Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
Que é cedo dizem, mas não creio... Tudo em mim se desvanece! Carrego do tempo o infortúnio, da taça o vinho é derramado... Perguntas se rio? Não, não rio, não distendem como dantes os músculos da boca. Não são do riso os dentes à mostra, são da loucura, essa megera que o tempo me impôs. Vivo a me consumir nas andanças do pensamento; este ainda me é concedido. Embalsamada a vida, o mais é apodrecido pelo tempo e emoções idas... Não sei no que me fio, se me fio... Minh'alma foi no vácuo do tempo, vaga e estranha era, se a tive. Saídas de mim razão e emoção, ela fugiu. Eu definho... Ela vive.
337
Desvario
Maldigo o frio que gela e entorpece, O Sol que arde e queima maldigo; Maldigo a noite que os campos escurece, A Lua que clareia e embeleza maldigo.
Malditos a vida, o amor, o riso, a paz E tudo o que me faz sofrer, maldito! Maldito este a quem nada satisfaz... Imputo a culpa a quem se diz tãomaldito!
Maldita a hora primeira - a donascimento, E todas as outras horas, malditas! Malditos os momentos maus e os bonsmomentos,
Maldito o Inferno, malditos a Terra e oCéu! Todas as coisas que há no mundo,malditas! Maldito eu! maldito eu! maldito eu!
613
O novo acordo
Poema escrito quando estava emdiscussão a última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa
Uma longa viagem me inspira, porquanto enjoado e absorto é quando a palavra transpira. Tomei um avião para o Porto.
Essa história de uniforme que tentam vestir na grafia vai deixá-la mais disforme pra quem, leigo, escrevia.
Do soneto não me enjôo e a mudança deu-me a idéia de escrevê-lo em pleno vôo.
Amanhã, em outro voo, talvez tenha outra ideia quando tiver outro enjoo.
454
A Rosa dos anjos
Ó Rosa que no Céu estás plantada, Rosa alva dos meus sonhos arrancada. Tens a cor da bela nuvem em claro dia, Perfumando os céus azuis da Fantasia.
Ó Rosa santa, das flores mor-rainha, Tu perfumaste o jardim da vida minha. Triste Flor na primavera colhida Por quem de inveja me roubou a fé navida.
Etérea Flor, se sem querer foi quepartiste, Foge do teu anjo guardião nalgumdescuido. Quem te quer mais que o Céu na Terraexiste.
Que a levassem nada fiz por merecer. Vem, Flor nívea, derramar teu santofluido, No jardim que sem teu pólen vai morrer.
608
Encontro
No “Bar e Café Pessoa” encontreiFernando. Ele bebericava numa caneca deporcelana, lendo “O Corvo”. Puxei uma cadeira damesa ao lado e sentei, observando seu porte magro,alheio a tudo em redor. Ali, o mundo e o pensamentoeram somente dele. Sobre a mesa de tampofino, repousava uma caixa envolta em papelpardo, com uma etiqueta da Air Portugal. Eledevia ter chegado há pouco de lá, talvez paravisitar o Reis. Fiquei observando-o durante longotempo. Calmamente, após pousar “O Corvo” sobrea mesa, ele dirige sua atenção a mim, umaexpressão de desalento no olhar, como a dizer: - Fui descoberto! Ouço a voz da garçonete e viro o rosto: - Sim, traga-me café numa caneca deporcelana. Volto-me e já não o vejo. Corro até aporta, perscruto a rua parcamente iluminada. Não o encontro, ele sumiudefinitivamente. Retorno à mesa onde ele estivera. A garçonete se aproxima e repete: - Não temos caneca de porcelana,senhor. Abro o pacote que, na pressa, eleesquecera. Há vários livros, entre os quais um dePoe que me chama a atenção, intitulado
“Histórias Extraordinárias”.
496
Criatura
Qu'imagem é esta de mulher que mepersegue, vinho suave que – eu sequioso – meembriaga, que teima em existir por mais que eunegue, me abraça, me incendeia e logo se apaga?
Ave branca que atravessa meu caminho e cruel, com seus beijos me amordaça, me faz enlouquecer com seus carinhos, depois me abandona – esvoaça...
Por que me segues tanto, ó criatura, vinda de um sonho antigo ou do futuro, me dás a ilusão duma ventura depois me deixas só no quarto escuro?
E assim, abandonado os dias passo, fechado, longe de tudo, enfadonho, ansiando pelas noites quando abraço a doce imagem dela quando sonho.
660
Entrega
Floreios, floreios, floreios... Pra quê tantos floreios? Eu renuncio, já estou cheio! Cheio da vida e da esperança, cheio da música, cheio da dança inútil das horas e da falsa bonança. Farto das festas, dos hurras!, vivas, dos tapinhas destes convivas. Cansado da lengalenga dos meus amigos. Serão amigos... ou inimigos? Só quero a paz de estar só e a solidão da minha paz. Não quero um ombro, não quero o dó. Mereço uma placa de “aqui jaz...” Quero a carícia da terra fresca; que ela me abrace e eu adormeça...
489
O mendigo
Os miseráveis, os rotos são as flores dos esgotos. Cruz e Souza
Angústia, rejeição e vil loucura tornaram tua alma tão sombria, ó poeta imortal, imortal brancura das essências musicais da Fantasia...
Alma de fé profunda, clamorosa, bálsamo das paixões mais cristalinas, mar revolto de espumas dolorosas, nascido em santas terras catarinas.
Hoje, sentado lá no etéreo canto, isento da carnal miséria e do desprezo, já não te afligem mais a dor e opranto.
Aqui, da cor carrego o amargo peso e as mesmas ânsias que cantaste tanto. Mas tenho, qual tiveste, o Sonho aceso!
424
O teatro
Estreitam-se da nossa Pátria as cercanias, cresce a fome com a fuga das divisas, ri a peste. A Nação, outrora honesta, se rende à tirania de quem ouro recolhe e de poder se veste.
Queixoso é o povo dessa Lei que o oprime; a sangria corre solta em cada Estado; quem matou se desculpa e se redime: a Mão do Poder é branca e sem pecado.
Olhem bem, vejam só os desgraçados. NEROS se protegem na armadura dos votos que lhes demos. Fazem festa!
Só nos cabem os ossos rejeitados. O País é um teatro e A Ditadura é a peça a que assistimos. Nada resta...