O MÉDICO
Quase sempre de branco
Mas carmesim é sua cor
Na aflição e no pranto
Rege a música da dor
A quem primeiro socorre?
Cabe a ele o julgar
Até conhece o que morre
Mas não o pode chorar
É mal súbito ou crônico?
Que se pode fazer?
É local ou sistêmico?
Pode-se reverter?
Se o consegue, é exaltado
Mas se não, é incompetente!
Não importa o estado
Dê-se a vida ao doente!
Quem conhece suas mágoas?
Quem já o ouvir chorar?
Quem esqueceu suas chagas
E foi a ele abraçar?
Quando olham pra ele
Todos só se lembram de si
Mas, só abracem hoje a ele
Pois ele também quer sorrir
HUMANIZAÇÃO
Buscando a harmonia da natureza
Quebrando a frieza do concreto
Do pupilar dos pássaros a beleza
O doce gorjear quis ver de perto
Instalei num cantinho da sacada
Abrigo, água, ração, alpiste e ninhos
Pra ouvir no levantar da alvorada
O doce cantar dos passarinhos
Depois de um criar bem sucedido
A rolinha arruma o ninho novamente
Quando um filho no lar busca o abrigo
Da chuva que começa de repente
Em gritos de dor o filho se desespera
Já com seu peito aberto e sangrando
Pois o bico da mãe-rola o dilacera
Num ato vil, cruel, quase humano!
Grandes Sonhos
Do vôo das aves, da águia e do falcão
Mobilidade de lêmure e força de leão
Mergulho dos peixes que ao fundo vão
Do enxergar predatório em plena escuridão
Do radar do morcego, às cegas a voar
Do pombo-correio, o saber se achar
Do elefante a quilômetros, o se comunicar
Engenharia de grilo, tão longe a saltar
Sonhos milenários, ao homem a aguçar
Coisas só alcançadas de cem anos pra cá
Hoje: mundo interativo, radiante a brilhar
E meninos que pensam: tudo já estava lá
A Glória de Crison
Fez mais um chá de cidreira
Só não sabia que era o último
Preparou um ovo de capoeira
Só não sabia que era o último
Deu-me mais um sorriso farto
Só não sabia que era o último
Seu coração deu um infarto
Foi seu primeiro e o último
Pobre, raquítico e analfabeto
Sem tratamento ou assistência
Por do abandono um decreto
Morre de velho aos cinqüenta
Não mais a mesma é Glória
Sem de Crison o sorriso
Abram-se oh cortinas da glória
Pois ele chega ao paraíso
ÀS VEZES
Às vezes eu choro e não sei o porquê
Às vezes eu sei, mas não quero crer
Nem sempre o que sinto, consigo dizer
Mas sempre o que digo está no meu ser
Às vezes sou mágoas, às vezes paixão
Às vezes sou lágrimas e pura emoção
Às vezes dureza, frieza e razão
Às vezes amargura, dor e solidão
Às vezes eu busco por alguém melhor
Às vezes ao relento, prefiro estar só
Às vezes é triste viver sem ninguém
Às vezes esta vida é a que me convém
Às vezes eu quero o que sempre sonhei
Às vezes eu sonho com o que já deixei
Às vezes esqueço o que eu quero ser
Às vezes eu sou o que quero esquecer
Eu sempre falo o que eu devo pensar
Mas nem sempre penso antes de falar
Tenho sempre escrito o que me convém
Mas às vezes escrevo a dor que me tem
AUSÊNCIA
Você de mim sabe tudo:
O meu sorrir e os meus medos
Você ouviu meus sussurros
E todos os meus segredos
Sinceramente eu não sabia
O quanto tu eras pra mim
Hoje minha vida é vazia
Sem você perto de mim
Você sumiu na sexta-feira
E a minha vida mudou
Vivo sem eira nem beira
Já nem sei mesmo quem sou
Já nem sei se tenho amigos
Nem sei onde é que eu estou
Nem onde fica o meu abrigo
A minha memória apagou
Tratei-te com carinho e zelo
Mas já noutros braços estás
Maior que a dor de perde-lo
É saber que não voltas mais
E esse alguém que agora te usa
Que ouça o que estou a dizer-lhe
Em mim não há orgulho ou recusa
Que o impeça de a mim devolver-te
Pois desde de que eu te perdi
Em angústia, a dor me consome
Não consigo viver mais sem ti
Meu querido Smartfone
BRANCA DE NEVE
Já não quero mais caminhar
Eu ando trôpego sem ti
Teu passo era meu compasso
Já não quero mais conversar
Ninguém me escutava como tu
Entendias o que não falei
Não há mais anedotas a contar
Ninguém sorria como tu
Debochavas de mim com ternura
Não há mais com o que sonhar
A minha inspiração eras tu
Encanto que se desfez
Não há muito a se explicar
A Branca era de neve
E ao calor do sol derreteu
Não houve final feliz
O castelo foi demolido
E a princesa morreu
A visão do Jatobá
Era o ano de 1959, ele subiu num tronco de arvore tombado no meio da roça, mirou o horizonte e pensou: "este ano eu decolo". Nunca tinha visto uma lavoura de algodão tão bela. As maçãs rosadas do algodão desabrochavam em capulhos viçosos transformando o campo num esplendoroso tapete de neve. Era uma paisagem esplendorosa. Fez suas contas em silêncio e pensou: deve dar quase três toneladas por hectare, uma produtividade inimaginável para qualquer agricultor.
