BRASIL QUE DÁ GOSTO
Brasil tropical, de um mar sem igual
que eterniza o verão,
Dos credos nas praças, da paz entre as raças
e da miscigenação
Sem avalanches, vulcões, terremotos, tufões
ou outras tormentas quaisquer,
De mil rios e florestas, da natureza em festa ,
onde a vida é o mister.
Brasil da alegria, do samba e poesia,
és um Brasil canção!
Lar da democracia e da poligenia,
país da livre expressão!
Brasil da festança, do folclore e da dança,
terra da promissão
Brasil do aconchego, da cachaça e levedo
e da fartura de grãos
Vazios os fortes da serra, és uma pátria sem guerra,
és uma casa de irmãos!
Oh meu Brasil pacifista, de qualquer ponto vista,
és a melhor das nações!
Quem ainda não te conhece, vive missa sem prece
e por certo está a perder:
Um Brasil que dá gosto, dá alegria e remoço,
terra prá se viver!
O RIBEIRO
Ribeiro Fontes morreu
Como qualquer indigente
Minguando aos olhos dos seus
Sem que ninguém o lamente
Viveu por milhões de anos
Mas não ficou resistente
Contra o agente humano
Destruidor do ambiente
Por resíduos contaminados
Seus pulmões capitularam.
Por seus sulcos depilados
Seus braços fortes secaram
Seu leito seco em avenida
Em breve será transformado
E o doce canto da vida
Prá sempre silenciado
CLAMOR ÁUREO E VERDE
Gemidos de fome e do descaso o pranto
Retumbam nas noites de um País sem igual
Que cobre os horrores com áureo e verde manto
E ignora a miséria, num silêncio venal.
Maldito o destino de seus pobres filhos.
Oh País da vergonha e de injustiça atroz
Pois de infante sangue alimenta seus rios
E dos que clamam por pão, ignora a voz!
Estampido na noite, já não incomoda ninguém
Chacina é manchete em todo o jornal
Dá Ibope a desgraça dos que nada têm
Violência e miséria já é o viver natural.
Adormecido gigante ao clamor do seu povo
Cujo berço é esplêndido, mas cheira a podridão
Busca hoje em teu íntimo dignidade e renovo
Para fazer de teus filhos ao menos cidadãos.
DESCOBRINDO A PÁTRIA
Quando criança, disseram-me: Ela é tua mãe!
Dei-lhe todo o meu afeto, carinho e respeito;
Quando garoto, disseram-me: Ela é tua rainha!
Cantei-lhe versos, prestei-lhe culto e admiração;
Quando jovem, disseram-me: Ela é a tua amada!
Dei-lhe minha vida, minha força e minha devoção;
Quando adulto, disseram-me: Ela é tua patroa!
Fiz-me seu serviçal, fiel e devoto;
Agora, velho, na dependência de seus cuidados,
descubro que Ela é, de fato, apenas minha algoz.
INFORTÚNIO
Vendo-me assim, tão pequeno e faminto,
Te comoves e sentes por mim compaixão,
Mas ao pensar nos culpados deste meu vil destino,
Tua raiva sufoca a primeira emoção.
Eu não fiz a escolha do lar que nasci,
E o pai que eu tenho, não te censuro julgar,
Mas um pedaço de pão, foi só o que pedi.
Tua revolta não pode minha fome matar.
Com o Samaritano, precisamos aprender:
Quem legaliza o infortúnio, não o quer resolver.
Do faminto o problema, só achará solução
Nos que acima da mente, vêem com o coração.
BRAÇOS ERRANTES
Braços meigos, infantes, gentis, saltitantes;
pureza e ilusão.
Braços unidos, dobrados, mansamente curvados;
fé e devoção.
Braços enfileirados, fuzil empunhado;
serviço à nação.
Braços abertos, espaçosos, gentis, calorosos;
amor e afeição.
Braços musculosos, servis, vigorosos;
labor e produção.
Braços levantados, vibrantes, agitados;
participação.
Braços desanimados, ociosos, cruzados;
crise e recessão.
Braços indoutos, insanos, revoltos, profanos;
fome e desilusão.
Braços magros, estendidos, fracos, abatidos;
mendicância de pão.
