Acumulam-se os dias E eu derreto a pensar naquele Em que me agarrei a ti. Ainda com medo do futuro E o peso do passado, Mas o tempo cuidou de nós. Qualquer espera ansiosa E precipitação desmedida Fez todo o sentido. Fomos tão para ontem, Que o amanhã é nosso.
(Renata Silva)
331
Ponto Fraco
Corro pelos paralelos grosseiros, Ansiosos para me esfolar os joelhos. Ofereço flores aos meus cabelos, Receio que me espreitem os vizinhos. Danço, sem saber como seria. O leito espontâneo envolve-me por magia.
Anseio pela chegada dos verdadeiros amantes. Cresci, apeguei-me a um nó eterno. Eles… eles são um só, a mãe e o pai. Não há crueldade que os quebre, Mas os desumanos ferem, desejam morte. A ilusão desfaz-se, o ódio foi mais forte.
Finda-se a inconsciência, o sonho, A infância persegue-me, aperta-me. Não me abandona o desencanto, Mas desamparam-me os braços de quem cria. Regressam somente numa utopia adormecida, Porque tropeçam no desprezo, em vida.
Corro por sentidos indecifráveis, Destruo-me aos poucos, grito em silêncio. Intimidam-me medos que não revelo, Só me aconchega o vício, O rumo rompeu com a dor, A que me roubou inerente valor.
Anseio que me confortem na ruína, Onde não habita a existência digna. Sobra a farsa que eu consumo, Que me consome, que me transforma. Olho para mim, poluída, obscena, Abdiquei do mundo que valia a pena.
Finda-se a beleza que me enaltecia, Que tanto a mãe me exaltava. Agora desmancha-se em pranto e preces, Com o desassossego que a tortura, Porque atravesso atalhos de insanidade, Que absorvem a minha escassa dignidade.
Corro até atingir um clarão, Que me confronte e paralise. Devolve-me a luz sublime! Encontro-me na pausa, Difundo-me na euforia, Abraço de novo a minha ousadia.
Anseio a virgem essência, Especta que eu a esboce, Vivaz, venerável, como outrora. As rezas da agonia tornam-se louvores, O sol esplendece-me, mais uma vez, Danço e alcanço os raios sem timidez.
Findam-se os delírios traiçoeiros, Alimentavam-se da verde vulnerabilidade. É neste instante, a metamorfose idônea, Agarro-a com pujança, domino-a. Renasço dos destinos pérfidos, Socorro-me de juízos lúcidos.
(Renata Silva)
351
Tu
Tu Que me acarinhas o rosto, Com o olhar.
Eu Que te carrego o peso, Num inspirar.
Tangível o decifrar dos próximos, Deslizarás por mim.
Arrepiante compromisso, Este a que me entrego Indefesa. Mas cuidas de mim, Derretido e com certeza.
Do mais pleno que eu vivi.
Renata Silva
183
Habito em mim
Habito em mim, Porque escavo E sustento, Mesmo encobrindo. Porque choro E suspiro, Mesmo sorrindo.
De tanto relento, Porque erro E fracasso, Mesmo conquistando. Porque sofro E suporto, Mesmo apreciando.
Renata Silva
165
O vento não é amigo de ninguém
O vento não tem sido amigo. Estala-me na cara, Atropela a fraqueza, Confronta-me E eu não tenho forças. Guerrear este vazio dominante, Este vento desafeiçoado, Consome o meu corpo, Tão ingénuo e seco. Talvez louco por acreditar Que o vento cedia Ao calor da empatia. Mas o vento não é amigo de ninguém.
Renata Silva
186
Se o mundo é então redondo
Conheci, por ti, o mundo Cinzento, sem contar. Noto como ele é redondo E numa volta faz desabar Os que habitam na ilusão Do desgosto poder emendar.
Não me cabe mais esvair-me Em lágrimas por me largares. Se o mundo é então redondo, Parto do dilúvio destes lugares E corro para o calor num avesso Que não deseja que me ampares.