rnb_roberto

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Escritor, ensaísta e professor. Publicou Canções de um Sonhador (poesia, 2002, Scortecci) e Epifania (poesia, 2016, iVentura), além de ter organizado Fortuna Crítica: estudos de Literatura (ensaios, 2008, Arquimedes) e Poesia sobre tudo (poesia, 2014, iVentura).

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CASTELO DE AREIA

Duas crianças
brincavam na areia
da praia.
Tal como construtores
imaginavam erguer
um imponente
castelo
com torres e passagens.

O trabalho estava
quase pronto,
mas eis que uma
onda
pequenamente poderosa
reduziu-o
à espuma e areia.

As crianças, sorrindo
uma para a outra
tiveram juntas
a mesma ideia.

E começaram a construir
um novo castelo.
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Poemas

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CASTELO DE AREIA

Duas crianças
brincavam na areia
da praia.
Tal como construtores
imaginavam erguer
um imponente
castelo
com torres e passagens.

O trabalho estava
quase pronto,
mas eis que uma
onda
pequenamente poderosa
reduziu-o
à espuma e areia.

As crianças, sorrindo
uma para a outra
tiveram juntas
a mesma ideia.

E começaram a construir
um novo castelo.
221

DOR DO MUNDO

Milhares de crianças,
de jovens, de adultos
- milhares de vidas -
neste instante
sofrem a dor
da fome.
Famílias são
destruídas
pela miséria,
pela indústria da exploração
do homem pelo homem,
fruto do descaso e
do abandono.

E tudo isso nós criamos
- diferentes mundos
neste mundo
que habitamos

Pobreza, interesse,
corrupção,
exclusão.
Nós (eu, você, todos)
criamos isso e saboreamos
o nosso bem estar
independente de quem pagou caro por isso.
173

PALIMPSESTO

Escrever é rasurar,
raspar,
para dar lugar a outro
texto.

Texto
sobre
texto.
Reescritura.

Assim, na pele do poema,
outras letras
são tecidas,
escritas e inscritas,
reiterando
o vigor e a força criadora
da palavra poética.

E o poeta vê que,
depois de
tanto escrever,
tem hoje
as mesmas páginas de ontem
mas outras palavras,
outro poema.
174

SECRETA VIAGEM


Nas páginas de um livro,
um novo mundo se descortina,
materializa-se,
emerge da folha de papel
trazendo rostos,
lugares, nomes:
- palavras.
Sempre elas,
transformadoras,
mexedoras,
ganham forma e existência.

O sentido de um livro
não está em suas folhas,
linhas ou letras.
Mas no que nos faz ser
ao passarmos
por suas páginas,
numa secreta viagem
pelos mundos
da leitura.

Passa a fazer parte do corpo,
como o coração,
os membros,
ou o sangue quente
correndo nas veias.

183

A:E:AFIN DO MVDO

Os seres não se realizam em si o seu destino, mas naqueles a que sacrificam a existência
(Teixeira de Pascoaes)

O sol é o rei dos astros. A lua é a rainha coroada depois de morta: a Dona Inês de Castro. E o sol é Dom Pedro, o Cru.
E eis projetado, no infinito, um episódio da nossa História...
(Teixeira de Pascoaes)


Minha amada Rainha,
como tenho sonhado contigo neste tempo futuro...
Neste tempo de Dor, Ausência e Saudade...

Aqui espero o fim do mundo.
O passar dos anos, dos séculos, dos milênios.
O passar de todas as idades humanas.

Na sagração do nosso amor, amar-te foi a minha oração.
Celebrar a vida no teu corpo foi a força
para abraçar o Infinito.
Tu, chama apolínea da minha alma,
fizeste de mim um deus dionisíaco.
Em teus lábios, conheci a mim mesmo
e tua carne foi meu Santo Graal.
Amando-te, aprendi a ser homem
e, sendo homem, a ser o que hoje sou.
Tu és o meu Evangelho, Alfa e ômega da minha essência.
Trouxeste-me o sol que brilha sem sombra.
Anunciaste a aurora do meu Ser.
Deste-me em sacrifício a tua existência.
Por isso vive o nosso amor.
E vivo para viver o nosso amor.

Eu te amo antes de eu ter a minha face e tu teres nascido.

A pedra em que repousas é o meu Altar,
e ali está toda a minha alma, junto a ti.
Em mim, só ficou o tempo que me resta.
Tudo há de findar. Tudo, na consumação dos tempos.
Até ao fim do mundo.
Quando o amor vencerá, enfim, tudo,
cumprindo nossa promessa de Paixão e Fé,
de sermos Um, sempre.
Per omnia saecula saeculorum.

Despeço-me de ti, amada Rainha,
na ânsia do nosso feliz reencontro.
O mais terno beijo em teus lábios,
Que me são o sentido de crer na Eternidade.

Sempre teu,
O Rei Saudade
186

OBRA DE ARTE

Eu me sinto
uma pintura cubista
viva
no trem que me leva
ao trabalho
- da Central à Santa Cruz.

A perna fica na cabeça,
o braço direito
no joelho esquerdo.
Os olhos estufam
e a cabeça
vai pro chão.
206

TILIKUM

Separada de sua família
quando era um filhote,
passou uma vida
cativa.
Após mais de trinta anos
entre paredes de
vidro,
a maior orca em cativeiro
morreu

Orca
em
cativeiro.

Orca
CATIVEIRO

Morreu sem saber novamente
o que era liberdade.
Agora, ela está livre.

A culpa é de quem a capturou?
Sim, é.
Mas as mãos de quem financia
(patrocinando ou comprando ingressos)
para o horrendo espetáculo
do SeaWorld
também está suja.
190

FRAGMENTOS DA REALIDADE

Sedentos
Famintos
À procura do que comer
Comem os restos
Do que outros comem
Restos de si próprios
Mortos

Flagelo
Nos olhos
No corpo
Na alma

Cicatrizes profundas
Feridas sem cura
Marcas eternas
Corpo no chão

Medo
Nas ruas
Nas casas
Em qualquer lugar
Medo

Nas sombras de um beco
Sob a luz do sol
Em qualquer lugar
Desespero
Pânico
Terror
Morte

Morte
Fome e sede
Morte
Guerra urbana
Morte
Luta desumana

Direito perdido
Dignidade perdida
Vida perdida

Morte

Um jovem, uma menina
Uma criança, um pai de família, uma mãe
Qualquer um
A qualquer momento
191

CENAS TRÁGICAS (VARIAÇÕES DE UM TEMA)

I
A criança
birrenta
passa com os pais
na frente de um
fastfood
e manhosa chora:

"Quero comer! Estou com fome!"

II
O adolescente
acaba de chegar
do colégio
- onde, durante o recreio,
comeu salgado com
refrigerante -
grita para a mãe,
antes mesmo do boa-tarde:

"Quero comer! Estou com fome!"

III
O marido,
pobre sedentário,
vendo seu time jogar
- e sem querer perder
um lance sequer -
acostumado ao
machismo
com o qual crescera
grita à mulher:

"Quero comer! Estou com fome!

IV
Ignorada pelos
transeuntes
- e pela maquinaria pública
que finge não ver -
a criança raquítica,
deitada no colo da
mãe
mal consegue
dizer:

"Quero comer! Estou com fome!"
163

METALINGUAGEM

Veja que interessante:
troco uma letra
e o que era meu
vira seu;
se acrescento uma,
o que era útil
vira fútil.

Um acento
faz o que foi vivido
- lá no passado -
tornar-se tão presente
só ser vívido.

Mas, ah, nada
se compara
a isto:
se eu coloco
Roma na frente
do espelho,
que belo
amor
eu ganho!
175

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