O azar de ter nascido humano
Quando o sol deixa aparecer seus primeiros raios de luz, tenho a certeza que o senhor do branco agraciou-me com mais um dia de vida.
Os girassóis parecem sorrir com suas cores radiante amareladas. Continuo a regar pétala por pétala delicadamente com os feixes de luz atrapalhando um pouco da minha visão. De repente uma abelha pousa com suas perninhas frágeis sobre girassol. É a sentença! a natureza age de uma forma mecânica que não se da conta de sua existência.
A mortalha que buscava o amor onde não há
Diante da sacada da minha casa sobre as luzes dos postes da rua que dá acesso ao cemitério eu pude perceber o quão cruel foi a sua partida.Meu coração está emanando nuvens venusianas chovendo ácido sulfúrico. Posso vê-lo em pareidolia. — Apesar de tudo, ainda sinto,muito preso a você. Ouço o canto da rasga mortalha;visão turva e coração sangrando. — crisântemo!as flores ao desabrocharem derramam sangue sobre a terra infértil.
Nuvens venusianas
Quando a madrugada chega, sinto que me comunico com o mais íntimo de mim mesma, os feixes de luzes da lua que sobre o telhado desajustado refletem sobre o espelho que está localizado no lado esquerdo da minha cama. O mesmo espelho que reflete minh'alma, onde a luz e a escuridão conversam entre si. Ao lado do abajur está o meu cigarro—apenas um cigarro.Acendo pedindo aos astros para esquecê-la como quem implora mais uma chance para viver.Meu desalento é nítido . Meu coração está se rompendo,cada pedacinho é como um cristal que acabara de quebrar.
No entanto,ainda acreditava no amor —mas ah!quem se apaixonaria por uma meretriz? o fato é que o amor correspondido não ficou para todos os seres, somente aqueles escolhidos a dedo por Deus. Ainda assim, rogo, imploro e peço um pouco de compaixão a divindade —quero me sentir amada!Da minha cama eu sinto o frescor do vento tocando delicadamente sobre a minha pele, é um sinal de Deus.O telefone está tocando sobre a escrivaninha velha e de súbito dou um pulo da cama na esperança que fosse ela, entretanto, o amor decidiu da sua forma mais cruel dilacerar o meu coração que ainda insiste em bater.
Desgraçadamente estou apaixonada, recordando o tempo em que passamos juntas sobre esta mesma cama que estou escrevendo agora, a mesma cama que ficou o seu cheiro de perfume francês.
Nuvens venusianas derramem sobre mim uma intensa chuva rosada de amor. — Diana, tem compaixão pela tua devota, eu imploro!.Faço uma pequena oferenda para a deusa, fecho a janela do quarto e deito delicadamente sobre a cama com uma única certeza; ela vai voltar.
Da insignificância a salvação
Meu olfato aguçado me transportara para as minhas mais íntimas memórias. Na finitudo do meu espírito onde hábita o meu eu interior, a criança sagrada que há dentro de cada um de nós. O cheiro forte do incenso de mirra que pairava sobre o ar, as vela no candelabro que acabara de acender e o cigarro no cinzeiro. Sentia o vento tocar em minha pele, como quando uma parturiente acabara de ver o seu bebê pela primeira vez . As vezes Deus é generoso com um formiga, mas só as vezes. Sentado na beira da cama com seu pijama xadrez , fitava a chama das velas quase como um transe hipnótico, onde nada era mais importante que o caminho do iniciado até a tocha sagrada.
No entando, era umas 3 horas da madrugada. Olhando ávido a chamada das velas que mais pareciam estarem me observando, onde eu era o objeto e a as velas o sujeito. Não hesitei em apagá-las; Foi quando ao ouvir à sétima trombeta eu era a formiga, a frágil e insignificante formiga.
Ao me levantar da velha cama de madeira , aquela mesma cama de 10 anos que suportara meu corpo sobre ela, eu pensei : Qual será a benção ou a punição que Deus estara tramando em minha vida? — Ah, Deus não erra! Era tudo tão dramático como uma cena de novela mexicana ao qual eu decidi não ser o protagonista e deixar ao Deus dará. Minha sorte agora dependerá do diretor.
Quando horas depois, ao sentir o cheiro de mirra e as energias estarem diluidas sobre o ambiente, eu morri. A mesma morte de uma formiga ao qual julgam ser tão insignificante, uma criação de Deus, entretanto, sem compaixão alguma para com a pobre, frágil e inútil formiga.
Na minha ânsia para desfrutar o paraiso, eu vou de encontro com o que há de mais puro em mim, a criança interior . A mesma criança interior que a psicologia tanto fala. Sentí o êxtase do amor incondicional, o amor verdadeiro, o amor de Maria pelo seu filho diante da cruz. E eu então, formiga, senti por alguns instantes que fazia parte do universo.
Lírios brancos, útero e o espelho.
Mulher peixe, fizeste de minha vida
Um mar sem fim , não há quem não Ouça o seu cantar.
Em um súbito momento não há mais consciência, apenas mar, areia, alfazema.
A lua refletiu no espelho das ondas,
Ela veio para dançar com seus peixinhos no mar.
Deságua em uma dança frenética,
Útero sagrado peixe mulher.
Quando o estômago fala
Não dá mais para aguentar,
meu vômito anseia liberdade.
As gaiolas já estão vazias,
Os barcos sem passageiros ,
Os bancos da praça cavo.
O buraco não tem fim,
A queda é infinita ,
Não há luz dentro da escuridão.
Caindo, caindo, caindo.