CASTELO DE AREIA
Duas crianças
brincavam na areia
da praia.
Tal como construtores
imaginavam erguer
um imponente
castelo
com torres e passagens.
O trabalho estava
quase pronto,
mas eis que uma
onda
pequenamente poderosa
reduziu-o
à espuma e areia.
As crianças, sorrindo
uma para a outra
tiveram juntas
a mesma ideia.
E começaram a construir
um novo castelo.
CENAS TRÁGICAS (VARIAÇÕES DE UM TEMA)
I
A criança
birrenta
passa com os pais
na frente de um
fastfood
e manhosa chora:
"Quero comer! Estou com fome!"
II
O adolescente
acaba de chegar
do colégio
- onde, durante o recreio,
comeu salgado com
refrigerante -
grita para a mãe,
antes mesmo do boa-tarde:
"Quero comer! Estou com fome!"
III
O marido,
pobre sedentário,
vendo seu time jogar
- e sem querer perder
um lance sequer -
acostumado ao
machismo
com o qual crescera
grita à mulher:
"Quero comer! Estou com fome!
IV
Ignorada pelos
transeuntes
- e pela maquinaria pública
que finge não ver -
a criança raquítica,
deitada no colo da
mãe
mal consegue
dizer:
"Quero comer! Estou com fome!"
AS FORMAS DO AMOR
A menininha
organizava a brincadeira
de casinha
com suas bonecas
quando, repentinamente,
pergunta aos pais,
que estavam ali próximos,
juntos em afeto
assistindo à TV,
sobre coisas
do amor.
Com um sorriso para a filha,
mergulham profundamente
na essência do que
dizer.
existência.
Mãos dadas,
falam do amor
e de seus mitos.
De Eros,
mas também
de Philia e de Ágape.
De Romeu e Julieta,
Abelardo e Heloísa,
Tristão e Isolda,
e Pedro e Inês.
Amores felizes ou trágicos,
mas que persistem no tempo,
recusam a morte.
Figuras históricas ou míticas,
falaram de tudo
quanto sabem.
Falaram de si mesmos,
de quando se conheceram
e de quando passaram a viver
o amor.
"Quando duas pessoas
se amam,
nada mais importa."
A menina,
encantada com
tudo quanto
ouvira,
voltou-se para sua
brincadeira de casinha
e não hesitou:
casou sua
Barbie com Suzie.
E o Ken, ah...
Este era uma vez
DADAÍSMO CONTEMPORÂNEO
Digite em seu smartphone
uma frase, ou palavra
qualquer que lhe venha à mente
(não se preocupe com a
coesão: ela seria rasa).
Por exemplo: livro azul do pássaro.
Depois, clique no botão do meio
dez, quinze, vinte
vezes,
dependendo do tamanho
que você quer dar ao seu poema
e terá um resultado:
livro azul do pássaro que não é que o pior é que eu vou pro mundo inteiro a alegria da sua vida de nada que ver com a letra é a gente não tem nada pra que não tem nada de mais uma coisa com coisa
E eis um poema
"infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público".
METALINGUAGEM
Veja que interessante:
troco uma letra
e o que era meu
vira seu;
se acrescento uma,
o que era útil
vira fútil.
Um acento
faz o que foi vivido
- lá no passado -
tornar-se tão presente
só ser vívido.
Mas, ah, nada
se compara
a isto:
se eu coloco
Roma na frente
do espelho,
que belo
amor
eu ganho!
QUEM SOMOS NÓS?
RG, CPF, Título de Eleitor,
senhas, dígitos,
registros nos bancos
de dados.
Codificados,
mapeados, digitalizados,
twitados, blogados,
guardados em bits,
em pixels
para existir.
Quem sonos nós,
afinal?
Contribuintes,
recursos
somos uma série
de números.
- Quando, enfim,
vão nos tratar
como cidadãos
com seus direitos
e deveres?
- Quando, enfim,
vão nos chamar
pelo nosso
nome?
CENA NATALINA
Era a mesma cena,
como se repetia há anos:
a mesma família,
as velhas perguntas,
a antiga farsa sentada
à mesa de Natal...
"Quanta saudade",
disse-he o parente distante,
a quem não via desde o Natal anterior.
"Nossa, como você cresceu!"
apertou-lhe as bochechas a tia.
"E as namoradinhas?"
perguntou o tio ao sobrinho.
No que ele,
diferentemente de anos anteriores
cansado da velha hipocrisia familiar,
falou sobre gênero e desigualdade.
Falou sobre respeito,
sobre o amor divino
e o sentido do Natal.
Falou verdades,
e, dentre elas,
a verdade que ninguém queria
ouvir: há pouco sentimento entre a família,
muita miséria entre os
irmãos.
E a festa acabou.
DOR DO MUNDO
Milhares de crianças,
de jovens, de adultos
- milhares de vidas -
neste instante
sofrem a dor
da fome.
Famílias são
destruídas
pela miséria,
pela indústria da exploração
do homem pelo homem,
fruto do descaso e
do abandono.
E tudo isso nós criamos
- diferentes mundos
neste mundo
que habitamos
Pobreza, interesse,
corrupção,
exclusão.
Nós (eu, você, todos)
criamos isso e saboreamos
o nosso bem estar
independente de quem pagou caro por isso.
DIDÁTICA
Nas ruas, nas praças,
há o encontro de gerações.
Vejo, de um lado,
antigos professores, meus velhos
mestres;
do outro, ex-alunos
que hoje lecionam.
Estamos juntos,
ombro a ombro
e nos damos
coragem.
A bomba
que o Estado jogou
caiu em mim
e naqueles que estavam
comigo.
A bomba caiu
em professores, entendem?
Mas estávamos ali,
todos juntos, fortes.
Irmanados.
E estávamos lá
Por sabermos que, às vezes,
a sala de aula
não é espaço suficiente
para a aprendizagem.
É preciso mais,
como fazer das ruas
um espaço de conhecimento,
sem hierarquias
ou avaliações.
Porque sabemos
que nas ruas,
aprende-se
lado a lado.
DAQUI DE LONGE
Daqui de longe,
enxergo a dor da
menininha que se apaixonou
pelo grande homem.
Percebo que ele
nunca se importou
com ela
e ela sempre se deu
demais a ele.
Pobrezinha...
Mal sabe andar e quer usar saltos,
mal sabe falar e já quer dançar,
mal sabe sorrir
e já quer conquistá-lo.
Eu sinto a dor que a indiferença
dele a causou.
Eu sei que hoje
essa pobre menina
sente frio,
medo,
e a solidão
a assola.
Eu sinto, daqui de longe.