O NATAL DO PALÁCIO
Na estrebaria o povo adorava
Nos campos e prados, os anjos cantavam
No céu uma estrela ao Rei indicava
E os magos de longe, presentes ofertavam
No palácio de Herodes, tudo era diferente
Era inveja, era ódio era um plano macabro
Era uma trama de morte contra todo inocente
Pois entre eles, por certo, estava o Rei adorado
O Brasil de hoje, é a Belém de outrora
Se fomenta o mal, enquanto o povo adora
Nos pacotes de hoje, não há mirra ou incenso
È imposto, é torpeza, é usura, é aumento
Assim, a história do Natal se repete
Não mais com o sangue derramado à espada
Mas com a morte do povo que por fome, inerte
Em pobreza e miséria aos poucos se acaba
O Herodes de hoje, como o outro é cruel
Massacrando seu o povo, é uma afronta aos céus
Em corrupção e bandalheira, rege a música do paço
E em MPs e decretos, faz da nação um fracasso!
A PASSADEIRA
O ferro fumegando e mais trouxas chegando
que vão e que vêm em um ciclo sem fim.
Fazem da passadeira, filha da lavadeira,
mais uma pobre cativa de um mundo ruim.
Tem suas mãos ressecadas, sua pele queimada
e sua face cansada de um eterno sofrer.
Seu olhar contristado não vê futuro ou passado
pois o seu tempo é contado só em tarefas a fazer.
Parque, circo, gincana, folga ou fim-de-semana,
praia, livro e escola são coisas que nunca viu.
Não sabe sua idade, mas passou da puberdade
sem viver os encantos do mundo infantil.
Não tem carteira fichada ou horas de labor registradas,
nenhum salário a ganhar.
Só tem o pão por comida, roupas em trapo e a dormida,
mão-de-obra familiar.
Passa da seda ao chitão, do linho fino ao roupão,
só não passa a cortina entre o sofrer e o viver.
Já não estica a esperança, queimou sua infância,
dobrou e guardou seu querer.
Assim, engoma a sua sina, não é mulher nem menina,
pois nunca pode sonhar.
Em ferro e em brasas ardendo, vai seu viver padecendo
até a morte chegar.
A COTA DO DIA
- Moço me dá um real.
Não era um pedido qualquer, deste que se houve todo dia. Era um clamor sincero, com expressão e sentimento, daqueles que fazem doer a alma de quem ouve.
Virei-me. Era uma garotinha ruiva , cabelos anelados, olhos cor de mel, que brilhavam no reflexo da luz sobre as lágrimas que brotavam nos seus olhos.
- Não chore menina! Você quer um prato de sopa?
- Quero sim, mas não posso comer aqui. O dono da venda não deixa a gente comer. Depois ele briga com a gente. Eu quero mesmo é um real.
- Vai deixar sim! Quem está pagando sou eu. Ora essa! Garçom: traga-me um prato de sopa de frango aqui para a garotinha.
Meio a contragosto, o garçom trouxe a sopa. Já era tarde, umas vinte e trinta horas.
- Quantos anos você tem? Perguntei, quebrando o gelo, enquanto a menina se afogava na sopa.
- Acho que vou fazer seis em setembro, minha mãe é quem disse.
- Por que ainda não foi para casa? Onde você mora?
- Moro na estrutural. Ainda não fui prá casa porque só fiz "sete real". Está dentro do short, senão os garotos tomam.
- Ora, se fez sete reais, por que não foi embora?
Esta hora já é perigoso e ninguém vai te dar mais nada.
- É por isso que eu falei com o senhor. Eu só posso
ir para casa depois que fizer "dez real". Ontem eu só fiz "seis real" e meu pai não deixou eu entrar em casa. Dormi do lado de fora na porta.
- Não é possível! E sua mãe não fez nada?
- Moço. Meu pai é muito brabo. Ele bebe muito e
quando minha mãe fala alguma coisa ele esmurra e chuta ela. Ela está barriguda e doente.
Perdi o apetite. Paguei a conta, dei o troco para a menina e fui para casa revoltado. Não só com o acontecido mas, principalmente, por saber que amanhã ela voltaria e provavelmente com a exigência de uma cota maior.
DEUS FEZ AS MÃES
Deus fez a mulher, augusta e bela
Do flanco de Adão uma costela,
E um grande coração deu Ele a ela
Pra dar aos filhos, amor, perdão e curatela
Benditas mães, fiéis e espoliadas
Dilaceradas no amor, quantas vezes, cuspido
Em pranto, em dor e em lágrimas sufocadas
Consomem-se em amar, um filho embrutecido
Deus deu ao homem a força e autoridade
Impôs-lhe o labor e o provimento
Mas deu à mulher: a abnegação e a madre
E um amor incondicional pelo rebento
Que seria de nós, filhos insensatos
Na mão paterna, justa e cartesiana
Não fosse da mãe, o amor nato
Que independente do erro, ao filho ama?
