Corro pelos paralelos grosseiros, Ansiosos para me esfolar os joelhos. Ofereço flores aos meus cabelos, Receio que me espreitem os vizinhos. Danço, sem saber como seria. O leito espontâneo envolve-me por magia.
Anseio pela chegada dos verdadeiros amantes. Cresci, apeguei-me a um nó eterno. Eles… eles são um só, a mãe e o pai. Não há crueldade que os quebre, Mas os desumanos ferem, desejam morte. A ilusão desfaz-se, o ódio foi mais forte.
Finda-se a inconsciência, o sonho, A infância persegue-me, aperta-me. Não me abandona o desencanto, Mas desamparam-me os braços de quem cria. Regressam somente numa utopia adormecida, Porque tropeçam no desprezo, em vida.
Corro por sentidos indecifráveis, Destruo-me aos poucos, grito em silêncio. Intimidam-me medos que não revelo, Só me aconchega o vício, O rumo rompeu com a dor, A que me roubou inerente valor.
Anseio que me confortem na ruína, Onde não habita a existência digna. Sobra a farsa que eu consumo, Que me consome, que me transforma. Olho para mim, poluída, obscena, Abdiquei do mundo que valia a pena.
Finda-se a beleza que me enaltecia, Que tanto a mãe me exaltava. Agora desmancha-se em pranto e preces, Com o desassossego que a tortura, Porque atravesso atalhos de insanidade, Que absorvem a minha escassa dignidade.
Corro até atingir um clarão, Que me confronte e paralise. Devolve-me a luz sublime! Encontro-me na pausa, Difundo-me na euforia, Abraço de novo a minha ousadia.
Anseio a virgem essência, Especta que eu a esboce, Vivaz, venerável, como outrora. As rezas da agonia tornam-se louvores, O sol esplendece-me, mais uma vez, Danço e alcanço os raios sem timidez.
Findam-se os delírios traiçoeiros, Alimentavam-se da verde vulnerabilidade. É neste instante, a metamorfose idônea, Agarro-a com pujança, domino-a. Renasço dos destinos pérfidos, Socorro-me de juízos lúcidos.
(Renata Silva)
351
O amanhã é nosso
Acumulam-se os dias E eu derreto a pensar naquele Em que me agarrei a ti. Ainda com medo do futuro E o peso do passado, Mas o tempo cuidou de nós. Qualquer espera ansiosa E precipitação desmedida Fez todo o sentido. Fomos tão para ontem, Que o amanhã é nosso.
(Renata Silva)
331
Tu
Tu Que me acarinhas o rosto, Com o olhar.
Eu Que te carrego o peso, Num inspirar.
Tangível o decifrar dos próximos, Deslizarás por mim.
Arrepiante compromisso, Este a que me entrego Indefesa. Mas cuidas de mim, Derretido e com certeza.
Do mais pleno que eu vivi.
Renata Silva
183
Se o mundo é então redondo
Conheci, por ti, o mundo Cinzento, sem contar. Noto como ele é redondo E numa volta faz desabar Os que habitam na ilusão Do desgosto poder emendar.
Não me cabe mais esvair-me Em lágrimas por me largares. Se o mundo é então redondo, Parto do dilúvio destes lugares E corro para o calor num avesso Que não deseja que me ampares.
Renata Silva
199
Habito em mim
Habito em mim, Porque escavo E sustento, Mesmo encobrindo. Porque choro E suspiro, Mesmo sorrindo.
De tanto relento, Porque erro E fracasso, Mesmo conquistando. Porque sofro E suporto, Mesmo apreciando.
Renata Silva
165
O vento não é amigo de ninguém
O vento não tem sido amigo. Estala-me na cara, Atropela a fraqueza, Confronta-me E eu não tenho forças. Guerrear este vazio dominante, Este vento desafeiçoado, Consome o meu corpo, Tão ingénuo e seco. Talvez louco por acreditar Que o vento cedia Ao calor da empatia. Mas o vento não é amigo de ninguém.