Biografia
CITAÇÃO
A tua poesia não é como escrevo;
há nela o enlevo de um verbo exposto,
a tua palavra me dá mais gosto
e sorvo do gosto dela na voz.
A poesia que tu és é suspensa
além do que se pensa beleza,
a poesia tua é correta e coesa
e tem uma certeza de tudo que crias,
- não é uma peça que shakespeare corrija
ou tinja Rembrandt de cores sombrias.
A tua poesia é mesmo matemática,
podendo ao relativo parecer causal,
e a química; toda inalterável mágica,
qual mistura fosse de concreta e irreal.
A poesia tua é essa voz que entoas
e dói, mais que doa, essa voz que mais ouço
e peço na prece bem junto a mim.
(Assim, parecido, soaria Sonata
a reger um coro de mil querubins.)
A poesia que tu és é o olhar que pelejo
e desejo na tela pôr no peito ou no ponto,
é a tão clara calma que em cada estrela conto
e no fim da noite, tonto, mando nos dedos um beijo.
A poesia que tu és possui longevidade,
resume a verdade se a busca é o belo.
Tua pele é bela, textura, poros e pêlos
- tê-los roçando é paz na insanidade.
A poesia tua está em toda boca
lançando, louca, nos lábios doce tirania,
onde a vida em mim principia
e a morte chega a parecer pouca.
A poesia tua está em todo gesto,
em cada contexto em teu movimento,
está presente se é prazer que testo
e não meço esforço em tornar mandamento.
(Meu mundo é o medo do que ele me guarda,
todavia, um segredo sem amor é nada-
assim, tua poesia velo, revejo e tento.)
A poesia tua é aurora e repleta
do que completa e aflora os sentidos,
a minha, é de ateu, que, anjo caído,
te espera de asas e janelas abertas.
A poesia tua é por si absoluta,
e de tal modo estranhamente vaga,
parece na métrica não haver conduta,
contudo, conduz, me aborda e embriaga
e inflama a luta entre chama e luz,
(sincera como a nudez do cristo na cruz),
e escura como a noite do anu jamais visto
-ou graúna - e cristo, nu, permanecera.)
A tua poesia é dezembro em primavera
confundindo se inverno é ou não benquisto.
A poesia que és é suficiente e se basta,
diria o poeta que ela nem mesmo se cabe,
é daquela paz que jamais fica ou se afasta,
a infinita quietude que a palavra não sabe.
A poesia que tu és convence-me de um deus,
da natureza divina que a tudo impele,
supondo-me imagem ou reflexo dele
és, de certo, além dos caprichos seus.
Sérgio Lemos
13.01.10
Poemas
13JANELA
Hoje a manhã voltou mais lenta,
palidamente lenta e arrastada,
curando algo da insônia sedenta,
levando a leveza da noite passada,
a tarde se espreguiça em seu relento,
exibe seu brilho por todo o asfalto,
rouba do suspiro um lamento alto.
No balanço da cadeira percebo desatento.
o sol queima o sereno do último luar,
os sonhos todos que este embalou,
pergunta o poema: "onde brotar?"
ciumento do encanto que o sol desvelou.
Na calma onde a varanda me esconde,
lá ao longe vejo um sol que se impõe,
seu dourado em mim é quando e onde,
é tudo a que a beleza não se opõe.
Foi só outro dia vindo questionar
qualquer vazio, e foi-se embora,
deixando,serena,a poesia brotar
na simplicidade do que se ignora.
Sérgio Lemos
15/01/90
JANELA II
Sérgio
20/07/91
Citação
CITAÇÃO
A tua poesia não é como escrevo;
há nela o enlevo de um verbo exposto,
a tua palavra me dá mais gosto
e sorvo do gosto dela na voz.
A poesia que tu és é suspensa
além do que se pensa beleza,
a poesia tua é correta e coesa
e tem uma certeza em tudo que crias,
- não é uma peça que shakespeare corrija
ou tinja Rembrandt de cores sombrias.
A tua poesia é mesmo matemática,
podendo ao relativo parecer causal,
e a química; toda inalterável mágica,
qual mistura fosse de concreta e irreal.
A poesia tua é essa voz que entoas
e dói, mais que doa, essa voz que mais ouço
e peço na prece bem junto a mim.
(Assim, parecido, soaria Sonata
a reger um coro de mil querubins.)
A poesia que tu és é o olhar que pelejo
e desejo na tela pôr no peito ou no ponto,
é a tão clara calma que em cada estrela conto
e no fim da noite, tonto, mando nos dedos um beijo.
A poesia que tu és possui longevidade,
resume a verdade se a busca é o belo.
Tua pele é bela, textura, poros e pêlos
- tê-los roçando é paz na insanidade.
A poesia tua está em toda boca
lançando, louca, nos lábios doce tirania,
onde a vida em mim principia
e a morte chega a parecer pouca.
A poesia tua está em todo gesto,
em cada contexto em teu movimento,
está presente se é prazer que testo
e não meço esforço em tornar mandamento.
(Meu mundo é o medo do que ele me guarda,
todavia, um segredo sem amor é nada-
assim, tua poesia velo, revejo e tento.)
A poesia tua é aurora e repleta
do que completa e aflora os sentidos,
a minha, é de ateu, que, anjo caído,
te espera de asas e janelas abertas.
