Lista de Poemas
Farelos
Um sabor senil na boca,
Um olhar senecto nos olhos.
Sigo por sendas
Que meu próprio
Orgasmo inventou.
Corpo VS Essência
Sou igual ao outro
Que não é igual a mim.
Sou corpo quente,
Corpo que chora, que é e sente.
No mundo dos outros, avesso no coração,
Sou originário da mesma poeira,
Sou fruto da mesma bebedeira.
Somos o mesmo amido, meu amigo.
Não-Poema
Já não posso escrever poemas.
Não posso fazer rimas, com teu nome.
Desta vez, não fiz um poema —
Pois já sei: não posso rimar com teu nome.
Ainda se pode encontrar
Um sorriso nos meus lábios,
Agora menos hábeis.
Deixei uma frase —
Não para dizer o que senti,
Mas para dizer
Que teu olhar vale mais.
Já não posso, já não sei
Rimar com teu nome,
Nem remar no teu mar.
Meu país
Aqui, no meu país, homens não serão — julgados por juiz sem juízo.
Aqui, a censura é... censurada.
Aqui, no meu país, a mentira é barulhenta e a verdade, um eco preso na garganta.
Aqui, quem fala a verdade aprende a calar com medo.
Aqui, no meu país, a justiça trabalha de olhos vendados, mas enxerga o culpado.
Aqui, a esperança é livre e a liberdade, um a fabula.
Aqui, no meu país, o futuro é riqueza, o passado, um arquivo confidencial.
Aqui, no meu país, a bandeira é verde e amarela, o hino é cantado com dentes cerrados.
Aqui, o sonho é coletivo, mas o pesadelo... individual.
Aqui, no meu país, o povo não é soberano, mas não vive algemado.
SOL
Eu sou o que a solidão
Deixou de mim.
Dentro de mim,
Ouço os gritos de alguém que já não existe.
Sinto uma falta imensa
Do que nunca me foi permitido.
Falo com minhas lembranças — esquecida.
Dou voltas em círculos… e começo a cair.
05/11/1995
Mais do Mesmo
Lembra-se de um tempo distante,
Um Tempo Perdido mesmo.
De olhos abertos, vejo e sinto o tempo passar.
A vida faz curvas, a morte gargalha.
O amor foge pra Montanha Mágica.
De olhos abertos, obedeço à Ordem dos Templários.
Vejo a Sereníssima noite cair com seus braços longos — e me proteger.
À noite, eu era um Lobisomem Juvenil. Eu sei.
Fico de olho nessa mentira de amor (Cantiga de Amor).
O vento passa por mim e vai pro litoral.
O sol bate na janela do teu quarto, toca teu rosto:
É um novo dia — que já não é tão diferente.
É Mais do Mesmo.
De olhos abertos, vejo que o tempo está perdido.
Há tempos, como se não houvesse amanhã,
A perfeição bate à minha porta...
Vivendo nessa metrópole de Fábricas,
Palácios de plantas embaixo do aquário,
Ouvindo e vendo Música Urbana.
Por enquanto, O Mundo Anda Tão Complicado.
E do jeito que as coisas vão,
Parece necessário vender todas as almas dos nossos Índios num leilão.
Que país é este?
Senhor da guerra, olho pros seus Soldados agora.
Não é diferente — é Mais do Mesmo.
Eu sei: Angra dos Reis fica deste lado.
Do outro, os tambores da selva já começaram a rufar.
A cocaína não vai chegar.
Astronautas Perdidos no Espaço.
Geração refrigerante.
Daniel, na cova dos leões, grita: Ainda é cedo!
Maurício, Quase Sem Querer, encontra Andréa Doria.
Eduardo e Mônica ouvem Faroeste Caboclo e moram nas Sete Cidades.
De olhos abertos, assisto ao Teatro dos Vampiros.
Nas ruas, Pais e Filhos passeiam de mãos dadas.
Eles sabem o caminho dos barcos.
A nossa dança é o reggae.
Nosso sangue é combustível — é Petróleo do Futuro.
De olhos abertos e boca fechada,
Sei qual é o tema.
Não sei o Teorema.
A violência é tão fascinante,
E nossas vidas são tão normais...
Mas só por hoje, faremos um Dia Perfeito.
De trinta, ficaram Vinte e Nove.
São só Duas Tribos — e todos os índios foram mortos.
Será que fiquei esperando meu amor passar?
Depois do Começo,
O que vier vai começar a ser o fim.
E no fim das contas,
Ninguém sai vivo daqui.
Sessão Instável
Queira meu corpo com toda tua banda larga,
com a velocidade de quem anseia por download sem limites,
com a fome de quem navega por cada curva como se fosse código fonte.
Mas não me deseje
só pelo meu pacote de dados,
pelas imagens que envio e recebo.
E quando conexão falhar,
quando o sinal cair,
quando eu não carregar,
Permita que eu encerre a sessão.
Você e Eu.
Mas, não me queira
Só pelo meu sexo.
E quando eu não for suficiente
Deixe me ir embora.
Sândalo de Dandi
Inerte a observar seu rosto.
Como entender o tempo...
Percebê-lo em você.
Minutos depois são horas.
Eu, ali parado
Agradecendo a gentileza do tempo.
Foram poucos minutos
Para entender
Que você sempre foi a mesma
Mesmo entre meus desejos e atropelos.
Tiveras gentileza do tempo,
Calmo, sereno.
Minha vida cheia de tempestades.
Logo
Comecei a percorrer seu corpo.
Esse eu não conhecia
Levei horas para entender tua geografia.
Rascunho de uma noite.
Comentários (2)
Eu que agradeço, por ler.
Raimundo, seus escritos são lindos, toca. Obrigado por compartilhar!