Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

1300–1300 · viveu 0 anos PT PT

Nuno Fernandes Torneol foi um trovador da Galiza medieval. A sua obra poética, em galego-português, insere-se na tradição da lírica galego-portuguesa, com um foco particular nas cantigas de amor. Os seus versos expressam a devoção e o sofrimento do eu-lírico perante a dama, com uma linguagem elaborada e um sentimento de distância e idealização característicos do género.

n. 1300 · m. 1300, Castrillo de las Piedras

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Aqui Vej'eu, Filha, o Voss'amigo

Aqui vej'eu, filha, o voss'amigo,
o por que vós baralhades migo,
       delgada.

Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
       delgada.

[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
       delgada.

O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
       delgada
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nuno Fernandes Torneol foi um trovador galego-português, ativo durante o século XIII, período de apogeu da lírica medieval galego-portuguesa. O seu nome, por vezes grafado como Nuno Fernandes de Taveiro ou de Távora, associa-o a uma linhagem nobre da região de Trás-os-Montes, embora a sua atividade principal tenha sido na Galiza. A sua obra é predominantemente composta por cantigas de amor.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Nuno Fernandes Torneol são escassas, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Sabe-se que pertencia à nobreza, o que lhe permitiu ter acesso a uma educação e a um ambiente cultural propício ao desenvolvimento da sua atividade poética. A formação absorvida advinha do contexto social e literário da época, com forte influência das cortes e da tradição trovadoresca.

Percurso literário

Nuno Fernandes Torneol destacou-se como um dos mais importantes trovadores da terceira geração da lírica galego-portuguesa. A sua produção poética é dedicada quase exclusivamente às cantigas de amor, um género que explora o sofrimento e a devoção do eu-lírico à sua dama. A sua obra é representada em vários cancioneiros medievais, como o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro Nacional de Colocci-Brancuti.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Nuno Fernandes Torneol é marcada pela perfeição formal e pela profundidade expressiva nas cantigas de amor. Os temas centrais são o amor cortês, a vassalagem amorosa, a beleza e as qualidades da dama, a dor de amor e a saudade. A linguagem é cuidada, com um vocabulário rico e uma sintaxe elaborada, mas sem cair no excesso. Caracteriza-se pela expressão do sofrimento causado pelo amor, pela idealização da figura feminina e pela necessidade de ocultar o nome da dama, um elemento comum nas cantigas de amor. O uso de metáforas e comparações é frequente para descrever a intensidade dos sentimentos. Um exemplo notável da sua obra é a cantiga "Muitas vezes me perguntou a senhor".

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Torneol viveu num período de transição e consolidação dos reinos ibéricos, mas a sua poesia reflete um universo mais fechado, centrado nos códigos da cortesia e do amor. Fez parte de um movimento literário que abrangeu a Galiza e Portugal, um espaço cultural unificado pela língua e pela tradição trovadoresca. A sua obra dialoga com outros trovadores contemporâneos e anteriores, participando na evolução da lírica de amor.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Nuno Fernandes Torneol. A sua ligação à nobreza sugere uma vida ligada à corte e aos eventos sociais da sua classe. As suas cantigas, contudo, revelam um profundo conhecimento das regras e dos sentimentos associados ao amor cortês.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Nuno Fernandes Torneol é reconhecido como um dos mestres da cantiga de amor na lírica galego-portuguesa. A sua obra foi preservada em importantes cancioneiros medievais, atestando a sua relevância e a sua recepção pela posteridade. É estudado como um exemplar notável da poesia trovadoresca.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Torneol foi influenciado pela tradição da poesia provençal e pela lírica desenvolvida pelos seus antecessores na Galiza e em Portugal. O seu legado reside na perfeição com que levou a cantiga de amor a um alto patamar de expressão, influenciando trovadores posteriores e contribuindo para a consolidação de um cânone poético em língua galego-portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nuno Fernandes Torneol tem sido objeto de estudo sob a perspetiva da teoria do amor cortês, da análise estilística e da sua representação da subjetividade medieval. A sua poesia é vista como um reflexo dos códigos sociais e afetivos da nobreza medieval.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso é a incerteza sobre a sua proveniência exata, com algumas teorias a ligá-lo a Trás-os-Montes e outras a diferentes regiões. A sua dedicação quase exclusiva a um único género lírico também pode ser considerada um traço distintivo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de Nuno Fernandes Torneol não são conhecidas. A sua memória perdura através das suas cantigas, preservadas em manuscritos medievais que continuam a ser objeto de estudo e admiração.

Poemas

22

Aqui Vej'eu, Filha, o Voss'amigo

Aqui vej'eu, filha, o voss'amigo,
o por que vós baralhades migo,
       delgada.

Aqui vejo, filha, o que amades,
o por que vós migo baralhades,
       delgada.

[O] por que vós baralhades migo;
quero-lh'eu bem, pois é voss'amigo,
       delgada.

O por que vós migo baralhades;
quero-lh'eu bem, poilo vós amades,
       delgada
753

Ora Vej'eu Que Me Nom Fará Bem

Ora vej'eu que me nom fará bem
a mia senhor, pois me mandou dizer
que me partisse de a bem querer.
Pero sei eu que lhe farei por en:
mentr'eu viver, sempre lhe bem querrei
e sempre a já "senhor" chamarei.

[...]
491

Que Coita Tamanha Hei a Sofrer

Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
       e pousarei sô lo avelanal.

Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
       e pousarei sô lo avelanal.

Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
       e pousarei sô lo avelanal.

Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
       e pousarei sô lo avelanal.

Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
       e pousarei sô lo avelanal.

Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
       e pousarei sô lo avelanal.
738

Ai Madr', o Meu Amigo Que Nom Vi

Ai madr', o meu amigo que nom vi
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
       madre, per bõa fé, leda m'and'eu.

E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
       madre, per bõa fé, leda m'and'eu.

Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
       madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
622

Levad', Amigo, Que Dormides As Manhanas Frias

Levad', amigo, que dormides as manhanas frias
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
       leda m'and'eu.

Levad', amigo que dormide'las frias manhanas
tôdalas aves do mundo d'amor cantavam:
       leda m'and'eu.

Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
       leda m'and'eu.

Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
       leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
       leda m'and'eu.

Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
       leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
       leda m'and'eu.

Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam;
       leda m'and'eu.
1 570

Pois Naci Nunca Vi Amor

Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
       que me mostr'aquel matador,
       ou que m'ampare del melhor.

Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
       que me mostr'aquel matador,
       ou que m'ampare del melhor!

Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
       que mi amostr'aquel matador,
       ou que mi ampare del melhor.

E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
       que mi amostr'aquel matador,
       ou que m'ampare del melhor.
524

Am'eu Tam Muito Mia Senhor

Am'eu tam muito mia senhor
que sol nom me sei conselhar!
E ela nom se quer nembrar
de mim... e moiro-me d'amor!
       E assi morrerei por quem
       nem quer meu mal, nem quer meu bem!

E quando lh 'eu quero dizer
o muito mal que mi amor faz,
sol nom lhe pesa, nem lhe praz,
nem quer em mim mentes meter.
       E assi morrerei por quem
       nem quer meu mal, nem quer meu bem!

Que ventura que me Deus deu:
que me fez amar tal molher
que meu serviço nom me quer!
E moir'e nom me tem por seu!
       E assi morrerei por quem
       nem quer meu mal, nem quer meu bem!

E veede que coita tal:
que eu já sempr'hei a servir
molher que mi o nom quer gracir,
nem mi o tem por bem, nem por mal!
       E assi morrerei por quem
       nem quer meu mal, nem quer meu bem!
731

Par Deus, Senhor, Em Gram Coita Serei

Par Deus, senhor, em gram coita serei
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir.

E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
       pois eu de vos os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir.

Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir?

E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir?
686

Ir-Vos Queredes, Mia Senhor

Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
       senhor fremosa, que farei?

E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
       senhor fremosa, que farei?

E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
       senhor fremosa, que farei?

Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
       senhor fremosa, que farei?
770

Que Bem Que M'eu Sei Encobrir

Que bem que m'eu sei encobrir
com mia coita e com meu mal!
Ca mi o nunca pod'hom'oir.
Mais que pouco que mi a mim val!
Ca nom quer'eu bem tal senhor
que se tenha por devedor
algũa vez de mi o gracir.

Pero faça como quiser,
ca sempre a eu servirei
e quanto a negar poder,
todavia negá-la-ei.
Ca eu por que hei a dizer
o por que m'hajam de saber
quam gram sandece comecei

e de que me nom há quitar
nulha cousa, se morte nom?
(pois Deus, que mi a fez muit'amar,
nom quer, nen'o meu coraçom)
Mais a Deus rogarei por en
que me dê cedo dela bem,
ou morte, se m'est'há durar.

E bem dev'eu ant'a querer
mia morte ca viver assi,
pois me nom quer Amor valer,
e a que eu sempre servi
me desama mais doutra rem.
Pero fui home de mal sem
porque, d'u ela é, saí!
591

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