VEJO NO TEU OLHAR...
Pelos cravos e hortênsias
Pelas borboletas a voar
Pelo som na melodia
Pelo vento a bocejar
Pela dor do sofrimento
Que vejo no teu olhar!
Pelas violetas e jasmins
Pelo vale a caminhar
Pelos pingos de chuva
Na janela a gotejar
Pelo sorriso e encanto
Que vejo no teu olhar!
Pelas estrelas desse céu
De brilho farto, ó luar!
Pelas plantas trepadeiras
No meu jardim a trançar
Pela vertente caindo.
Que vejo no teu olhar!
Pelos rios e cachoeiras
Que descem a escorregar
Pelo cofre de segredos
Que guardo para te dar
Pelo sentimento oculto
Que vejo no teu olhar!
Pela brisa perfumada
Pela noite a serenar
Pelas grutas estreitas
Que não me deixam passar
Pela certeza de tudo
Que vejo no teu olhar!
Por tudo isso que fomos
Por tudo que vou calar
Eu juro que minh’alma
A tua irá se juntar...
Trago comigo a saudade
Que vejo no teu olhar!
Peço não se aborreçam
Com tantas rimas – ar –
Ouçam os meus lamentos
No coração soluçar...
Peço pela piedade
Que vejo no teu olhar!
CLARA
Quando Clara no apogeu
Pôs-se do alto a imaginar...
Avistou uma estrela no céu
Avistou uma estrela no mar...
A fantasiar se esqueceu
Cobriu-se de luz solar...
Podia subir ao céu
Podia descer ao mar...
Nesse devaneio seu
Pôs-se do alto a cismar...
Ficava perto do céu
Ficava longe do mar...
Feito uma ave suspendeu
Em liberdade a planar...
Quis a estrela do céu
Quis a estrela do mar...
Nas asas criadas por Deus
Fez-se voo em pleno ar...
Sua alma seguiu ao céu
Seu corpo deitou-se ao mar...
VERSO E REVERSO
Debaixo da árvore do sol...
Vi meu sonho alvorecer
Como se faz um poema
Com asas de borboleta
Sobrevoando dois versos
Como se ter ou não ter?
Debaixo da árvore da noite...
Vi meu sonho se esconder
Como se faz uma estrela
Com um brilho prateado
Iluminando o luar...
Como se ver ou não ver?
Debaixo da árvore da vida...
Vi meu sonho renascer
Como se faz uma flor
Com pétalas, perfume e cor,
A irradiar tanta beleza...
Como sentir ou não sentir?
Debaixo da árvore do mundo...
Nem vi o sol que desponta
Nem vi a noite que dorme
Nem vi a vida que geme
vi o poema que grita
vi o luar que pranteia
vi o meu sonho que canta!
OLHOS DA ALMA
Fitaste-me com os olhos da alma
Para que eu compreendesse
O quanto é vã a existência
Que eu aprendesse...
A ler no diário dos sonhos
A seiva da prece!
Sorriste-me com os lábios divinos
Para que eu entendesse
O quanto é fugaz os prazeres
Que eu renascesse...
Nas luzes, no outono da vida,
Que eu nunca morresse!
Beijaste-me com os lábios e a alma
Em soturna aflição...
A despir teu espírito em véus
De contemplação...
Transformando em taça de amargura
O meu coração!
Abraçaste-me com laços que prendem
As ondas do mar...
Na carícia dessas mãos delicadas,
Quando vens me tocar...
Tu me vês, me sorris e me beijas nos sonhos,
Se desejo te amar!
DESCONSOLO D’ALMA
Os meus passos deslizavam mansamente
No espaço indefinido do horizonte...
Enquanto a bruma sacudia lentamente
Um sopro perfumoso em minha fronte
Eu adormecia os meus sonhos doirados
Sob os lençóis macios da ilusão...
Nem sequer vi-os dormir desventurados
Sobre o leito da minh’alma em solidão!
A vida aproximou-se dos meus dias
Pediu-me licença pra ancorar
A sua embarcação nas noites frias
Nas ondas refulgentes do luar...
Caíram silenciosas do meu rosto
Da face, o meu pranto a soluçar...
As lágrimas são pingentes de desgosto
As tuas mãos nas minhas escondem o mar!
Não sabes avaliar a minha dor
Nessa distante ausência a te esperar
Os meus olhos banhados de amor
Em conchas cristalinas a velejar...
São duas esmeraldas – dois rubis
Que trago preso em minha emoção
Essa saudade em brasa nunca diz
Se vai morrer de amor meu coração!
TEU CORAÇÃO
Esse teu coração...
É pra mim revelação
De algum mistério profundo
Enche-me de sensações
Estranhas recordações
São as tristezas do mundo!
Esse teu coração...
É pra mim a provação
Os desafios de mim...
Tentando me encontrar
Comigo mesma me achar
Princípio, meio e fim!
Esse teu coração...
É pra mim a explosão
Dos sentimentos carnais
Às vezes, misteriosa,
Outras lamuriosas
Quase sempre irreais!
Esse teu coração...
É pra mim a solução
De todos os meus problemas
Os meus conflitos internos
O meu instinto hodierno
Que trago nos meus poemas!
CRATERAS DE UM CRÂNIO
Amedrontou-me...
A sensação de abandono
E fez-se tarde a inerência
Coercível do meu sono
A brisa mansa com bordados
Cor-de-rosa de outono
Acariciava a lua morna
Tardia noite sem pomos!
Fez-se poente ressabiar
De alguma seiva d'aurora
Do orvalho nupcial fez-se
A noiva, angelical Senhora!
O manto cobria-lhe o rosto
Na face pueril que cora
A veste purpurina cintila ainda
Doce menina que chora!
Fez-se raiar de outro dia
Sol em brios de seda
Sombras tangiam os sonhos
Vertente que desemboca na foz
Deságua nos mares medonhos
Nas alucinações que eu sonho
Estreitas crateras de um crânio!
CONSTRUÇÃO
Fazer uma poesia
Não é apenas miragem
Não é pura fantasia
Apertar nas mãos geladas
Uma ostra vazia
E deixar nela brotar
O dom de saber fingir
E não somente rimar
Deveras em cada poesia!
Não é apenas um toque
De magia original
Ou um emparelhar
De tijolo ornamental
Que se coloca um telhado
Um teto quase irreal
Que se constrói uma casa
Com jardins e um quintal
Que se transforma em verso
Qualquer sentimento banal!
É preciso muito mais
Do que mera inspiração
É preciso muita arte
Ter nas veias a emoção
Construir ao mesmo tempo
O pecado e o perdão
Um palácio de mil sonhos
O amor e a paixão
E nunca ficar sozinho
Com medo da solidão
Saber desenhar os traços
Bem firmes do coração
E ter a vida inteira...
Pra fazer versos, rimar.
Recortar em mil pedaços
E dividir um a um
E seguir passo a passo
Dá um abraço e um beijo
Em cada verso que faço!