LEMBRANÇAS
O amor pode cobrir mágoas
Crescer, florir e despontar
Mas a dor do peito em chagas
Ao coração faz chorar
A lembrança traz momentos
Que não se quer reviver,
Mas a dor e o sofrimento
Ninguém consegue esquecer
Quem dera esquecer o que amamos
E alheio aos desígnios viver
Mandar para além do oceano
A dor que nos faz padecer
JOGOS DE AMOR
Na vida as lembranças são tantas
De amores que se ganhou ou perdeu
Algumas são paixões, outras: sonhos
Ou dor de um amor que morreu
As tristezas que hoje choras
São dores das paixões que perdeste
Mas alguém que mandastes embora
Chora o amor que esqueceste
Um amor que pra ti foi brinquedo
Para alguém já foi sonho e ilusão
Uma paixão que guardastes no peito
Para um outro foi só diversão
Ausência em bronze
Aqui estou conforme o vosso pleito
Em data, local, hora e traje a rigor
Cá não estou de fato, só de direito
Vazio de alma, de afeto e de glamour
Gravai meu sorriso, minha pose e meus passos
Registrai em filmes e fotos, o rito e o momento
Forjai engodo aos tolos, montai o palco falso,
Erguido em ignomínia, em nojo, e fingimento.
O marco apenas ao vosso vazio atesta
Que vejam todos: já nada mais vos resta
Rompestes comigo os limites da decência
Em promessas foi balizada a vossa segurança
Mas em loucuras descarrilastes a confiança
Em bronze eternizastes a minha ausência
A SAGA DE LAURA
Em 1912, a Dona Laura nasceu,
Quando por triste destino, a sua mãe faleceu.
Entregue foi a sua tia, para piorar sua sina
Sofrendo muitos horrores, pelas mãos de suas primas
Cinco anos se passaram, seu pai então se casou,
Entre chuvas e enchentes, Laura pra casa voltou.
Pelas mãos de sua madrasta, ela foi bem recebida,
E entre seis novos irmãos, começou uma nova vida.
Entre afazeres e bailes, ao Geraldo conheceu,
E em menos de dois anos, um grande amor floresceu.
Foi festa, bolo e baile, depois a lua-de-mel
Foram morar num ranchinho, lá no morro do chapéu.
Laura teve sete filhos, trabalho árduo no lar,
Enxada, fogão, desnatadeira, em tudo pronta a ajudar.
Mas por sorte traiçoeira, Geraldo tudo estragou,
Com uma amante faceira, um outro lar começou.
Geraldo em bigamia e Laura em grande aflição,
Em ciúme e dor sucumbia, mas não tinha outra opção!
Dezoito anos passaram quando um fato aconteceu:
Laura, a amante está morta, esses quatro filhos são seus!
Uma menina de dois anos, Laura logo batizou.
Seus filhos lhe deu por padrinhos, dedicação e amor.
Hoje, idosa e dependente, quem dela está a cuidar?
É aquela bebê carente, que em pranto e dor quis amar
Há certas coisas na vida que ninguém sabe explicar
Fiinha foi dádiva em vida, e recompensa do amar
Mas não cessa aqui o mistério desta imensa gratidão
Pois lá no trono de Cristo, as duas terão galardão
A DEPUTADA
Quem diria que a Betinha,
A garota da vizinha,
Ia ser autoridade ?
Hoje ela manda e desmanda,
Anda num carro bacana,
Sai no jornal da cidade.
Continua a mesma enxerida,
Mal educada e atrevida,
Falando vida alheia.
Colocou cílios postiços,
Silicone nos caniços,
Tá cada dia mais feia!
BRASIL GOSTOSO
Você já ouviu o cantar do uirapuru?
Subiu as serras do Sul?
Visitou o Pantanal?
Percorreu o litoral?
Viu as musas dourando ao sol?
Sabe o que é um rouxinol?
Visitou a foz do Iguaçu?
Já viu uma tribo Xingu?
Sabe o que é pororoca?
Comeu cuscuz, tapioca?
Cruzou o agreste e o sertão?
Dançou xaxado e baião?
Foi do Iapoque ao Chuí?
Tomou tacacá e tucupi?
Gingou com os capoeiristas?
Comeu virado-a-paulista?
Dançou numa escola de samba?
Comeu a feijoada baiana?
Desceu, de trem, a Paranaguá?
Já foi ao Araguaia pescar?
Comeu do biscoito mineiro?
Já contemplou o Rio de Janeiro?
Andou de bonde no corcovado?
Foi ao Cristo e a São Conrado?
Foi a Mariana, a Ouro Preto?
A um rodeio em Barretos?
Foi a Olinda, a Salvador?
Ao pelourinho, ao elevador?
A Comandatuba, a Itaparica?
A Pomerode, a Curitiba?
E Brasília, a capital,
Você já viu beleza igual?
Antes de ir ao exterior,
Eu só lhe peço um favor:
Suba a Cento e Dezesseis
E desça, aos poucos, a Cento e Um
Pois um Brasil, como Deus fez,
Jamais verás em canto algum.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza