Sombra
Olhei e observei uma lembraça
O momento já não me faz falta
Em meu ser habita uma criança
Do além ouço uma voz alta
Da sombra que vejo, um alívio se torna
Quase que passa despercebida
Escrevendo, em minha alma reforma
Agora tenho de apreciar a sua ida
Não sei mais como sentir
Nas tristezas do mundo mergulhei
De noites escuras, fugi
A cada alma procurei
A cada pedaço, reparti
Em eterna escuridão meu ser permeia
A cada lampejo de luz me cubro de esperança
Sempre que as vejo meu coração anseia
Anseia por alguma mudança
Eu vi uma parte de mim que preferia não mostrar
Parece comigo, ainda que seja outro ser
Quero logo a mim encontrar
Quero a mim esquecer
A cada demônio que carrego
A cada dia que passa
A tudo me entrego
A tudo que minha alma faça
Cansada
De encontros tento me encontrar
De acasos começo a perder
Talvez uma hora, recomeçar
Ao que era, deixo de ser
Da maneira que vou, paro
Do jeito que penso, sinto
Para mim não está claro
Sigo aquilo que permuto
Em meu céu não há paraíso
Em minha morada o não santuário
Talvez um dia perca o juízo
Talvez me encontre em meu obituário
Ainda te preservo
E se você não for o que pensava?
E se eu estiver errada?
Devo reconhecer que não esperava
Não sei como te perder de novo
Devo perguntar o porquê
Para poder perceber
Um pouco de mim em você
Em você aos poucos sem querer
Não consigo te reconhecer
Agora a observo
Você se foi há muito tempo
Meu amor a ti preservo
Ainda conservo o que antes era
Não te ouço chamando
Não aguarde a minha espera
O tempo está acabando
Antes lhe perder que me perder
Espero que não se esqueça de mim
Me perco ao me esquecer
Nisso hei de por um fim
Acordar
No hinduísmo, renascer
No budismo, despertar
Para Nietzsche, deixar morrer
Para Aurora é cantar
Em corpo crístico procure entender
O que é em sua exatidão
Ser ou deixar de ser
Se perder na imensidão
Na astronave viajar
Em multidões se esconder
Da tristeza se embriagar
De si se esquecer
De diferentes modos, posso dizer
O que é esse processo?
Sempre volta a aparecer
Sempre cai em retrocesso
Talvez só caiba a intenção
Tudo o que basta é recomeçar
Abre-se uma nova dimensão
Procura-se um novo lar
Vago
Procuro profundamente
Procuro entender
Caminho intensamente
Quero a minha alma reacender
A vida me deixou ansiosa
Tudo aos poucos me entristece
Encarecidamente despretensiosa
Procuro entender o que acontece
Não olhei perto o suficiente
Na verdade estava dormindo
Meu estado era inconsciente
Da verdade estava fugindo
Só, estabeleço uma conexão comigo
Penso, paro e tento
Na ausência de um amigo
Sinto novamente o vento
Não fico nervosa
Nada há de restar, afinal
Há uma alma caridosa
E com ela me encontrarei no final
Morrer
Hei de morrer um dia
Talvez esse dia chegue em breve
Não quero que o sofrimento me persiga
Deixarei que a energia me leve
Hei de morrer um dia
Não conseguirei me entristecer
Talvez esteja lá para ver
Meu verdadeiro eu, conhecer
Me pergunto como seria
Tudo escuro, paz completa
Êxtase e uma luz veria
Tudo certo, coluna ereta
Hei de morrer um dia
Talvez velhinha estarei
Hei de sentir alegria?
Ora, pelo menos tentei
Enquanto penso em minha morte
Ora, penso como seria
Talvez com um pouco de sorte
Com vida, sairia
Ser que habita em mim
O ser que habita em mim
Me pega desprevinida a qualquer hora
Veio como um mal súbito ruim
E logo foi embora
Ele é meio desajeitado
Ainda que seja amigável
Meu corpo tomou emprestado
Minha alma tornou amável
Tomou conta de tudo por um instante
Me tirou o ar, também
Tive de tomar um calmante
Sua caminhada era um pouco além
Com um chacoalhão foi embora
Foi um aviso do Universo
E como vai sem demora
Partiu-se sem verso
Me lembrou de algo importante
Me lembrou e foi embora
A tudo que há em um instante
Estive no agora
Uma parte de mim
Sinto sua falta
Já não a sinto tão boa
Já não a sinto tão alta
Por um deslize te perdi
Em meio ao caos, chorei
Em tiras, reparti
E um pouco mais cortei
Não consigo mais falar,
Ainda que tanto amei
Não consigo mais cantar
Ainda que tanto tentei
A pior das mortes é a que vivo
Meio viva, viva-morta
Não sei mais se consigo
Ainda te espero na porta
2018
Pensei que não voltaria
Depois de tanto problema que causou
Ao citar Ustra, ria
Nosso país deslizou
Procurando os direitos do Brasil
Olhava para o céu amedrontado
Em seu estado mais pueril
Enquanto um ria o outro, calado
Recentemente jogaram os pontos
Seu envolvimento estava notável
Marielle entre os mortos
Seu crime, justificável
Indígenas mortos, florestas devastadas
Estavam cegos o tempo inteiro
Conservando sangue de tribos destroçadas
Tudo o que importa é dinheiro