TILIKUM
Separada de sua família
quando era um filhote,
passou uma vida
cativa.
Após mais de trinta anos
entre paredes de
vidro,
a maior orca em cativeiro
morreu
Orca
em
cativeiro.
Orca
CATIVEIRO
Morreu sem saber novamente
o que era liberdade.
Agora, ela está livre.
A culpa é de quem a capturou?
Sim, é.
Mas as mãos de quem financia
(patrocinando ou comprando ingressos)
para o horrendo espetáculo
do SeaWorld
também está suja.
DAQUI DE LONGE
Daqui de longe,
enxergo a dor da
menininha que se apaixonou
pelo grande homem.
Percebo que ele
nunca se importou
com ela
e ela sempre se deu
demais a ele.
Pobrezinha...
Mal sabe andar e quer usar saltos,
mal sabe falar e já quer dançar,
mal sabe sorrir
e já quer conquistá-lo.
Eu sinto a dor que a indiferença
dele a causou.
Eu sei que hoje
essa pobre menina
sente frio,
medo,
e a solidão
a assola.
Eu sinto, daqui de longe.
CASTELO DE AREIA
Duas crianças
brincavam na areia
da praia.
Tal como construtores
imaginavam erguer
um imponente
castelo
com torres e passagens.
O trabalho estava
quase pronto,
mas eis que uma
onda
pequenamente poderosa
reduziu-o
à espuma e areia.
As crianças, sorrindo
uma para a outra
tiveram juntas
a mesma ideia.
E começaram a construir
um novo castelo.
DOR DO MUNDO
Milhares de crianças,
de jovens, de adultos
- milhares de vidas -
neste instante
sofrem a dor
da fome.
Famílias são
destruídas
pela miséria,
pela indústria da exploração
do homem pelo homem,
fruto do descaso e
do abandono.
E tudo isso nós criamos
- diferentes mundos
neste mundo
que habitamos
Pobreza, interesse,
corrupção,
exclusão.
Nós (eu, você, todos)
criamos isso e saboreamos
o nosso bem estar
independente de quem pagou caro por isso.
DIDÁTICA
Nas ruas, nas praças,
há o encontro de gerações.
Vejo, de um lado,
antigos professores, meus velhos
mestres;
do outro, ex-alunos
que hoje lecionam.
Estamos juntos,
ombro a ombro
e nos damos
coragem.
A bomba
que o Estado jogou
caiu em mim
e naqueles que estavam
comigo.
A bomba caiu
em professores, entendem?
Mas estávamos ali,
todos juntos, fortes.
Irmanados.
E estávamos lá
Por sabermos que, às vezes,
a sala de aula
não é espaço suficiente
para a aprendizagem.
É preciso mais,
como fazer das ruas
um espaço de conhecimento,
sem hierarquias
ou avaliações.
Porque sabemos
que nas ruas,
aprende-se
lado a lado.
PALIMPSESTO
Escrever é rasurar,
raspar,
para dar lugar a outro
texto.
Texto
sobre
texto.
Reescritura.
Assim, na pele do poema,
outras letras
são tecidas,
escritas e inscritas,
reiterando
o vigor e a força criadora
da palavra poética.
E o poeta vê que,
depois de
tanto escrever,
tem hoje
as mesmas páginas de ontem
mas outras palavras,
outro poema.
SECRETA VIAGEM
Nas páginas de um livro,
um novo mundo se descortina,
materializa-se,
emerge da folha de papel
trazendo rostos,
lugares, nomes:
- palavras.
Sempre elas,
transformadoras,
mexedoras,
ganham forma e existência.
O sentido de um livro
não está em suas folhas,
linhas ou letras.
Mas no que nos faz ser
ao passarmos
por suas páginas,
numa secreta viagem
pelos mundos
da leitura.
Passa a fazer parte do corpo,
como o coração,
os membros,
ou o sangue quente
correndo nas veias.
CENAS TRÁGICAS (VARIAÇÕES DE UM TEMA)
I
A criança
birrenta
passa com os pais
na frente de um
fastfood
e manhosa chora:
"Quero comer! Estou com fome!"
II
O adolescente
acaba de chegar
do colégio
- onde, durante o recreio,
comeu salgado com
refrigerante -
grita para a mãe,
antes mesmo do boa-tarde:
"Quero comer! Estou com fome!"
III
O marido,
pobre sedentário,
vendo seu time jogar
- e sem querer perder
um lance sequer -
acostumado ao
machismo
com o qual crescera
grita à mulher:
"Quero comer! Estou com fome!
IV
Ignorada pelos
transeuntes
- e pela maquinaria pública
que finge não ver -
a criança raquítica,
deitada no colo da
mãe
mal consegue
dizer:
"Quero comer! Estou com fome!"
QUEM SOMOS NÓS?
RG, CPF, Título de Eleitor,
senhas, dígitos,
registros nos bancos
de dados.
Codificados,
mapeados, digitalizados,
twitados, blogados,
guardados em bits,
em pixels
para existir.
Quem sonos nós,
afinal?
Contribuintes,
recursos
somos uma série
de números.
- Quando, enfim,
vão nos tratar
como cidadãos
com seus direitos
e deveres?
- Quando, enfim,
vão nos chamar
pelo nosso
nome?
A:E:AFIN DO MVDO
Os seres não se realizam em si o seu destino, mas naqueles a que sacrificam a existência
(Teixeira de Pascoaes)
O sol é o rei dos astros. A lua é a rainha coroada depois de morta: a Dona Inês de Castro. E o sol é Dom Pedro, o Cru.
E eis projetado, no infinito, um episódio da nossa História...
(Teixeira de Pascoaes)
Minha amada Rainha,
como tenho sonhado contigo neste tempo futuro...
Neste tempo de Dor, Ausência e Saudade...
Aqui espero o fim do mundo.
O passar dos anos, dos séculos, dos milênios.
O passar de todas as idades humanas.
Na sagração do nosso amor, amar-te foi a minha oração.
Celebrar a vida no teu corpo foi a força
para abraçar o Infinito.
Tu, chama apolínea da minha alma,
fizeste de mim um deus dionisíaco.
Em teus lábios, conheci a mim mesmo
e tua carne foi meu Santo Graal.
Amando-te, aprendi a ser homem
e, sendo homem, a ser o que hoje sou.
Tu és o meu Evangelho, Alfa e ômega da minha essência.
Trouxeste-me o sol que brilha sem sombra.
Anunciaste a aurora do meu Ser.
Deste-me em sacrifício a tua existência.
Por isso vive o nosso amor.
E vivo para viver o nosso amor.
Eu te amo antes de eu ter a minha face e tu teres nascido.
A pedra em que repousas é o meu Altar,
e ali está toda a minha alma, junto a ti.
Em mim, só ficou o tempo que me resta.
Tudo há de findar. Tudo, na consumação dos tempos.
Até ao fim do mundo.
Quando o amor vencerá, enfim, tudo,
cumprindo nossa promessa de Paixão e Fé,
de sermos Um, sempre.
Per omnia saecula saeculorum.
Despeço-me de ti, amada Rainha,
na ânsia do nosso feliz reencontro.
O mais terno beijo em teus lábios,
Que me são o sentido de crer na Eternidade.
Sempre teu,
O Rei Saudade