Vou ceder aos vampiros quem sabe assim vendo algum livro. Mas imagino uma entidade diferente: com sangue quente, roupas brancas, resplandescentes, olhar de cigano. Amigo das pessoas, Não cospe na cruz, Aprecia alho. Um vampiro vegano! Ele será o terror dos feirantes e, na calada da noite, invadirá quitandas e hortifrutis em busca de clorofila. Preferirá os orgânicos e os sem conservantes. Sugalos-á com prazer e sem compaixão, até que restem somente as fibras. Esta dieta será o segredo de seu poder e eternidade. Nada será mais assutador e nem mais bizarro que um vampiro sarado e com baixo colesteról.
Renata Bomfim nasceu no dia 21/11/ 1972 na iIha de Vitória, capital do Espírito Santo, no Brazil. Poeta, ensaista e arteterapeuta e artista plástica, é Membro da AFESL, do IHGES e pesquisadora do CNPq desde 2007. A poeta é ativista socioambiental e trabalha no Mosteiro Zen Morro da Vargem, é militante pelo direito dos animais e pelo abolicionismo animal. Mestre e doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo/Ufes. Possui artigos e ensaios publicados no Brasil e no exterior.
Autora do Blog literário Letra e fel (www.letraefel.com)
Caminhei por tuas ruas, Calmamente. Respirei o frio que vinha de tua charneca. De tanto amor o meu peito se abriu, Desabrochou o coração. Atravessei o portal de tua muralha e, A cada passo, murmúrios e vozes se misturavam em cantos claros e brilhantes: - Bem vinda! Princesa Capixaba.
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O canto da harpia
Cansei de ser sereia. Cortei os cabelos, As unhas cresceram. No lugar das escamas, indecentes e fortes plumas, em tons de branco e cinza. No alto da cabeça, a crista erotizada, eriça ao menor ruído. Abro imensas asas, Solto um grito. Os olhos, de repente, enxergam além. Cansei de afogar marinheiros, de cantar para a morte dos despenhadeiros e das rochas frias. Assim como um bebê saído do ventre, saúdo a vida. Mergulho fundo no azul salpicado de lilases do fim do dia e, renasço de manhãzinha, embriagada pelo amarelo Ouro desse universo selvagemente novo.
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MEA CULPA
SENTIR CULPA NÃO É PECADO, É UMA DÁDIVA! UMA TARA! PURO TESÃO! PECAR É GOZAR, É TER NO ESPÍRITO, LEVEZA, É TER ASAS NOS PÉS E AMOR NO CORAÇÃO PRODUZIR A CULPA É UMA ARTE, SALVE OS RITOS RELIGIOSOS SALVE A TODA NOSSA GENTE, EXÉRCITO FLÁCIDO DE CULPADOS RIJOS PERPETUADORES DOS ATOS QUE ATUALIZAM CULPAS ANTIGAS QUE NOS CONFUNDEM, FODEM E AFUDAM.
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Canção para Frida Kahlo
Quero abraçar teu desamparo. Ser tua gêmea invertida e ainda Outra. Quero amparar-te toda, parte por parte, emendando a tua perda irreparável.
Me denuncias com imagens: dor, fel e docura. Cai a máscara, livre, minha alma respira liberdade.
Posso ser simplesmente essa e outras. Tocar epifanica e santamente o manto da santidade, no azul turqueza de tua paleta sem tinta.
Teus artefatos preciosos: colares, anéis e sonhos de jade, teus vestidos longos, rodados, espalham flores de estampas espetaculares.
Corpo frágil se tranforma em cor saturada, aquarela inquietante, de imagens da terra e do céu. A feminilidade dos traçados produzem sentidos convertidos, multiplas imagens que me refletem ad infinitum. Nelas, me reconheço e recomponho, a chorar e a sorrir.
Quero abraçar teu desamparo, sim! Acolhendo a dor que mora dentro curando as chagas das saudades e deixando ir, libertarando, mágoas e sonhos que não vivi.
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Ave Paraíso
Amo a minha terra! Canto de longe as serras plenas os pássaros e as matas Meus pés se deliciam e deslizam na poeira da estrada Caminho, caminho, errante, em um nomadismo fascinante Como é dificil parar! Amo cada centímetro desse chão cada fungo, cada inseto. A sinfonia do tempo convida a meditar.
Esse cantão onde nasci embriaga de cinza e verde meus olhos nele estão as pedras mais valiosas as tábuas dos mandamentos sagrados que ensinam a amar cada pássaros solitário e a aprender com outros vários como é bom estar junto.
Sou um ser aberto e dobravel uma fagulha angustiada quer fazer fogo e arder e se multiplicar em brasas acendendo as luzes de dentro da alma brilhando até implodir de felicidade rara.
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O Sol
O Sol, ouro ancestral, Incide sobre o meu rosto Nesse instante me esqueço de tudo Do frio, da solidão, de mim mesma. Sinto o aconchego da vida que pulsa Despreocupada. Não importa que dia é e nem que horas são. Importa saber que os dias e as horas viajam, como todos nós, na imensa nave azul. A luminosidade adentra o meu peito derretendo geleiras seculares. Os meus filhos e filhas vibram felizes. Por um instante deixo de ser a mulher que sou Para me tornar outras mulheres, e também Homens, crianças, pedras, árvores e pássaros. Não quero saber da cobiça Nem da morte (sombras que se arrastam atrás de mim) Importa sim, que num átimo, o Sol e eu Brilhamos juntos.