Era uma visão de esperança após quatro longos anos de dificuldades. A esposa adoentada, sem receber da prefeitura o mísero salário de professora rural há quase dois anos, o dono da terra desconversando os acordos da parceria na lavoura em virtude da expectativa de alta produtividade na safra. Aliado a isto estava o fato de ter se tornado indesejável a muitos pela insistência com que anunciava e defendia a sua nova fé e a renovação pentecostal. Não havia como contê-lo, abraçara a fé em Cristo e recebera o batismo com o Espírito Santo. Seu filho nascera com um sexto dedo, mas fora curado, sem passar por qualquer processo cirúrgico, mas tão somente pelo poder da oração.
Naquela noite foi dormir tarde, demorou conciliar o sono entre expectativas e preocupações. Os céus conspiraram, a temperatura caiu no pé da serra e uma forte geada se precipitou sobre a lavoura enchendo o vale de uma desolação jamais vista por ali. Quando o sol raiou, só havia destroços da plantação de algodão que tanto lhe alegrara. Foi tomado de uma profunda tristeza e desencanto que mal conseguia suspirar. Foi quando então lembrou-se do sonho que tivera na madrugada:
"Era uma mata alta fechada, com peroba, pau-de-óleo, ipês, jacarandás, aroeiras e muitas outras espécies não menos nobres, mas que precisavam ser derribadas para instalação imediata de uma nova lavoura. Cabia-lhe a tarefa, mas não sabia como começar, nem com dez homens seria possível fazê-la em tempo hábil. De repente, avistou um grande pé de Jatobá a margem da floresta, tão grande que sobressaia sobre as outras árvores como uma calda de pavão. Não perdeu tempo, deu com seu machado um pequeno pique nas árvores principais e depois pôs-se a tarefa de derrubar o Jatobá. Após algumas horas de machadadas o Jatobá tombou levando consigo toda a floresta."
Voltou rapidamente para a cozinha, rejeitou o café que estava sobre a mesa e foi com a família para o cantinho da oração. Foi então quando o Senhor lhe disse: "Alegra-te meu servo, porque há uma grande floresta esperando por ti, e grande será a derribada, quando hoje te chamarem para ir para outras terras, dispõe-te e tenha bom ânimo, porque esta é a lavoura para a qual te escolhi, e muitos Jatobás aguardam o fio do seu machado."
Naquela mesma semana, ele recebeu o dinheiro atrasado da prefeitura, mudou-se para Brasília só com os utensílios domésticos, mas foi por cerca de 50 anos, uma das colunas da igreja na capital e um grande ganhador de almas para o reino dos céus. Seu nome: Francolino Rodrigues da Mata.
VOLTA AO BERÇO
Ele navega com carinho o seu mar sagrado
Sua alma flutua na imensidão do tempo
Sua memória é a bússola e seu astrolábio
A lembrança é a vela e a saudade o vento
Sua voz tremula num suspirar profundo
Sua alma mergulha, vai fundo ao passado
Seu olhar procura sombras de outro mundo
Que em cavacos ou pedras esteja registrado
Já sem esperanças, seu olhar vagueia
Nada mais existe, tudo foi desmontado
Quando de repente em meio à capoeira
Vê-se ainda ereto um mourão queimado
Em um impulso forte, corre e abraça o tronco
Como a um ente querido, beija, afaga e cheira
Em soluços fala, já em meio ao pranto
Vejam aqui meninos: o mourão da porteira
Horas em silêncio, ao tronco abraçado
Sua alma chora, imersa em lembranças
Lágrimas escorrem de olhos contristados
Onde há 80 anos, brincava a criança
Todos nós criamos a falsa esperança
De encontrar de outrora, os sonhos desfeitos
Buscar na ternura de velhas lembranças
Afago pras mágoas que apertam o peito
REMISSÃO
Quando vi teus olhos, quebrei minhas juras
Teu sorriso então - é da ventura a porta
Percebi que ali, pra toda mágoa há cura
Aonde a dor não chega e a saudade é morta
Que magia é esta que o teu olhar comporta?
Como há tanto encanto em um olhar humano?
Se preso em barreiras, rompe as comportas
Se desprendido fica, forma um oceano
Bendita a ventura de encontrar-te agora
Dissipar minhas mágoas neste teu sorriso
Se alguma dor eu tinha, já se foi embora
Escapei do hades e fui pra o paraíso
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza