CORAÇÃO ABDUZIDO
De súbito, meu coraçãose descompassa, perde a contagem
O olhar embaça e não sabe mais o que é real ou miragem
Minha auto-estima, como um fugaz raio de sol, desaparece
Minha lucidez desaba como se agora pernas já não tivesse
Joelhos em terremoto, rosto em labareda, boca em cachoeira
Orvalha o corpo, some o discurso e nasce uma gagueira
Já nada mais me importa, senão o eu navegar contigo
Pra onde não interessa, na certa alcançarei o paraíso
A luz dos teus olhos me encandeia, perco os sentidos
Meu coração se vai, rendido ao teu olhar, abduzido
Quem eu sou, quem eu fui e o que eu quis ser, esquece
Vou para outra dimensão, que só quem já amou conhece
PRAIA DAS OSTRAS
Logo o mar da vida nos colocará pra fora
Pra sermos apenas resíduos da história
Onde os mais belos castelos edificados
Já serão meras catacumbas do passado
Por mais bela que seja nossa aparência
Somos apenas moluscos na existência
E quando a areia da ampulheta se esgota
é que se sabe quem deu pérolas ou gosma
Quão mais vultosos sejam os bens deixados
Mais mostram o quanto esteve enganado
Quem optou por viver para si apenas
Vazio e nu chegará por fim na eternidade
Sem no seu bojo portar a fé e a caridade
Apenas lixo de sua arrogância efêmera
MELODIA DAS PEDRAS
Eu sei quão puro e belo é o sorriso de uma criança
De quem ama em inocência sob a fé e a esperança
Que crê que muda o outro em função da companhia
E que não vê a realidade sob o véu da fantasia
Eu sei o quanto é belo descrever a primavera
Desprezar o verão que chega queimando a terra
E só sonhar com os frutos saborosos do outono
Dos quais a dispensa vazia não lhes rouba o sono
Não sou assim, enxergo sempre a dor além das flores
Vejo sempre a tela cinza na qual se assenta as cores
E quão efêmeros são os sonhos construídos em quimeras
Embora sempre eu me derreta em lágrimas
E me comova em dor ao descrever as chagas
Sou duro ao açoitar dos ventos como as pedras
MEU VELHO MONTE
Meu Velho querido, já de alvos cabelos
De quem o rugir a muito, não se ouve mais
Só lágrimas despontam em rios de zelo
Há nutrir seus filhos em remansos de paz
Lagos de ternura formam-se à tua sombra
Nuvens de doçura dos céus vêm a ti
Nenhum vento forte tua calma assombra
Nada mais te rouba a paz do porvir
Flores de carinho a relva te oferece
Em cores e preces, louvam teu viver
E ramos se curvam frente ao teu saber
Firmes e insondáveis são tuas raízes
Belas as matizes que adornam o teu ser
Ventos uivam e cantam em honra a você
POR DO SOL
A ti eu quero contar os meus segredos
Os meus remorsos, tristezas e medos
Todos meus sonhos pueris inacabados
E as razões de meu viver assim calado
Quero colher pra ti as flores da primavera
Chorar contigo todas as dores e quimeras
E contigo me encharcar na brisa das cascatas
E do soar de teus suspiros ouvir as serenatas
Ter todas as noites os teus olhos por estrelas
Carícias de tuas mãos e delírios ao recebê-las
E assim eu ser feliz como nunca fora dantes
E ver no por do sol as cores lindas do firmamento
Teu braço ainda junto ao meu, consolo e unguento
Ternura de quem ama mais que paixão de amante
DESENGANO
Eu nunca vi no olhar tanta tristeza
E nem do desamar tanta aspereza
Pela dor que se explode na certeza
A mim jamais terás de volta a mesa
Bem sabes, não sou do tipo leviano
Ferida sangra, mas não aceita panos
Marcas de dores e cicatriz dos danos
Porém jamais o acobertar de enganos
No teu olhar vazio a dor por despedida
Teus planos revelados, máscaras caídas
Nuas estão, tuas mãos frias e fingidas
Terás por companheiro o teu remorso
Fotos rasgadas, brindes e outros troços
Mas jamais o meu amor fiel e devoto
ANJOS SEM ASAS
Desci a ladeira em velocidade para aproveitar a aceleração na serra que se aproximava. Foi quando o motor deu um grande urro com se o carro tivesse desengatado. Era mais ou menos quinze horas, eu, a mulher e três crianças em um carro quebrado na BR 101, entre Alagoinhas e Esplanada, duas cidades baianas. Desliguei o motor, tentei de novo, nada! Só aquele grande uivo que parecia um boi morrendo. Que situação, não existia ainda a rede para celular e eu também não tinha o carro assegurado. A cidade mais próxima ficava a uns vinte km, mas não havia como eu chamar um guincho. Não tinha como eu sair dali e deixar a esposa com as crianças naquele lugar deserto. Tentava pegar uma carona para nos levar ao povoado mais próximo, mas ninguém parava. Depois de mais de duas horas, já escurecendo, resolvemos que iríamos andando na beira da pista até o alto da serra para ver se víamos alguma coisa. Foi aí que parou uma carreta. Um cidadão moreno, rosto sisudo e voz meio rouca. E disse-me: "Você é louco, aqui é uma região de muitos assaltos". Expliquei a situação. Ele deu ré no caminhão pelo acostamento de cascalho e parou junto ao meu carro quebrado. Conferiu comigo o problema e disse: acho que é a bomba d'água. Pegou uma corda grande, amarrou o opala no caminhão e nos rebocou vagarosamente até a um posto de gasolina, a cerca de uns quinze km à frente. A esta altura as crianças estavam famintas e assustadas.
No posto o motorista da carreta me disse: põe a família para jantar enquanto tentamos dar um jeito no seu carro. Pegou suas ferramentas, abriu o motor do opala e retirou a bendita bomba d'água. Depois, desprendeu a carreta da boléia e disse-me: vamos à casa de um amigo meu que é dono de uma Alto Peças e ele nos venderá uma bomba nova. Isso já era mais de vinte horas. Entramos na cidade, tiramos o vendedor de sua casa e fomos à loja. Voltando ao posto, o caminhoneiro trocou a bomba d1água, mas não adiantou, o carro continuou pifado. Então ele disse: Já sei, é a corroa do comando de válvulas. Só que isto não se vende por aqui. Entramos novamente na boléia da carreta e fomos até a cidade de esplanada, a uns quarenta km onde ele chamou um mecânico que veio nos acompanhando em um buggy. Lá pelas vinte e duas horas, o mecânico deu o diagnóstico: é a corroa do comando de válvula. Eu tenho uma usada na oficina, mas só dá para trocar amanhã, pois vamos precisar de um torno para sacar a peça. O motorista então arranjou um local no posto para guardarmos o opala quebrado e foi com a boléia da carreta nos deixar numa pousada um pouco mais adiante. Chegando a pousada, lá pelas vinte e três horas, me dirigi ao cidadão para acertar os seus honorários, apreensivo em imaginar quanto seria tal custo. Foi aí que o cidadão me respondeu: "Quando encontrares alguém em dificuldades ajude-o com a mesma abnegação que eu te ajudei e me sentirei pago". Sem mais delonga se despediu, engatou a carreta na boléia e foi embora. No outro dia, o opala foi consertado seguimos nossa viagem. Foi assim que eu descobri que os anjos não têm asas.
AMIZADE
Eu queria fazer como faz o passarinho
Saber de cada flor colher o carinho
Pra dizer ao amigo: não estás sozinho
Conte comigo nas agruras do caminho
Queria eu ter as palavras de conforto
O peito aberto pra amparar o sofrimento
Ter a esponja que apagasse o teu desgosto
Pra vê-lo sorrir em infantil desprendimento
Não desejo ser o teu amigo mais viçoso
Nem um molde para servir-te de exemplo
Nem uma foto em teu arquivo de saudades
Mas ser do teu sorrir o encher de gozo
Nos encontros do viver a qualquer tempo
E abraçar-te como a um amigo de verdade
CATARATA
Onde quer que fores, leva a alma tua
Para que lá frente, não queiras voltar
A razão é afoita, mas muito insegura
E sozinha algures, se põe a chorar
A razão e a alma rusgam às escondidas
Passam a noite toda em ponderação
Mas ao clarim do dia, estão decididas
Marcham atreladas num só coração
Mata em tédio a alma, quem não se assume
Quem não se decide entre viver ou sofrer
Em remorsos e dores o seu viver resume
Pois de seus rancores não pode esquecer
Lágrimas são feitas pra lavar os olhos
Pra tirar a trava que nos impede ver
Muda teu caminho, fuja dos abrolhos
Põe um sorriso novo neste teu viver
ESTRELA DA ALVA
Estrela da alva tão radiante e bela
Que nas madrugadas eu vivo a velar
Que loucura é amar-te de minha janela
Com uma distância infinda a nos separar
Te imagino linda e sem qualquer defeito
De sorriso aberto, pronta pra me amar
Nunca me ocorre que em seu sacro peito
Uma paixão por outro já possa habitar
Quanto mais distante, maior a loucura
De sua alma algures, a outro entregar
Paixão desvairada que a razão não cura
Tudo é formosura em seu imaginar
Não tem medo o cego da noite escura
Nem de desafeto, quem vive a sonhar
Mas se ver de perto, todas as agruras
Verás que os defeitos compõem o amar
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza