Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Amado amor complacente, Aos seus versos de olhares confessos, Entrego minh'alma confidente, Aprazível afeição de laços infinitos, Na finitude da beleza em poesia.
Amado amor condizente, Beija o tempo meu coração, Imitando meus lábios inquietos, Paixão da vida em burburinhos, Colhendo rosas e espinhos, Enquanto a verdade se aninha.
Amado amor transluzente, Aportai-me no cais da fidelidade, Fazei que lá eu permaneça, Olhando o pôr do sol, Deixando ir com ele a solidão, Revérbera ilusão do caos, Da ousadia de amar.
505
Singular
Os nós intrínsecos deste orbe, Lágrimas silenciosas em seus claustros, Embaraços do tempo, Aurora de uma desconhecida noite, Daquilo que não se viu, Não sentiu e se foi, No apressar das coisas da vida, Do tempo sem tempo. O céu nublou-se, Chegou o vento, Caiu a chuva, Igual a vida em seus paralelos, Insistindo que precisamos existir, Sem sermos escravos, Da própria liberdade que não temos, Calabouços do ócio, Frias armadilhas do prazer. Tantas palavras soltas, Tentando expressar o grito, Do amor que desconhecemos, Sufocado pela violência das mentes, Entorpecidas de si mesmas, Pela ilusão da vaidade, Sangrando suas vítimas, Nos enredos da estupidez.
399
No dia da minha morte...
No dia da minha morte,
Economize tuas pernas,
Se nada tens comigo,
Tu que nunca fostes meu amigo,
Que por vezes falaste mal de mim.
Guarde suas lágrimas,
Teus préstimos de falsidade,
Estes laços estranhos,
Cheios de serpentes nas mãos,
Veneno do desconhecido,
De quem se quer me apertou a mão.
Jamais diga que fui bom,
Não me faça esta maldade,
Não perca seu tempo,
Deixe que meu corpo siga em paz,
Ao último leito do meu silêncio, A esta amizade infinita, Desarraigada de aleivosias.
334
Catalepsia
Pálida ilusão do mundo, Este caos multifacetado, Covil de seres primitivos, Travestidos de humanos boçais, Gesticulando para morte, Do profundo abismo d'alma. O inferno paira nas mentes, Estado visível da histeria, Ócios do corpo em catalepsia, Putrefato odor dos hálitos, Serpenteando a boca dos defuntos, Deitados em seus caixões, Idílios dos mortos-vivos, Velando a si mesmos.
414
Renascimento
Naufraguei, Juro que pensei que fosse amor, Toda promessa de nossos momentos, Pensei que seu coração se unisse ao meu, Que tantas vezes me disse te amo, Com os olhos em lágrimas, Acariciando meu rosto com ternura. O tempo segue seu curso, Vou com ele apaixonadamente, Esquecendo de tudo, Apagando sua imagem em mim, Impressões de um engano, Da morte e da vida, Renascendo a cada combate, Agora sei quem sou, Dentro do amor de raízes profundas.
403
Murcha a flor...
Murcha a flor da humanidade, Pétalas caem silenciosas, Lágrimas de sangue vertidas, Horrores de uma guerra absurda, Obscuros gritos da desigualdade, Oriundos das massas encolhidas, Gritos ensurdecedores da liberdade. A fome exibe suas bocas vazias, Os túmulos, A dor da inocência; As ruas a decadência, Injustiças sem endereço, Honra ultrajada em malevolência, Aristocracia venenosa, Enfurecendo a plebe, De faces introvertidas, Embriagadas de medo, Juízos de razões ensandecidas. Murcha flor da humanidade, Sementes vazias em terra de ninguém, Ervas daninhas do preconceito, Escondida entre as pedras da falsidade, Classe de gentes do falso amor, Pútrida superioridade ignóbil, Dissimulada caridade da morte; Murcha a flor, Da humanidade.
385
Domínio
Este sol em seu olhar, Tanto brilho que me causa espanto, Não há solidão que dure, Diante desta face luzidia, Arrebatada de encantos. O seu corpo baila ao meu desejo, Âmago silente do meu amor, Inebriado pelo fogo do seu beijo, Que de tão doce me suaviza, Sussurrando a beleza da noite, Paixão poética em núpcias.
349
Afeto
De tanto querer, Esqueci de mim, Feito alma leve, Sem medo de sonhar, Livre como o vento, Soprando aonde quer. De tanto te amar, Me transformei em flor, Desabrochando todos os dias, Na primavera eterna, Infinito de nossas almas, Acesa chama que arde, Aquecendo o amor que nos anima. De tanto querer, abracei a sua jornada, Sua dor, alegria e esperança, Sem olhar para trás, Mirando somente a felicidade.
237
Purificação
A causa primeira que me germina, Neste corpo enamorado de si, Tão cheio de alento que chega a verter, Um rio de lágrimas dos olhos cegos, Desta alma suicida, Perdida no deserto do infortúnio, Igual um pássaro de asas quebradas, Sem saber se voltará a voar. Tantas dores de um destino, Espadas afiadas da derrota, Cortando lentamente o coração, Perverso suplício da solidão, Numa estrada repleta de espinhos, Onde sangrarei até purificar-me, Buscando o meu outro eu, Escondido no silêncio.
369
mortem
Não tenha medo, Desembainhe a espada, Revista-se de coragem, Lute contra estes monstros, Devoradores de almas, Ao longo dos séculos, Mostre onde está a sua honra, Rompa as barreiras da escuridão, Além da consciência do abstrato, Reverenciando o altar da luz, Bebendo no cálice da imortalidade, Enigmática flor da continuidade, A vida em seus paralelos, Segredo universal do infinito, Não tenha medo, A batalha será vencida, Ainda que não compreenda, A dor será sua liberdade, Fé absurda aos olhos dos loucos, Paralelo de mundos complexos, Visão suprema do inexplicável, Lúgubre passagem para eternidade.