A poesia tua é por si absoluta,
e de tal modo estranhamente vaga,
parece na métrica não haver conduta,
contudo, conduz, me aborda e embriaga
e inflama a luta entre chama e luz,
(sincera como a nudez do cristo na cruz,
e escura como a noite do anu jamais visto
-ou graúna - e cristo, nu, permanecera.)
A tua poesia é dezembro em primavera
confundindo se inverno é ou não benquisto.
A poesia que és é suficiente e se basta,
diria o poeta que ela nem mesmo se cabe,
é daquela paz que jamais fica ou se afasta,
a infinita quietude que a palavra não sabe.
A poesia que tu és convence-me de um deus,
da natureza divina que a tudo impele,
supondo-me imagem ou reflexo dele
és, de certo, além dos caprichos seus.
Sérgio Lemos
13.01.10
ANOITECENTE
A noite sustenta teu sono
maior que o espaço em seu trono,
a noite é íntima dos medos,
liberta tuas quimeras
e vai, deixando a espera.
A noite é toda um segredo.
Desfila, ainda, estampada
uma lua carente ou minguada,
o luar triste a quem procura.
A lua conforta indecisas
almas poentes e poetisas.
É o olhar da noite escura.
Um hálito frio saboreia
o suor do amor sobre a areia.
É o vento que embala o oceano,
e um lamento que havia
alheio a toda agonia,
faz-se descanso nosso, profano.
A noite é inteira expressão,
são atalhos que esconderão
o mistério do que ela prega.
um vôo e um céu enevoado,
o tempo eterno estagnado,
a dor de algo que o peito nega.
Assim é que a noite existe;
um leito para olhos tristes,
ou um açoite que invento,
o despertar insinuante,
um contemplar nunca bastante
do nosso próprio firmamento.
Sérgio
março,
1995.
ALTARES
Trazias, luzeira, ah, que aquarela!
no fim do olhar um amor, que zelo!
o sol na queda dos cabelos
banha-te em graça , oh! Donzela.
Se me abres o sorriso
que dourado esse cobre-te a face!
Iracema, qual dos meus paraísos
haveria, e onde, se me faltasses?
Vigia essa busca incerta
e cuida-me em teus altares,
e se, Iracema, por mim chamares
já hei de ser em tua boca aberta.
Quisera, e sempre, soubesses,
tuas dores e amores também senti,
e sonho-me jardim onde floresces
em aromas de flores que não colhi.
Dá-me o colo - alento que anima,
e teus segredos e tua voz e asas,
fiz-me até n'alma tuas casas,
Iracema, que doce vida ensinas!
Sérgio Lemos
08.11.95
INSÔNIA DE ATEU II
ou ceder a tentação?
Gozar do erro sim,
da culpa, não.
Depois, tonto de oração,
prontinho pra redenção,
calculo outro pecado (Oba!)
menor que o perdão.
março, 2003.
SAUDADE DE PEDRA
SAUDADE DE PEDRA
(À mariposa, que ensina mais do que imagina.)
Escrevo que é para me desvelar,
desnudar nuances da minha sombra,
mostrando as palavras que sou a sangrar
verdades coaguladas de mim mesmo.
Escrevo para me tornar a argila dos teus sonhos,
a matéria etérea do teu corpo e o barro.
Escrevo as noites de pesadelos medonhos
que vestem de realidade os nossos medos.
escrevo o segredo de insondáveis minutos
tão diminutos se o tempo sabota o enredo.
Escrevo, e cada letra é uma trama
de tanta ausência contida e entrelinhas perdidas
nos textos que a vida ensaiou mas não leu.
Escrevo porque nas cartas és minha sorte
e no espelho é o teu rosto, não o meu.
Escrevo porque te ver sem poder dá asas,
e ter-te, tão perto, derrete-me o céu.
Ver-te do alto faz do vôo menos solitário!
Escrevo porque há momentos que se negam aos dias
em que não vejo o pôr-do-sol dourar nossos olhos,
e não mereço, em teus cabelos longos, meus dedos
em passeios de volta a mim mesmo.
Escrevo porque a palavra exala de meus poros
quente, latente, buscando os sonhos teus
e teu vôo triste em que suportas o peso do céu.
Escrevo porque o amanhã são os nossos filhos
brincando no quarto escuro dos teus olhares
- deserto onde o porvir evapora.
O futuro? Esse passou por nós partido em dois,
foi o amante e o algoz que de mim dispôs
e escrevo porque és o reflexo que me divide
e dá cor ao vermelho da minha dor.
Escrevo porque em meu cais só há saudade,
um pôr-do-sol de pedra e um covarde
a fazer ameaças de amor - a quem?
Se penso que amanheces; apenas neblina,
e quando tua dor, feito seta, me atinge,
Tu, Esfinge, nem te apagas, nem me iluminas,
e o leito onde me afogo é assim:
teu início arde e teima em ser meu fim.
E eu, que não caminhava descalço,
rodopio agora em vidros e brasas;
eu, que nem sequer acreditava em Eros,
agora eu mesmo pareço ter asas;
eu, que dançava triste as angústias de um bolero,
agora sussurro árias, enquanto espero.
Sérgio Lemos
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