeitados.
O País é um teatro e A Ditadura
é a peça a que assistimos. Nada resta...


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