Braços enrijecidos, maléficos, agressivos;
violência e tensão.
Braços algemados, feridos, drogados;
morte numa prisão.
SAUDADES DO REI
O rei foi tirano, cruel, vil, profano
e de fúria sem par
Vivia em luxúria, em ouro e fartura,
a seus súditos explorar
Ao que disse: culpado, teve o pescoço cortado
ou morreu em grilhões
No calor do seu ego e em seu reger duro e cego,
dilacerou multidões
E o povo sofrido, entre clamor e gemidos,
se ouvia dizer:
Oh! rei avarento, asqueroso e nojento,
você tem que morrer!
O rei foi enforcado, seus filhos exilados,
para nunca mais retornar
E o povo em euforia, gritava: viva a democracia,
vamos nós governar!
Será nossa premissa: igualdade e justiça,
seremos todos iguais.
Mas uma tal burguesia, na surdina surgia,
mais cruel e sagaz
Capa de igualdade, de justiça e equidade,
se passou por irmão
Porém, já faz tanto tempo, só há fome e tormento
- grande traição!
Massacrou a pobreza, subtraiu as riquezas,
sem as unhas mostrar
E o povo sofrido, faminto e vencido,
não sabe mais quem xingar
E quando indagados, sobre quem é culpado,
todos dizem: não sei.
Mas são todos unânimes: a um viver tão infame,
preferiam o rei .
Não por menor agonia ou por qualquer nostalgia
que se queira manter.
É que naqueles dias, o povo ao menos sabia
quem deveria morrer.
SONHO DE CRIANÇA
Há um sonho de criança muito longe da ilusão,
Não tem fada, castelo nem príncipe encantado
É um desejo profundo por um pedaço de pão
De um estômago que ronca sem nunca ser saciado.
Esse sonho tão simples têm milhares de infantes
Nas calçadas e marquises de toda grande cidade,
Estirados na grama, também debaixo das pontes,
É um amargo sonho em vigília, nutrido pela necessidade.
Esse sonho tão cruel, repleto assim de horrores,
É forjado em gabinetes da forma mais triste e vil
Que prende os filhos da fome num curral de eleitores
A manter no poder os políticos do nosso injusto Brasil.
ALTIVA FLÂMULA
Desprenda-te altiva flâmula do teu mastro,
Para no mais profundo abismo te ocultar,
Até que expurgues de teu ventre e teu regaço,
A infame corja que enlameia o teu altar.
Heróis que te serviram estremecem
Se de alguma forma puderem contemplar
Teus filhos que espoliados empobrecem
Para a gatunos, em vil ordenança, enricar.
Que sangue corre nas veias de teu povo
Que a tanta chaga consegue suportar ?
A indiferença e covardia já dão nojo,
E de civismo, já é galhofa se falar.
Tuas cores, óh! sacro manto, apropria
Com as verdades que hoje estão a imperar,
Teu verde é hepatite, teu amarelo é anemia,
Pois mata e ouro já tosquiaram até findar
As estrelas do teu céu obscurecem,
Pois tu exaltas e enalteces é ao vilão,
O seu azul é a justiça que apodrece,
E o branco é do povo a desilusão.
A ordem há muito foi subvertida,
Polícia e malfeitores dão-se as mãos,
Progresso é uma esperança esvanecida,
Vergonha e ignomínia, é teu brasão.
FLAGELO
Zumbem aos teus ouvidos, assediam tua sopa,
Impregnam o ar e te mancham a roupa.
Num lugar tão horrível não se pode comer.
Vais prá outro - é igual, não tens pra onde correr.
Essas vespas urbanas atacam aos milhares
Nos shoppings, nas ruas, restaurantes e bares.
Não são brancas nem pretas, são todas amarelas,
Maltrapilhas, doentes e quase sempre banguelas.
Algumas são ferozes, agem com violência.
Te agridem, te ferem, perderam a paciência.
Na espera de ação, vivem a pedir esmolas,
Hibernadas no álcool, no craque e na cola.
São todas conhecidas, tem número e crachá,
Só não tem quem, das ruas, as queiram tirar.
Às vezes são ordenhadas em pseudo fundações
Onde se filma a miséria prá ter votos aos milhões.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza