BRANCA DE NEVE
Já não quero mais caminhar
Eu ando trôpego sem ti
Teu passo era meu compasso
Já não quero mais conversar
Ninguém me escutava como tu
Entendias o que não falei
Não há mais anedotas a contar
Ninguém sorria como tu
Debochavas de mim com ternura
Não há mais com o que sonhar
A minha inspiração eras tu
Encanto que se desfez
Não há muito a se explicar
A Branca era de neve
E ao calor do sol derreteu
Não houve final feliz
O castelo foi demolido
E a princesa morreu
A visão do Jatobá
Era o ano de 1959, ele subiu num tronco de arvore tombado no meio da roça, mirou o horizonte e pensou: "este ano eu decolo". Nunca tinha visto uma lavoura de algodão tão bela. As maçãs rosadas do algodão desabrochavam em capulhos viçosos transformando o campo num esplendoroso tapete de neve. Era uma paisagem esplendorosa. Fez suas contas em silêncio e pensou: deve dar quase três toneladas por hectare, uma produtividade inimaginável para qualquer agricultor.
Era uma visão de esperança após quatro longos anos de dificuldades. A esposa adoentada, sem receber da prefeitura o mísero salário de professora rural há quase dois anos, o dono da terra desconversando os acordos da parceria na lavoura em virtude da expectativa de alta produtividade na safra. Aliado a isto estava o fato de ter se tornado indesejável a muitos pela insistência com que anunciava e defendia a sua nova fé e a renovação pentecostal. Não havia como contê-lo, abraçara a fé em Cristo e recebera o batismo com o Espírito Santo. Seu filho nascera com um sexto dedo, mas fora curado, sem passar por qualquer processo cirúrgico, mas tão somente pelo poder da oração.
Naquela noite foi dormir tarde, demorou conciliar o sono entre expectativas e preocupações. Os céus conspiraram, a temperatura caiu no pé da serra e uma forte geada se precipitou sobre a lavoura enchendo o vale de uma desolação jamais vista por ali. Quando o sol raiou, só havia destroços da plantação de algodão que tanto lhe alegrara. Foi tomado de uma profunda tristeza e desencanto que mal conseguia suspirar. Foi quando então lembrou-se do sonho que tivera na madrugada:
"Era uma mata alta fechada, com peroba, pau-de-óleo, ipês, jacarandás, aroeiras e muitas outras espécies não menos nobres, mas que precisavam ser derribadas para instalação imediata de uma nova lavoura. Cabia-lhe a tarefa, mas não sabia como começar, nem com dez homens seria possível fazê-la em tempo hábil. De repente, avistou um grande pé de Jatobá a margem da floresta, tão grande que sobressaia sobre as outras árvores como uma calda de pavão. Não perdeu tempo, deu com seu machado um pequeno pique nas árvores principais e depois pôs-se a tarefa de derrubar o Jatobá. Após algumas horas de machadadas o Jatobá tombou levando consigo toda a floresta."
Voltou rapidamente para a cozinha, rejeitou o café que estava sobre a mesa e foi com a família para o cantinho da oração. Foi então quando o Senhor lhe disse: "Alegra-te meu servo, porque há uma grande floresta esperando por ti, e grande será a derribada, quando hoje te chamarem para ir para outras terras, dispõe-te e tenha bom ânimo, porque esta é a lavoura para a qual te escolhi, e muitos Jatobás aguardam o fio do seu machado."
Naquela mesma semana, ele recebeu o dinheiro atrasado da prefeitura, mudou-se para Brasília só com os utensílios domésticos, mas foi por cerca de 50 anos, uma das colunas da igreja na capital e um grande ganhador de almas para o reino dos céus. Seu nome: Francolino Rodrigues da Mata.
VOLTA AO BERÇO
Ele navega com carinho o seu mar sagrado
Sua alma flutua na imensidão do tempo
Sua memória é a bússola e seu astrolábio
A lembrança é a vela e a saudade o vento
Sua voz tremula num suspirar profundo
Sua alma mergulha, vai fundo ao passado
Seu olhar procura sombras de outro mundo
Que em cavacos ou pedras esteja registrado
Já sem esperanças, seu olhar vagueia
Nada mais existe, tudo foi desmontado
Quando de repente em meio à capoeira
Vê-se ainda ereto um mourão queimado
Em um impulso forte, corre e abraça o tronco
Como a um ente querido, beija, afaga e cheira
Em soluços fala, já em meio ao pranto
Vejam aqui meninos: o mourão da porteira
Horas em silêncio, ao tronco abraçado
Sua alma chora, imersa em lembranças
Lágrimas escorrem de olhos contristados
Onde há 80 anos, brincava a criança
Todos nós criamos a falsa esperança
De encontrar de outrora, os sonhos desfeitos
Buscar na ternura de velhas lembranças
Afago pras mágoas que apertam o peito
REMISSÃO
Quando vi teus olhos, quebrei minhas juras
Teu sorriso então - é da ventura a porta
Percebi que ali, pra toda mágoa há cura
Aonde a dor não chega e a saudade é morta
Que magia é esta que o teu olhar comporta?
Como há tanto encanto em um olhar humano?
Se preso em barreiras, rompe as comportas
Se desprendido fica, forma um oceano
Bendita a ventura de encontrar-te agora
Dissipar minhas mágoas neste teu sorriso
Se alguma dor eu tinha, já se foi embora
Escapei do hades e fui pra o paraíso
AMIGO LEAL
Em cada alvorada a Deus eu bendigo
Pelo celeste amparo e também dos amigos
Bendigo a riqueza do amor fraternal
Pela doce ternura de um amigo leal
E na dor do insucesso, na amargura do fel
Como é doce a ternura de um amigo fiel
Mas se o amigo é impuro ou de caráter venal
Mui depressa o excluo e me afasto do mal
Quão mesquinho me mostro procedendo assim
Quão mais frágil o amigo, mais precisa de mim
Se assim fosse Cristo, excludente qual sou
Que seria de mim, longe do salvador?
INSÔNIA
Quando a angústia o peito invade e rouba-te o sono
Pergunta então a tua alma: Quem está no trono?
Sendo o Senhor o teu guia, o teu destino e teu norte
Porque te afliges minh’alma e temes assim tua sorte?
Quem no Senhor confia e tem nele a esperança
Põe nas mãos dele sua vida e assim em paz descansa
Se o teu projeto arruína e aos poucos desvanece
Desce depressa do trono e assenta nele o Mestre
ELE SABE QUANTO DÓI
Dos chegados, a traição
Do Getsêmane, a solidão
Do povo, a ingratidão
De Pilatos, o lavar das mãos
O ódio dos invejosos
Juízes tendenciosos
Injustiça dos poderosos
Ingratidão de ex-leprosos
Ter seus direitos vendidos
Em público ser escarnecido
Ter o rosto cuspido
Rever o amigo fugido
Testemunhos falsificados
Ter seus vestidos arrancados
Em acoites, ser dilacerado
De escárnio e dor coroado
Assim, na sua aflição só lhe diga:
Senhor, tu conheces a medida
Guarda em tua paz minha vida
Pra que em minha dor o bendiga
VENERAÇÃO
Afasta-te de mim, razão mesquinha
Não quero ouvir tua voz, nem mesmo a minha
Minh'alma a sós com Deus quer conversar
Não vim buscar razões, reclamar dolos
E nada peço a Ti, senão consolo
Longe de mim, Teus desígnios julgar
Nada trago a Ti, que sirva de oferenda
Sou pobre, débil e vil, alma em contenda
Nada de bom coloco em teu altar
Não anseio promessas para cobrar-te à frente
Nenhuma explicação me deves, sou indigente
Apraz-me em tuas veredas poder trilhar
Perdão se na pouca fé nasce a tristeza
Tu és minha rocha, escudo e fortaleza
Ensina-me em Tua sombra eu descansar
Não sei quão curto ou longo é meu caminho
Nem se no meu pisar há relva ou espinho
Mas basta-me a tua mão a me afagar
Não quero ter jornada esplendorosa
Vanglórias pueris ou mar de rosas
Apenas Tua paz pra eu repousar
E N S I N O M E D Í O
Não precisa estudar nada
Quem quer fazer faculdade
Só reprova quem não paga
É uma nova realidade
Ralar em livro é absurdo
Estudar é coisa brega
A internet tem tudo
Marca-se, cola e entrega
Quatro anos passam rápido
É um ótimo investimento
Com um cachê intermediário
Forma-se antes do tempo
Se for gente de influência
Logo estará empregado
Numa ONG, na Previdência
Quiçá até no Senado
Entre em cargo de confiança
Por um amigo deputado
E em acordos de lideranças
Serás logo efetivado
É o novo ensino m e d í o
Que o PT implantou
Medíocre em todos os termos
Honoris causa ao "doutor"!
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza