Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
nas páginas de um caderno escondeste o teu inferno abre a porta do abismo abriga o frio do inverno
essa ilusão, tentação uma marca pálida no olhar a cálida obrigação sentes que não vai voltar
sem dor não há alivio sem morte não há vida
morte na primavera mentes de olhos fechados o começar da hera o elevar dos pecados
nas folhas rasgadas palavras soltas desregradas ideias frescas de verão mortas como a tua mão
mas se corres, socorre quem enterras no abismo sempre o mesmo ouve e vai, vai, e corre
sem dor não há alivio sem morte não há vida
morte na primavera mentes de olhos fechados o começar da ira o elevar dos pecados
09/09/2018
319
Aquário de Fogo
Uma cascata ao vento flamejante e brilhante. Uma cortina sem alento. Refulge ao longe, distante, rodopia o pó de diamante.
Nas costas finas de aço queda o peso do amor gelado incandescente, que dos olhos lhe lava a mente. Quente no peito, o coração indefeso.
Em primeiro sempre a razão mas mais oculta e incontida a mais delicada e fina, emoção.
Sempre de pé, inquebrável. Congelado até ao mais frio dos frios o zero absoluto.
Nas mãos glaciares e a alma nua caminha no gelo não apaga a chama.
Naquele cabelo cascata de fogo e lucidez nos olhos a limpidez honesta e pura quase inocente quase crente. 06/09/2018
394
Unhas de Amêndoa Monofónica
Entendo uma coisa,tenho gosto por unhas formadas em amêndoas.
Doas um olhar mole e mal-disposto posto em pose de ataque e arranho doce e dormente como um dedo dorido e perdido tão estranho.
Construo um castelo de papel meço os olhos e as bocas e aí, te peço que estendas a mão mas sem dedo, não te dou o anel.
No fosso, se fosses embora, caía e as unhas amargas rasgariam. No fundo, no rio grosso de mel, ecoam as minhas amêndoas, monofónicas, caríssimas.
No curso do rio melifluindo, pasta ambar que se esqueceu do que é cantar e orar e depois tudo em carmim ardeu.
Nunca soube medir e um castelo de papel, colado e mal medido, não se tinha de pé por mais belo. Acabam-se-me as unhas e as amêndoas monofónicas.
Afogo-me no mel e engulo-o sorrindo é doce e leva-me sempre para onde não quero ir.
02/08/2018
317
NADA
Nos recantos remotos da noite, notas nadas em vazios vigilantes antes nada vias e, vá, admite tens nos olhos prazeres frustrantes.
Toca ecoa e treme, a corda. Acorda no escuro ofuscante. O breu viscoso e coruscante consome-te o peito transborda. A bordo de um navio vermelho, velho, veleja veloz sem vento. Atento o teu olhar, atento focado no brilho baço do mar sob o casco que o rasga lento abre as mãos e os braços és só tu, só tu no navio.
Salpicada de gotas encarnadas a tua cara apaga-se. O mar baço antes agora ilumina-se e o brilho traz à tona almas vazias, danadas que se elevam nos céus sem se moverem chapéus.
Esse sorriso na tua cara apagada sem luz, sem nada é verdadeiro. Acenas-lhes e então então mergulhas sem dizer nada. Nada. NADA. 23/07/2018
378
elogios vazios?
Sem tocar, nem cheirar, nem sentir. Só olhar, devagar, devagar. No peito o coração a rugir. Que fazes, que fazes? É errado, errado e tens tens de parar e continuar!
Mas mesmo que de leve, que me leve a crer que a fealdade não é a realidade apesar de poder não ser verdade.
Sorrio e rio obedeço como um rio ao leito e assim, leve, me deito e respiro fundo fundo. 21/07/2018
364
Aqui no antro da aberração
Quando foi, e quando fui, quando fomos e que foi, e dói. Olhaste e triste viste que não foi o que pediste. A chaga agora arde, moi, são grãos de areia, moídos e em pó.
Podias ter ido embora mas não soubeste ver ou quiseste e não sabes ver que era demasiado queer.
Vai, vai. Vai e não voltes.
Aqui no antro da aberração onde somos fruto de perdição não há lugar para mortes porque dela já nascemos e nela vivemos com cortes.
Entre vós e nós sem voz embaraçam-nos e fortes os baraços que nos enrolam nos pescoços rolam os olhos para trás nada os satisfaz.
Faz mais feridas. E mais, e mais, e mais cortes! A nossa pele é um labirinto de meandros e sortes azarentas e fedorentas recantos ocultos e segredos absolutos. 19/07/2018
410
838362
Sou um número porque não entendo sou um número porque não entendi que de número podia ir escrevendo um nome qualquer que não escolhi.
(Um número aleatório, sem signifcado algum! 3 é meio 8, 2 x 3, 6? Podia até ser número de prisão, mas não não é nada, mesmo nada. Não tem, não tem, não diz nada, nem conta nada! Não há profundidade, não há explicação foi ao calhas mesmo!)
Nomes são mera ilustração são naves de violenta navegação vigorosos, viajantes, virulentos lentos como lesmas, langonhentos velhos como queixumes do coração.
Ah, mas este número que aqui neste ecrã vos surge e impessoal depois também o remendei que escolhi que tem 3 letras de mim, sim depois só parece o que sim é spinxo representado na fé poesia digital poeta digital pseudónimo digital tal e qual e agora é o que é e não tem mal. 16/07/2018
432
óleos derramados
Nestas mãos enfezadas de unhas pintadas o cheiro a óleo enlouquece e adormece. Oleiro enlameado sem talento, levadas para o chão os perfumes, a voz emudece e o silêncio sagrado sangra em sossego.
Ensopados os tecidos e os pedaços, o perfume penetrante e pungente. Gente que não quer mais abraços braços que não querem mais gente.
A mente louca, alterada e inalados os fumos perfumados dos óleos. Sem sentimento nem desejo, derramados amados antes e agora arrumados para o chão, ensopados e vítreos.
15/07/2018
323
a queda no abismo piedoso
Se por cada ilusão tivesse um tostão. Tão vazia, uma prece, leve, soprada um vendaval de silêncio e solidão. Dão-me esperança sem me dar nada dores nas pernas de correr tanto.
Um rio também me acompanha, lento. A pasta leitosa borbulha no leito em que queimam colares coloridos doridos os músculos sem alento e é lá que, a sonhar, me deito.
Sonhos sem som marulhando mergulhados num pesadelo oculto, qualquer. E neles continuamos a correr. Corrente de veludos avermelhados molhados os pés do nosso sangue.
Iludo-me, e iludes-te, e iludimos. Uma multidão de olhos brilhantes e de dores vagas e distantes em estantes altas que trepamos e depois caímos.
Os olhos no céu onde o sol nos protege como um lençól e as costas para a terra dura na queda desamparada.
Não morremos. Na queda. Não morremos. Espera-nos um leito macio que nos abraça no frio e aí nos esquecemos.
A ilusão desvanesce nasce dela outra. Uma que permanece, Uma que aquece, Uma que cresce. "Está tudo bem" sussurra-nos, carinhosa, "Esquece." (Mas não esquecemos.)
Sabemos que estamos no mais fundo de todos os abismos, sabemos mas aí ficamos ricos nessa piedosa ilusão.