Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Um poeta não morre, Apenas imita a morte, Inspiração incrível do universo, Unindo-se a criação fazendo versos, Enquanto a vida em outra vida, O molda em rimas, Poesia eterna de lembranças.
414
Monólogo
A noite chega sorrateira, Humanidade sob lágrimas, Arrastando-me nesta solidão, Retalhos da minha existência, Neste solilóquio de contrastes.
Aproximo-me do espelho, Esta imagem em suas interjeições, Interpelando o ser do outro lado, Labirinto de encontro e desencontros, Marcado por emoções em segredo.
Cada expressão do meu rosto, Marcas do tempo em seus açoites, Diante de minha consciência; Envolta em gritos e calmaria, Estranhos deleites dos momentos vividos.
Mesmo com medo, Sigo entre as estações, Desafiando o compasso das horas, Neste eu seduzido em suas distrações, Personagem nos rastros do tempo.
600
Descobriram o Brasil?
Navegai naus portuguesas, Levai de volta seus nobres, Herança de reis pobres, A saquear o Brasil.
Navegai naus portuguesas, Levai os mercenários, Corruptores larápios, Filhos lusitanos bastardos, Nem de longe varonis.
Navegai naus portuguesas, Jogai nas águas os clérigos, Borrões maquiavélicos, Santos do pau oco, De santidade ensandecida.
Navegai naus portuguesas, Trazei de volta nossas riquezas, Devolvei nossas belezas, Que suas gentes corrompeu.
Navegai naus portuguesas, Levai de volta a corrupção, Que aflora e mata, Os brasileiros refém de quem?
Navegai naus portuguesas, Neste mar imaginário, Revelai o mandatário, Deste patriotismo as avessas.
Navegai naus portuguesas, Em suas águas afogai, Estes políticos bossais, Que nos assalta a dignidade.
512
Poema Dúbio
Tive fome, Não tinha o que comer, Tive sono sem ter onde dormir, Senti saudade da minha mãe, Mas ela se foi, Lembrei-me do meu pai, Que há muito não vejo, Perdi meu melhor amigo, Retornei para casa, Sabendo das panelas vazias, Desejei um abraço, Não encontrei que pudesse ofertá-lo, Não perdoei, Chorei por alguém, Fui indiferente, Incondizente, Perdi meu emprego, Duvidei de Deus, Não tive fé, Nem mesmo orei, Perdi tempo, Julguei, Fui desonesto, Indigesto, Hoje neste mundo, São tantas coisas, Que o poema sangraria, Teria pena, Cairia em prantos, Velaria teus mortos. Todos os dias morremos, Renascemos e sofremos Julgamos e matamos, Ressuscitamos, Diante de tantas coisas, Deixamos de perceber, Que a humanidade é uma só, Com todas as suas fragilidades, Esta natureza rebelde, Selvagem, De mãos abençoadas, Em faces monstruosas, Caudalosas em seus surtos, Um livros de páginas em branco, Tal qual nossa alma em seus arquétipos.
481
Ponte do exílio
Quem te pariu filhos infiéis, Quem são teus irmãos? A sua terra chora por ti, Onde seus ancestrais, Apaixonados em suas feridas, Prantearam seus filhos jogados ao vento.
Do alto mar, Ouvem-se os gritos das sombras, Em seus túmulos amadeirados, Banhados pelas lágrimas dos esquecidos.
Oh! pesada morte, Colham nos oceanos as flores da dor, Em seu perfume fétido de horrores, Sob agonia de gritos estridentes, Entre silêncio e suspiros, Enquanto os demônios humanos, Devoram corpos em suas insanidades.
Este ... Destino de dor e sofrimento, Tormentos de uma casta deflorada, Nas mentes nefastas de seus senhores.
Diga-me quem te pariu seres infiéis! Que matam seus filhos, Pela estranheza de suas mãos, Sujas de sangue e desamor, Desfilando riquezas amaldiçoadas, Entre sorrisos frios, Tal qual suas almas obscuras.
Das caravelas o luto, Frutos selvagens de corações empedernidos, Profecia de liberdades tolhidas, Entre os séculos de faces putrefatas.
483
Veneração
Dê-me teu beijo até o céu, O sentirei em teus lábios, Este amor celeste véu, A fazer de mim um astrolábio.
509
Idílio
Em teu amor me aninho Te amando deixo que me leve, Desejando que não seja breve O amor neste infindável caminho.
413
Gérmen
No átrio abscôndito do teu eu, A vida flui na beleza que te fere; Obras de tuas mãos consequentes, Deixando no coração a sentença.
Da hereditária morte os comensais, Compartilham entre si pensamentos; Enraízados em suas almas, Seguindo direções inconstantes.
Das lágrimas a predileção, Rasto de uma luta humana interior; Divagando entre o valor e a necessidade, Enquanto algo se perde pelo caminho.
Em algum lugar um gemido, Sem idade e nem pátria; Verdades silenciadas pelo medo, De alguma decência que se perdeu.
Pela ambição desmedida de um ser, Outro caminha em espinhos; Talvez uma existência se desfaça, Findando sonhos desconhecidos.
A realidade se molda velozmente, Trazendo em si humanos fantasmas; Colóquios das trevas e da luz, Sob olhares incrédulos.
As sementes são tantas, Variados campos fecundos; Cultores de várias nações, Entre a vida e a morte.
481
Sonhos
Todo mundo tem um sonho, Todo sonho tem um mundo, Mundo entre outros mundos, De vozes mudas ou surdas, De palavras vivas ou mortas, Esperando que se abra a porta, Revelando as emoções.
Todo sonho tem um ser, Ao menos deveria ter, Do coração ao querer, Um desejo que valha a pena; Da alma a cantilena, Em tudo não se perder.
711
Confabulações
Há quem diga o incondizente, Num trago amargo de si, Tropeçando sem rumo, Nas próprias pedras da vida. Há quem fira a língua na lâmina, Fio mortal de dois gumes do desatino, Falar cretino de vozes embotadas. Existem tolos que quebram diamantes, Ofuscado em seu próprio brilho, Estribilho de vícios caricatos, Sangrando o coração em seus torvelinhos. Há jovens velhos e velhos jovens, Doidivanas em seus baluartes de vidro, Fragmentando a pedra dos pensamentos, Costurando sonhos em frágeis retalhos. Há sábios e loucos em seus atalhos, Marcando passo no tempo, Seguindo o rastro das horas, Em suas marcações diminutas.