FRAGMENTOS DA REALIDADE
Sedentos
Famintos
À procura do que comer
Comem os restos
Do que outros comem
Restos de si próprios
Mortos
Flagelo
Nos olhos
No corpo
Na alma
Cicatrizes profundas
Feridas sem cura
Marcas eternas
Corpo no chão
Medo
Nas ruas
Nas casas
Em qualquer lugar
Medo
Nas sombras de um beco
Sob a luz do sol
Em qualquer lugar
Desespero
Pânico
Terror
Morte
Morte
Fome e sede
Morte
Guerra urbana
Morte
Luta desumana
Direito perdido
Dignidade perdida
Vida perdida
Morte
Um jovem, uma menina
Uma criança, um pai de família, uma mãe
Qualquer um
A qualquer momento
DADAÍSMO CONTEMPORÂNEO
Digite em seu smartphone
uma frase, ou palavra
qualquer que lhe venha à mente
(não se preocupe com a
coesão: ela seria rasa).
Por exemplo: livro azul do pássaro.
Depois, clique no botão do meio
dez, quinze, vinte
vezes,
dependendo do tamanho
que você quer dar ao seu poema
e terá um resultado:
livro azul do pássaro que não é que o pior é que eu vou pro mundo inteiro a alegria da sua vida de nada que ver com a letra é a gente não tem nada pra que não tem nada de mais uma coisa com coisa
E eis um poema
"infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público".
CENA NATALINA
Era a mesma cena,
como se repetia há anos:
a mesma família,
as velhas perguntas,
a antiga farsa sentada
à mesa de Natal...
"Quanta saudade",
disse-he o parente distante,
a quem não via desde o Natal anterior.
"Nossa, como você cresceu!"
apertou-lhe as bochechas a tia.
"E as namoradinhas?"
perguntou o tio ao sobrinho.
No que ele,
diferentemente de anos anteriores
cansado da velha hipocrisia familiar,
falou sobre gênero e desigualdade.
Falou sobre respeito,
sobre o amor divino
e o sentido do Natal.
Falou verdades,
e, dentre elas,
a verdade que ninguém queria
ouvir: há pouco sentimento entre a família,
muita miséria entre os
irmãos.
E a festa acabou.
METALINGUAGEM
Veja que interessante:
troco uma letra
e o que era meu
vira seu;
se acrescento uma,
o que era útil
vira fútil.
Um acento
faz o que foi vivido
- lá no passado -
tornar-se tão presente
só ser vívido.
Mas, ah, nada
se compara
a isto:
se eu coloco
Roma na frente
do espelho,
que belo
amor
eu ganho!
AS FORMAS DO AMOR
A menininha
organizava a brincadeira
de casinha
com suas bonecas
quando, repentinamente,
pergunta aos pais,
que estavam ali próximos,
juntos em afeto
assistindo à TV,
sobre coisas
do amor.
Com um sorriso para a filha,
mergulham profundamente
na essência do que
dizer.
existência.
Mãos dadas,
falam do amor
e de seus mitos.
De Eros,
mas também
de Philia e de Ágape.
De Romeu e Julieta,
Abelardo e Heloísa,
Tristão e Isolda,
e Pedro e Inês.
Amores felizes ou trágicos,
mas que persistem no tempo,
recusam a morte.
Figuras históricas ou míticas,
falaram de tudo
quanto sabem.
Falaram de si mesmos,
de quando se conheceram
e de quando passaram a viver
o amor.
"Quando duas pessoas
se amam,
nada mais importa."
A menina,
encantada com
tudo quanto
ouvira,
voltou-se para sua
brincadeira de casinha
e não hesitou:
casou sua
Barbie com Suzie.
E o Ken, ah...
Este era uma vez
OBRA DE ARTE
Eu me sinto
uma pintura cubista
viva
no trem que me leva
ao trabalho
- da Central à Santa Cruz.
A perna fica na cabeça,
o braço direito
no joelho esquerdo.
Os olhos estufam
e a cabeça
vai pro chão.