Lista de Poemas

INSÔNIA DE ATEU

Nessa noite escura vou ousar,
vou soltar minha feiúra.
Depois rezar - que é pra brilhar,
ascender tudo que eu possa,
porque papai-do-céu gosta
e os anjos vão suingar.
Depois, me deito e esqueço
-e dormindo sou feliz!
pois finjo não ter preço
as tolices que já fiz.



Janeiro,2000

Se beber não dirija.
701

DIMINUTO


DIMINUTO

és mesmo sustenido,
eu, algo bemol.
Mas,
se meu olhos te tocam
eu todo
desafino.



Sérgio
658

Do que resta



DO QUE RESTA


Tenho agora dois corações,
um para calar os sentidos,
outro que lembra canções,
um que aguarda a primavera,
outro para lembrar o que era.
Um que é somente espera,
um que pulsa solidão.
Tenho agora dois corações,
bem melhor que não tivera,
um é filho da saudade,
o outro, a tudo supera.
Um é castelo, desabitado e sombrio,
outro é correnteza que perdeu o rio.
Um, é pura fé e oração,
o outro é ateu sem direção.
Um é madrugada silenciosa,
o outro, azul e amplidão.
Tenho em mim dois corações,
um espera do futuro,
o outro, só desilusões,
um é deserto e miragem,
o outro é partida sem bagagem,
um é lembrança e romantismo,
o outro é queda e abismo.





Um, que abraça o travesseiro,
o outro, suporta o desespero.
Um, é sede que não passa,
outro, é medo sem ameaça,
um é caminhar sem caminho,
o outro, embriaguez e vinho.
Um, que procura no escuro,
outro, que se debate no muro,
um que apaga a luz e sonha,
outro que se afoga na fronha.
São assim meus corações;
um se confessa e me denuncia,
o outro te nega e repudia,
e os dois dividem o mesmo peito.
Um sussurra e o outro berra,
um te vela e o outro enterra,
um é mergulho e o outro; leito.
um passeia em devaneio,
o outro, é triste lucidez,
um te busca nas nuvens,
o outro, na insensatez.


Sérgio Lemos

23-09-2006
639

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

                                                        CITAÇÃO

A tua poesia não é como escrevo;

há nela o enlevo de um verbo exposto,

a tua palavra me dá mais gosto

e sorvo do gosto dela na voz.

A poesia que tu és é suspensa

além do que se pensa beleza,

a poesia tua é correta e coesa

e tem uma certeza de tudo que crias,

- não é uma peça que shakespeare corrija

ou tinja Rembrandt de cores sombrias.

A tua poesia é mesmo matemática,

podendo ao relativo parecer causal,

e a química; toda inalterável mágica,

qual mistura fosse de concreta e irreal.

A poesia tua é essa voz que entoas

e dói, mais que doa, essa voz que mais ouço

e peço na prece bem junto a mim.

(Assim, parecido, soaria Sonata

a reger um coro de mil querubins.)

A poesia que tu és é o olhar que pelejo

e desejo na tela pôr no peito ou no ponto,

é a tão clara calma que em cada estrela conto

e no fim da noite, tonto, mando nos dedos um beijo.

A poesia que tu és possui longevidade,

resume a verdade se a busca é o belo.

Tua pele é bela, textura, poros e pêlos

- tê-los roçando é paz na insanidade.

A poesia tua está em toda boca

lançando, louca, nos lábios doce tirania,

onde a vida em mim principia

e a morte chega a parecer pouca.

A poesia tua está em todo gesto,

em cada contexto em teu movimento,

está presente se é prazer que testo

e não meço esforço em tornar mandamento.

(Meu mundo é o medo do que ele me guarda,

todavia, um segredo sem amor é nada-

assim, tua poesia velo, revejo e tento.)

A poesia tua é aurora e repleta

do que completa e aflora os sentidos,

a minha, é de ateu, que, anjo caído,

te espera de asas e janelas abertas.

A poesia tua é por si absoluta,

e de tal modo estranhamente vaga,

parece na métrica não haver conduta,

contudo, conduz, me aborda e embriaga

e inflama a luta entre chama e luz,

(sincera como a nudez do cristo na cruz),

e escura como a noite do anu jamais visto

-ou graúna - e cristo, nu, permanecera.)

A tua poesia é dezembro em primavera

confundindo se inverno é ou não benquisto.

A poesia que és é suficiente e se basta,

diria o poeta que ela nem mesmo se cabe,

é daquela paz que jamais fica ou se afasta,

a infinita quietude que a palavra não sabe.

A poesia que tu és convence-me de um deus,

da natureza divina que a tudo impele,

supondo-me imagem ou reflexo dele

és, de certo, além dos caprichos seus.

Sérgio Lemos

13.01.10