Sammis Reachers

Sammis Reachers

n. 1978 BR BR

Sammis Reachers nasceu em 09/05/1978 em Niterói – RJ. Licenciado e pós graduado em Geografia, é também poeta, escritor, antologista e editor.

n. 1978-05-09, Niterói - RJ

Perfil
9 709 Visualizações

Os Lírios de Kierkegaard

Tu, ex-refém da urgência competitiva

cujas células agora se esparramam sem controle

deserda os leitos e jardins cuidados e restritos

vai às flores do campo,

abandonadas na rusticidade,

virgens de mãos de jardineiro

 

Funda teu acampamento e observa-as,

a sol e chuva, a suportarem o tempo em cumplicidade

vá, citadino, até que a luz

tenha parto e teus olhos tenham cura,

e possas entender – a tempo, isso

que a todo tempo finda –

que elas têm um Jardineiro

feito de sempres e de serenidades

 

Entrega, enfim, teus dias em Suas mãos,

e furta irmandade às flores
                                             e à eternidade
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Biografia
Sammis Reachers nasceu em 09/05/1978 em Niterói – RJ. Licenciado e pós graduado em Geografia, é também poeta, antologista e editor. Tem se destacado como promotor e divulgador de poesia, através das antologias que organiza e dos blogs como o Poesia Evangélica, onde já publicou mais de trezentos autores. Autor de dez livros de poesia, dois de contos, e organizador e editor de mais de quarenta antologias.

Poemas

5

Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru


Os desertos enganam,

Mas só no mar está

A paz que nada interrompe

 

A fluição que vocifera

Em ritmados uivos, silvos

                                          Laivos

Da noite primordial.

 

Do caos fundamental

Transemerge o mar:

Torre deitada em seu abraço de encastelar.

 

Kraken, Caribde, meu tio Geraldo Xereta

Ausências que a praia transtraz, à maneira

De Rosa, Guimarães,

Conchas desfeitas,

Calcário sobre crostas oceânicas de basalto

Infância de meus sobrinhos,

Após a minha

E Abraão e Caim e Adão

 

O planeta feito de água de seres

Feitos de água

                               Esgoelando-se por solidez.

Cada homem é a coleção de seus processos

 

Daquele pico

Pode-se esculpir as estrelas

E que são os aglomerados de galáxias,

Senão matéria escura desbastada

Até adquirir forma?

Células-tronco primeiras

De Jeová, esculpidas pelo sopro

Do Espírito que tudo navega?

 

Venha poder palraz,

Derrube Meru no oceano,

Dissolva os entes e seus ícones

Na recriação.




Do livro Cartas e Retornos (2021).
Publicado anteriormente na revista Ensaios de Geografia (UFF).
335

Carta aos Nautas

Degustador dos abismos

Violador de trancas

Prole perdida do Mar Oceano

Ávida por sua herança

 

Circunvassalos das marés

Singradores, sangradores, sangrias

 

Odisseus e Colombos,

Ícaros d’água e d’estempero

 

Horda diaspórica

De mamíferos rastreadores de estrelas

Que buscam um norte

Para dele perder-se

 

Coitados? Audazes? Intercisos

Os abismados da condição humana

Defenestrados da aldeia que

Fogem da dor do mundo levando

Toda a dor do mundo consigo

 

E um sorriso

Que navegar é preciso




Do livro Cartas e Retornos (2021).
676

Retorno ao Rio Alcântara

Retorno ao Rio Alcântara

 

 

No fundo do meu quintal corre um rio

Que desliza escorreito com voz de sibila

Onde vejo passar o destino circular dos homens

O tempo longo, médio e curto de Braudel

As eras geológicas, as flores do cambriano

Grandes do tamanho de minha casa     

Os ciclos menstruais da vizinha feia,

Suas explosões de paz ou os silêncios de sua

fúria

 

No fundo de meu coração corre um rio

A passos lentos, vejo passarem formas

Frágeis, Heráclitos sorumbáticos

E revelações inconclusas sobre as quais

Tento o salto transcendental - mas não

Consigo sair de mim, deslogar

Pois não possuo o Tempo que tudo

Revela e (de)compõe: outrossim,

Sou do Tempo uma posse, um Heráclito

(Vejo passar os livros que Borges

Não escreveu, livros que gosto de imaginar

Quando quedo triste olhando o rio

E que de toda forma jazem escritos

Em algum lugar de Deus)

 

No fundo da íris de Deus corre um rio

Intransponível, de sufocante caudal

Do qual este poema, as flores cambrianas

Extintas do tamanho de casas e os homens

Algemados à sua liberdade circular

De probabilidades previstas e os livros

Que Borges iria escrever mas morreu e

Que jazem escritos em algum outro lugar de Deus

(pois dentro de Deus as coisas transitam,

Irrequietas ricocheteiam livres do Tempo circular)

E o Universo holográfico platônico celebrante e

Pânico são espelhos,

 

Reles espelhos deslizantes.



Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor:  [email protected]
336

Carta ao Farol

Carta ao Farol

 

Sol da boa noite

Esperança terrajeira

Palácio liberto dessas libertinagens

Que são as realezas

 

Totem de turmalina

E óleo de baleia

Para a mater solidão

 

Ímã ao homem de exceção,

Perdição da sereia

Torre pontifex

 

Tubo alquímico, construto

De magia branca minimalista

Única habitação humana

Que comporta (com conforto

Para sua densidade d’asas)

Um poeta

 

Silenciário

Notário da oceanografia

Lança de condão e luminotecnia

Oceânico elucidário

Norteador noturno,

Soturno mosteiro

Dum-só-monge

 

Hiperlugar, canhão

De topofilia

Lua sem minguantes

E sem volteios

 

Mirante oceamar

Caracol teso sobre as vagas

Imóbil máquina de alar

 

Estaca-mar

                Ou mor,

Poema de habitar.



Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor:  [email protected]
684

DO OUTRO LADO DO TEU MEDO HÁ UM PALÁCIO

DO OUTRO LADO DO TEU MEDO HÁ UM PALÁCIO 

Do outro lado do teu medo há um palácio
guardado por arautos transidos em armaduras de grafeno
que empunham a mais altiva das bandeiras
onde tua “A Experiência Capital” luz timbrada

do outro lado do teu medo há um trono
de jasmim e memórias de lágrimas extintas
no centro do palácio, aeródromo sem check-in
que dá acesso direto ao terceiro céu

do outro lado do teu medo, muralhas
após há um ápice, pontiagudo platô
donde é possível contemplar, descarnada
e finda, tua ígnea saga de arromba-portas

do outro lado do teu medo, logo
ali, centímetros além de tua prematura
derrocada, há um jardim imorredouro
erigido em âmbar gris pelo Rei dos reis

do outro lado do teu medo, sete véus
d’além d’Avenida dos Procrastinados
ruas de honradez rebrilham sob o sol invicto
que lança sombras no ossário das desculpas

do outro lado do teu medo, enfim
há um princípio que a tudo dilacera, renovo
que além do precipício vocifera
e, em urros contra a tua covardia, aguarda.


Do livro CARTAS E RETORNOS (2021).
Para adquirir, escreva para o autor:  [email protected]
665

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