Lista de Poemas
Meu corpo, minha regra
Desculpa por não ter permitido que viesses ao mundo.
Desculpa por não ter permitido que visses o sol,
Que sentisses o calor,
O vento, a paz e o amor.
Simplesmente porque julgava não estar preparada pra ser mãe.
Meu corpo, minha regra,
Pensei!
Mas tu não eras o meu corpo, eras uma vida.
Eu sei!
E é essa verdade que hoje
Pousa no meu peito
Como um silêncio que não se cala.
Tu não eras regra.
Não eras argumento.
Eras semente de infinito
Num ventre em tempestade.
Eu tinha medo.
Medo de falhar,
De não saber amar do jeito certo,
De te oferecer incertezas
Num mundo que já me parecia duro demais.
Eu tinha medo.
Medo de ser abrigo rachado,
De ser colo inseguro.
Talvez eu não estivesse pronta.
Talvez nunca esteja.
Mas isso não justifica
Eu terminar com a vida
Que existiu por um instante
No meu impiedoso ventre.
E entre o direito e o receio,
Entre a liberdade e a culpa,
Houve um silêncio
E foi nele que te perdi.
Não tive o teu choro,
Nem o teu primeiro sorriso,
Mas carrego a memória invisível
De quem passou por mim
Como uma estrela breve.
Não tive o teu nome,
Nem o teu primeiro passo,
Mas guardo a tua ausência
Como quem guarda uma fotografia
que nunca foi tirada.
Perdoa-me.
Se existe um lugar onde as almas descansam,
Que saibas que foste pensamento,
Foste dúvida,
Foste lágrima,
Foste amor antes do tempo.
E mesmo que o mundo nunca te conheça,
Houve um coração
Que te sentiu.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Carta para os meus filhos que ainda não nasceram.
Meus queridos futuros filhos,
Espero que estejam bem!
Escrevo-vos antes do vosso primeiro choro, antes dos vossos nomes ganharem som, antes mesmo de eu saber como serão os vossos olhos. Escrevo-vos do futuro que ainda não chegou, mas que já vive em mim como esperança.
Ainda não sei em que mundo vocês vão nascer. Não sei se será mais justo ou mais duro, mais humano ou mais apressado. Mas sei isto: quando chegarem, o mundo terá pelo menos um lugar seguro… o meu abraço.
Talvez eu não seja um pai perfeito. Vou errar, aprender devagar, repetir medos antigos e tentar ser melhor do que fui ontem. Mas prometo-vos uma coisa que não depende de perfeição: o meu amor será inteiro. Mesmo nos dias em que eu estiver cansado. Mesmo quando eu não souber a resposta. Mesmo quando a vida for difícil.
Quero que cresçam livres, mas responsáveis. Fortes, mas gentis. Que saibam que chorar não é fraqueza e amar não é perigo. Que nunca tenham vergonha das vossas raízes, da vossa história, da terra que vos formou, da vossa ancestralidade, da vossa negritude, da vossa africanidade. UBUNTU
Ensinar-vos-ei que dinheiro ajuda, mas caráter sustenta. Que sucesso sem paz é vazio. Que respeitar os outros começa por respeitar a si mesmo. E que família não é só sangue é presença, cuidado e verdade.
Se um dia eu não estiver perto, lembrem-se disto: tudo o que fiz foi tentando preparar-vos para o mundo, não esconder-vos dele. Se eu for duro, é por medo de vos ver frágeis. Se eu for silencioso, é porque também estou a aprender.
Vocês ainda não nasceram, mas já mudaram a minha vida. Já me fizeram querer ser mais homem, mais calmo, mais justo. Já me ensinaram que o amor pode existir antes da existência.
Quando finalmente chegarem, saibam: estavam esperados. Estavam sonhados. Estavam escritos no coração de alguém que vos amou primeiro.
Com todo o amor que existe antes do tempo,
Vosso pai.
Por: Sebastião Xirimbimbi
A Última Vez Que Te Vi
A última vez que te vi
não foi a última vez que senti amor,
mas aquele instante tinha uma luz
que nunca mais esqueci
um sentimento maior.
Estavas com um olhar cansado
e o corpo farto de lutar,
mas ainda assim havia ternura
no jeito de me olhar.
