Vítor Cazumbá

Vítor Cazumbá

n. 0000-00-00, Bahia

Perfil
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O nascer do poeta

Lembro-me de outra infância

A infância que não está escrita nos livros

Essa infância coitada

Só possui uma imagem

Meninos à mesa e colheres cheias de remédios

Essa infância foi perseguida pelos nuances de seus dias


Havia cores verdes e azuis

Havia recomendações de pais e mães

Havia cores nas paredes


Verde


E um carro/menino/homem

Que dizia:


Vermelho!


Havia uma mesa que andava sozinha

E que escolhia a casa onde servia

Janela que às vezes para a rebeldia separatista do carro

Às vezes para o nada e a mesa fugitiva



Essa infância não está nos livros

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Poemas

7

Agosto para tudo

Agosto para comemorar as guerras

Mortes necessárias que ninguém mais liga


Agosto para os amores perdidos tristes e soltos

Agosto para os desgostos no horizonte

Tão cinza tão só

Desgosto para os agostos

Sempre


É agosto


Agosto para estragar versos tão bonitos

Agosto das redenções de anjos tortos que fazem sem saber

Não sabem gritar sublevar muito menos cuspir


Mas o faz

Cospe de lado meio que se contorcendo

Mas cospem

É preciso cuspir


O cuspe avisa em letreiros que estamos vivos!


Ainda podemos receber a eucaristia ao domingo

Além do salário nas terças


Vivos vivos para cantar músicas feias

Para esquecer dos que sabem


Ideias não morrem

Nem perfumes


Não sei

Mas faço

Cuspo


Não sei se entenderão

Ou será que minha musa é muda além de feia?


Te entrego meu cuspe

Faça bom proveito


207

Igualdade

Não quero começar o ano com o céu da mesma cor

Um laranja cairia bem


A normalidade e a modéstia assombram as casas

O velho clima de guerra nas ruas

Chuvas e mormaços alternados


Caridades e escolinhas com a sua moralidade


Não quero placas de não

Não quero tapinhas e talvez

Não quero barcos acenando navios longínquos


Já não se pode pensar no passado

Tem-se medo

Não há dia após às sete.

211

Para Ana

Quis amor de vento

Tu me pediu amor fumaça

E eu chorei quando teu vento cortou meus cabelos e pernas


Em teu sonho de menina

Fizeste do amor vapor

Gás rarefeito


Te esqueces que o amor é jaula de ternura

Morte e própria vivacidade prisioneira


Vai me matando...

243

Para Ela

Os sambas vão ecoando no rádio

Nas paredes o vento vem cobrar dívidas

Entra por debaixo das portas


Ai Ana comeste meu coração em tua antropofagia rosa!


Toma!

Vê se aceita uma perna!

210

O arrependimento de escrever cartas ( A Chico Buarque)

Tendo Deus como testemunha

E os homens como plateia

Te juro, Isabel

Nunca mais hei de te escrever cartas!


Não me importa que fugiu ao mar

Ou que dormiu no coreto com o rapaz da banda

Não me interessa que você sambe mais distante

Ou que o som de teus risos reverberem como outras transas sinfônicas


Quando te escrevi cartas

Ousou me responder com teu desdém

Agora te respondo recolhendo a mão amiga

E te entregando a passagem da vida com Pedro e o apito do trem

217

O som da minha terra

Como um homem de bem pode perder tudo em lances de momento?

Ontem mesmo trazia a nó o samba

a poesia

o olhar menino da morena


Passou o carro

Foi-se tudo

Já não tem mais samba

poesia

nem os olhos da morena menina


É que nesse mundo vão-se os anéis

e os dedos ficam a tomar conhaques baratos na esquina


Mundo...

Tristeza e prosa de todos os homens


Mas o Mundo não pode ser só isso

Só essa tristeza morna de cobertores


Minha terra não pode ser só salário magro e menino que chora

e faz doer meus ouvidos

Minha terra não pode ser só essa terra maltratada e seca

Minha terra nunca será um grande não!


Eu me lembro de minha terra

Ai como lembro de minha terra!


Cheia de poetas anônimos de roupas a voar


Minha terra será sempre a terra de um samba sem amanhã

Sem responsabilidade

Sem salários magros e luz morta


Minha terra não será tratados e acordos de gente feia

Esta terra deles nunca será minha terra


254

O nascer do poeta

Lembro-me de outra infância

A infância que não está escrita nos livros

Essa infância coitada

Só possui uma imagem

Meninos à mesa e colheres cheias de remédios

Essa infância foi perseguida pelos nuances de seus dias


Havia cores verdes e azuis

Havia recomendações de pais e mães

Havia cores nas paredes


Verde


E um carro/menino/homem

Que dizia:


Vermelho!


Havia uma mesa que andava sozinha

E que escolhia a casa onde servia

Janela que às vezes para a rebeldia separatista do carro

Às vezes para o nada e a mesa fugitiva



Essa infância não está nos livros

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