As ondas de possibilidade começam ao anoitecer
Aos poucos entendi
Aos vestígios que senti
Elas voltaram a aparecer
A dança espiral
Formou-se transcedental
Ao sol, à lua, aos céus
A serpente
Que começa na gente
Tentou aparecer
Em lua crescente
Com um som aparente
Conseguimos a deter
Enquanto aos deuses começamos a chamar
Voltamos a cantar
A música que ouvimos
Ancestrais tiveram coragem
De estabelecer essa viagem
Que inconscientemente sentimos
Caverna
Sair da caverna
Faz-se mais difícil do que parece
Em um mundo cercado por sombras
Demasiado faz-se o sofrer
O manto de ilusões nos cobre por inteiro
A vida torna-se escura
Tudo se torna perecível
Apenas nos resta o saber
Na ausência a vida se torna evidente
Aqui tudo se torna igual
Tudo de essencial se faz equivalente
A tudo que não podemos ver
Das brechas que se abrem pouco se vê
Das vozes que se partem pouco se ouve
As luzes permanecem quase sempre apagadas
Há sempre como retroceder
Mas sempre que a luz retorna, faz morada
Despe-nos de tudo
Das nuvens foscas, dos olhares amedrontados, do som que nos carece muito
E tudo volta-se a aprender
E isso hei de reconhecer
Refúgio
Lá no fundo
No centro do universo
Próximo ao oceano ancestral
Onde o mundo fazia-se disperso
De tudo fez-se colossal
Ouviram a triste sinfonia
Da fome e da carência
As cores perderam harmonia
De cinzas fez-se sonolência
Caminharam em sintonia
Tiraram o véu da ilusão
Entregaram-se à harmonia
Desprenderam-se da razão
Pertenciam a solo estrangeiro
Aos poucos as fizeram caminhar
Em um lugar verdadeiro
As flores retornaram ao mar
Sofrer
É como um violino tocando incessantemente
Tudo que ressoa é eterno sofrer
É como se a vida se fizesse permanente
E ela não conseguisse mais viver
Encontro
A levei tão suavemente
A carreguei por toda uma dimensão
A entreguei encarecidamente
Novamente, para sua imensidão
Não me esqueci completamente
Não me esqueci de estar
Não me encontro mais dormente
Aos poucos reaprendi a ficar
Aos poucos comecei a ir
De novo aprendi a falar
Lentamente comecei a sentir
Agora volto a pensar
Alto, então
Agora, ao que precisar
Os caminhos não foram em vão
Estou de volta ao lar
Perder a razão
Em estrelas estou a divagar
As razões pelas quais passei se esvairam
Não olho muito a procurar
Novas questões surgiram
O estar é tudo que tenho
O amar é o que me resta
Dos céus é de onde venho
Minha alma caminha com pressa
Penso e penso sem notar
Até às paredes estou a perguntar
Querendo ir e estar
E me contentar ao que restar
Caminho sem saber por quê
Danço perdendo os passos
Daqui nada se vê
Tento redesenhar os traços
As coisas se perdem na escuridão
Não sei mais ao que temer
Criei barreiras na imensidão
Talvez um dia poderei ser
Talvez um dia me perca a razão
Talvez um dia volte a ver
Talvez um dia tenha permissão