OBRA DE ARTE
Eu me sinto
uma pintura cubista
viva
no trem que me leva
ao trabalho
- da Central à Santa Cruz.
A perna fica na cabeça,
o braço direito
no joelho esquerdo.
Os olhos estufam
e a cabeça
vai pro chão.
CENA NATALINA
Era a mesma cena,
como se repetia há anos:
a mesma família,
as velhas perguntas,
a antiga farsa sentada
à mesa de Natal...
"Quanta saudade",
disse-he o parente distante,
a quem não via desde o Natal anterior.
"Nossa, como você cresceu!"
apertou-lhe as bochechas a tia.
"E as namoradinhas?"
perguntou o tio ao sobrinho.
No que ele,
diferentemente de anos anteriores
cansado da velha hipocrisia familiar,
falou sobre gênero e desigualdade.
Falou sobre respeito,
sobre o amor divino
e o sentido do Natal.
Falou verdades,
e, dentre elas,
a verdade que ninguém queria
ouvir: há pouco sentimento entre a família,
muita miséria entre os
irmãos.
E a festa acabou.
DAQUI DE LONGE
Daqui de longe,
enxergo a dor da
menininha que se apaixonou
pelo grande homem.
Percebo que ele
nunca se importou
com ela
e ela sempre se deu
demais a ele.
Pobrezinha...
Mal sabe andar e quer usar saltos,
mal sabe falar e já quer dançar,
mal sabe sorrir
e já quer conquistá-lo.
Eu sinto a dor que a indiferença
dele a causou.
Eu sei que hoje
essa pobre menina
sente frio,
medo,
e a solidão
a assola.
Eu sinto, daqui de longe.
METALINGUAGEM
Veja que interessante:
troco uma letra
e o que era meu
vira seu;
se acrescento uma,
o que era útil
vira fútil.
Um acento
faz o que foi vivido
- lá no passado -
tornar-se tão presente
só ser vívido.
Mas, ah, nada
se compara
a isto:
se eu coloco
Roma na frente
do espelho,
que belo
amor
eu ganho!
FRAGMENTOS DA REALIDADE
Sedentos
Famintos
À procura do que comer
Comem os restos
Do que outros comem
Restos de si próprios
Mortos
Flagelo
Nos olhos
No corpo
Na alma
Cicatrizes profundas
Feridas sem cura
Marcas eternas
Corpo no chão
Medo
Nas ruas
Nas casas
Em qualquer lugar
Medo
Nas sombras de um beco
Sob a luz do sol
Em qualquer lugar
Desespero
Pânico
Terror
Morte
Morte
Fome e sede
Morte
Guerra urbana
Morte
Luta desumana
Direito perdido
Dignidade perdida
Vida perdida
Morte
Um jovem, uma menina
Uma criança, um pai de família, uma mãe
Qualquer um
A qualquer momento
A:E:AFIN DO MVDO
Os seres não se realizam em si o seu destino, mas naqueles a que sacrificam a existência
(Teixeira de Pascoaes)
O sol é o rei dos astros. A lua é a rainha coroada depois de morta: a Dona Inês de Castro. E o sol é Dom Pedro, o Cru.
E eis projetado, no infinito, um episódio da nossa História...
(Teixeira de Pascoaes)
Minha amada Rainha,
como tenho sonhado contigo neste tempo futuro...
Neste tempo de Dor, Ausência e Saudade...
Aqui espero o fim do mundo.
O passar dos anos, dos séculos, dos milênios.
O passar de todas as idades humanas.
Na sagração do nosso amor, amar-te foi a minha oração.
Celebrar a vida no teu corpo foi a força
para abraçar o Infinito.
Tu, chama apolínea da minha alma,
fizeste de mim um deus dionisíaco.
Em teus lábios, conheci a mim mesmo
e tua carne foi meu Santo Graal.
Amando-te, aprendi a ser homem
e, sendo homem, a ser o que hoje sou.
Tu és o meu Evangelho, Alfa e ômega da minha essência.
Trouxeste-me o sol que brilha sem sombra.
Anunciaste a aurora do meu Ser.
Deste-me em sacrifício a tua existência.
Por isso vive o nosso amor.
E vivo para viver o nosso amor.
Eu te amo antes de eu ter a minha face e tu teres nascido.
A pedra em que repousas é o meu Altar,
e ali está toda a minha alma, junto a ti.
Em mim, só ficou o tempo que me resta.
Tudo há de findar. Tudo, na consumação dos tempos.
Até ao fim do mundo.
Quando o amor vencerá, enfim, tudo,
cumprindo nossa promessa de Paixão e Fé,
de sermos Um, sempre.
Per omnia saecula saeculorum.
Despeço-me de ti, amada Rainha,
na ânsia do nosso feliz reencontro.
O mais terno beijo em teus lábios,
Que me são o sentido de crer na Eternidade.
Sempre teu,
O Rei Saudade