O tempo tinha deixado marcas
que nem o teu sorriso conseguia ocultar.
As mãos já não tinham a mesma força,
os passos eram mais lentos,
mas no teu peito morava a coragem de sempre.
De levantar mais um dia pelos teus
filhos e netos.
Havia uma dor silenciosa
que não precisava de nome,
uma batalha travada em segredo
entre o cansaço e o amor.
E mesmo assim…
quando me olhaste,
o mundo ficou leve.
Aquele olhar levou a dor de te ver partir lentamente.
Como se, naquele instante,
o amor tivesse sido maior que o medo,
maior que a despedida,
maior até que a própria morte.
O teu olhar… ah, mãe…
aquele olhar dizia tudo.
Não precisámos de palavras.
No silêncio,
ouvi o teu “vou amar-te para sempre”,
tão claro como um sussurro na alma,
tão aconchegante e quente
como o abraço de quem a gente ama.
Há sentimentos que não morrem,
apenas descansam no coração.
E o teu amor vive em mim todos os dias,
guiando-me,
segurando-me,
lembrando-me quem sou.
Amo-te, mãe…
até ao dia em que Deus permitir
que os nossos olhos se encontrem outra vez.
Até lá,
guardarei no peito
a memória da última vez que te vi.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Queridos futuros filhos
Queridos futuros filhos,
Quero que saibam que antes mesmo de conhecer os vossos rostos,
eu já vos amo.
Antes mesmo de saber os vossos nomes,
eu já vos chamo.
Que a vida vos receba com luz
e que Deus vos guarde mesmo
quando vocês não souberem o caminho.
Que cada um tenha em seu coração o nosso Senhor Jesus
e que Deus ilumine sempre o vosso caminho.
Respeitem todos, mas não tenham medo de ninguém.
Amem o próximo e a vocês também.
Sejam gentis,
mas aprendam a ser firmes e bravos quando for preciso.
O mundo vai falhar convosco algumas vezes;
nessas horas, escolham ser corretos,
mesmo que doa,
Sejam honestos mesmo que ninguém esteja a ver.
Vocês vão cair.
É normal, todo mundo cai.
Quando isso acontecer, levantem-se com dignidade.
Nunca troquem o vosso caráter
por atalhos fáceis ou vitórias vazias.
Ouçam mais do que falam.
O silêncio ensina.
E quando sentirem que é hora de falar,
falem com verdade
mesmo que a voz trema.
Não sigam a multidão só para não ficarem sós.
Sigam a consciência.
E nela guardem os vossos corações.
Ela vai ser a vossa companhia mais fiel.
E, se algum dia o caminho escurecer,
lembrem-se disto: vocês nasceram de um amor profundo.
É a ele que devem voltar.
É nele que sempre haverá casa.
Com todo o amor que carrego em mim,
antes, durante e depois de vocês.
Vosso futuro pai,
Sebastião Xirimbimbi
Nunca Imaginei Ser Intensamente Amável (NISIA)
Nunca imaginei que um olhar pudesse,
no silêncio, dizer tanto sobre mim.
Que o toque de tuas mãos acendesse um fogo manso, eterno, sem fim.
Já tive outros relacionamentos, mas nunca amei tanto alguém assim.
Nunca pensei que o amor me alcançasse
com tanta força, sem pedir permissão.
Que em teus braços a vida se tornasse
um refúgio terno, um lar, uma canção.
Que o teu olhar singelo encantaria o meu coração.
E hoje descubro, na tua presença,
que ser amado e amar
é mais do que sonhar;
é sentir que a alma encontra recompensa
no simples gesto de contigo estar.
Nunca imaginei, mas hoje confesso,
que o impossível se tornou real.
Pois amar-te e ser amado por ti é o começo de um paraíso em forma terrenal.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Justiça, trabalho e paz.
Mais Justiça, trabalho e paz.
Mais pão na mesa,
Mais liberdade no coração.
Para o povo, mais saúde e educação,
Mais água e energia
para iluminar a nação.
Que o sol brilhe igual sobre todos,
que a voz do pobre tenha chão.
Que a força do homem e da mulher
seja a base da construção.
Levanta-te, Angola querida,
terra de sangue, suor e paixão.
Do musseque à baía dourada,
ergue-se uma nova nação,
Uma nova geração.
Com livros nas mãos e fé no olhar,
seguimos firme na direção:
Da justiça, trabalho e paz;
nossa eterna revolução.
Que o pão seja fruto do amor,
e o saber, luz da razão.
Que o trabalho não seja dor,
mas ponte de união.
E que, quando o vento soprar,
leve ao mundo nossa canção:
um só povo, uma só nação,
que sonha em paz,
e planta o futuro com as mãos.
Por: Sebastião Xirimbimbi
O Povo carrega Cristo na cruz
Angola, terra de sol e promessa,
de rios largos e chão que canta,
mas o ouro negro virou tristeza,
e a fartura… apenas poucos iluminados têm a mesa.
A maioria só tem miséria,
Contentores de lixo viraram mesas.
Séculos de mãos acorrentadas,
trouxeram sonhos por metade;
da guerra ficou a poeira,
onde a paz busca verdade.
O petróleo brilha, mas cega,
a terra dorme, esquecida.
Quem colhe suor e esperança,
colhe mais luta que vida.
Há pão nas mesas dos poucos,
e fome nos olhos dos muitos.
A riqueza corre em silêncio,
pelos becos dos injustos.
Falta escola, falta caminho,
falta escutar o povo.
Há talento nas ruas,
mas o futuro vem lento e novo.
Angola não é pobre, não!
pobre é quem rouba o amanhã.
Rica é a terra, o coração,
a força que nunca se desfaz.
E um dia, do barro e da dor,
nascerá justiça e luz;
porque o povo, com amor,
carrega Cristo na cruz.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Quando Te Perdi
Perdi a esperança, e a vontade de caminhar.
Perdi a visão, a habilidade de enxergar
Perdi a audição, e capacidade de escutar
Perdi a fala, o desejo de conversar
Perder as palavras mais bonitas das poesias para ti escritas
Perdi tudo quando te perdi
Perdi o medo de sofrer, e celebrar
Perdi o medo de não sorrir, e chorar
Perdi o medo de perder, e ganhar
Perdi o medo de não ser amado, e amar
Perdi o medo de nada receber, e tudo entregar
Perdi o medo do fim, o fim é um novo começo perto de ti.
Por: Sebastião Xirimbimbi
MERGULHO
de ser como sou, igual a mim mesmo e diferente da multidão.
Quero mergulhar nas profundezas do oceano do meu íntimo
e encontrar o verdadeiro "Eu" que está algures dentro de mim escondido!
Quero mergulhar nos meus profundos pensamentos
e trazer pra fora a coragem e a força que tenho por dentro,
Quero mergulhar no olhar sincero do homem que vejo quando olho ao espelho,
e ouvir a criança que fui ontem dizer "é em ti que eu me espelho"
Quero mergulhar na tua água poluída de ódio
e purificá-la com amor revestido de hipoclorito de sódio
Quero mergulhar no meu coração profundo como o mar
e trazer à superfície o infinito amor que tenho pra dar.
Quero mergulhar a caneta no papel e escrever a mais pura verdade,
e falar abertamente do que sinto com extrema sinceridade
Quero mergulhar na beleza da aurora
Viver momentos felizes agora
e esquecer as tristezas de outrora
Não me preocupar com o futuro, e focar-me apenas no agora
Quero mergulhar no lindo pôr do sol a beira mar
E encontrar na brisa o perfeito lugar para descansar.
Por: Sebastiao Xirimbimbi
Pseudo relacionamento
Mas os corações partidos
Nada foi verdadeiro
Além das penetrações e dos gemidos
Que os nossos corpos amavam
Mas as nossas almas odiavam
As nossas carnes uniam-se
Enquanto os nossos espíritos distanciavam-se
Estávamos constantemente juntos
Mas com os cérebros distantes
Abraçávamo-nos muito
Com contactos insignificantes
Estávamos cheios um do outro
Mas vazios de nós mesmos
Vivemos bons momentos
Num relacionamento morto de sentimentos
Dávamo-nos beijos molhados com as bocas secas
Com os olhos abertos
Mas com uma visão cega
Éramos felizes
Só até ambos gozarmos
Deixamo-nos cicatrizes
Por falsamente nos relacionarmos.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Comentários (2)
A perda de pai e mãe é imensurável.
Muito bom poema