Paio Gomes Charinho

Paio Gomes Charinho

1225–1295 · viveu 70 anos PT PT

Paio Gomes Charinho foi um influente trovador galego-português da Idade Média. Destacou-se pela sua habilidade poética, sendo autor de cantigas de amor e de amigo. A sua obra reflete a tradição lírica da época, explorando temas como o amor cortês e a saudade, enquadrando-se no contexto da poesia trovadoresca que floresceu na Península Ibérica.

n. 1225, Pontevedra · m. 1295, Cidade Rodrigo

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Vou-M'eu, Senhor, E Quero-Vos Leixar

Vou-m'eu, senhor, e quero-vos leixar
encomendad'este meu coraçom
- que fique vosc', e faredes razom,
senhor, se vos algũa vez nembrar;
ca el de vós nunca se partirá,
e de mi, senhor, por Deus, que será
poilo coraçom migo nom levar?

Poilo meu coraçom vosco ficar,
ai, mia senhor, pois que m'eu vou daqui,
nembre-vos sempre, [e] faredes i
gram mesura; ca nom sab'el amar
tam muit'outra rem come vós, senhor;
pois vosco fica a tam gram sabor,
nom o devedes a desemparar.

E praza-vos, pois vosco quer andar
meu coraçom e nunca se part[ir]
de vós, senhor, nem jamais alhur ir,
mais quer, senhor, sempre vosco morar,
ca nunca soub[e] amar outra rem;
e nembre-vos del, senhor, por gram bem
e gram mesura que vos Deus quis dar.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Paio Gomes Charinho foi um proeminente trovador da Galiza e do Reino de Portugal durante a Idade Média. A sua produção literária insere-se no corpus da lírica galego-portuguesa.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a sua infância e formação específica. No entanto, o seu percurso sugere uma educação compatível com a nobreza da época e um contacto com a tradição trovadoresca.

Percurso literário

Charinho é conhecido pela sua produção poética, composta maioritariamente por cantigas de amor e cantigas de amigo. A sua obra é representativa da lírica galego-portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Paio Gomes Charinho centra-se nos temas tradicionais da poesia trovadoresca, nomeadamente o amor cortês, expresso nas cantigas de amor, e a expressão da voz feminina em lamento ou saudade, nas cantigas de amigo. O seu estilo segue os cânones estéticos da época, com uma linguagem cuidada e um ritmo marcado, característico da métrica das cantigas medievais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu num período de intensa atividade trovadoresca na Península Ibérica, um fenómeno cultural que abrangeu as cortes de Portugal, Leão e Castela. A sua poesia insere-se neste movimento, contribuindo para a difusão de uma expressão lírica comum.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a sua vida pessoal são escassas. Sabe-se que teve alguma relevância social e que a sua produção literária o insere no contexto da nobreza com acesso à cultura letrada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O seu reconhecimento advém da sua inclusão nos cancioneiros medievais, que preservaram a sua obra para as gerações futuras. É estudado como um dos representantes importantes da poesia trovadoresca galego-portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Paio Gomes Charinho é um herdeiro da tradição lírica provençal e um dos formadores da tradição galego-portuguesa. A sua obra influenciou a poesia medieval subsequente e contribuiu para a formação de um acervo poético que viria a marcar a literatura em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As suas cantigas são analisadas sob a perspetiva da poética trovadoresca, explorando-se as convenções do amor cortês e a representação da voz feminina. A análise crítica foca-se na sua mestria formal e na expressividade lírica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo um trovador medieval, os aspetos menos conhecidos são numerosos. A sua figura é mais conhecida pela obra do que por detalhes biográficos específicos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da sua morte não são conhecidas. A sua memória perdura através das suas composições poéticas, preservadas nos cancioneiros.

Poemas

28

Vou-M'eu, Senhor, E Quero-Vos Leixar

Vou-m'eu, senhor, e quero-vos leixar
encomendad'este meu coraçom
- que fique vosc', e faredes razom,
senhor, se vos algũa vez nembrar;
ca el de vós nunca se partirá,
e de mi, senhor, por Deus, que será
poilo coraçom migo nom levar?

Poilo meu coraçom vosco ficar,
ai, mia senhor, pois que m'eu vou daqui,
nembre-vos sempre, [e] faredes i
gram mesura; ca nom sab'el amar
tam muit'outra rem come vós, senhor;
pois vosco fica a tam gram sabor,
nom o devedes a desemparar.

E praza-vos, pois vosco quer andar
meu coraçom e nunca se part[ir]
de vós, senhor, nem jamais alhur ir,
mais quer, senhor, sempre vosco morar,
ca nunca soub[e] amar outra rem;
e nembre-vos del, senhor, por gram bem
e gram mesura que vos Deus quis dar.
786

As Frores do Meu Amigo

As frores do meu amigo
briosas vam no navio,
       e vam-s[e] as frores
       daqui bem com meus amores,
       idas som as frores,
       daqui bem com [meus amores].

As frores do meu amado
briosas vam [ẽ]no barco,
       e vam-s[e] as frores
       daqui bem com meus amores,
       idas som as frores,
       daqui bem com [meus amores].

Briosas vam no navio
pera chegar ao ferido,
       e vam-s[e] as frores
       daqui bem com meus amores,
       idas som as frores,
       daqui bem com [meus amores].

Briosas vam ẽno barco
pera chegar ao fossado,
       e vam-s[e] as frores
       daqui bem com meus amores,
       idas som as frores,
       daqui bem com [meus amores].

Pera chegar ao ferido
servir mi, corpo velido,
       e vam-s[e] as frores
       daqui bem com meus amores,
       idas som as frores,
       daqui bem com [meus amores].

Pera chegar ao fossado
servir mi, corpo loado,
       e vam-s[e] as frores
       daqui bem com meus amores,
       idas som as frores,
       daqui bem com [meus amores].
880

Mia Filha, Nom Hei Eu Prazer

Mia filha, nom hei eu prazer
de que parecedes tam bem,
ca voss'amigo falar vem
convosc', e ven[ho]-vos dizer
       que nulha rem nom creades
       que vos diga - que sabiades,

filha, ca perderedes i,
e pesar-mi-á de coraçom;
e já Deus nunca mi perdom,
se menç', e digo-vos assi:
       que nulha rem nom creades
       que vos diga - que sabiades,

filha, ca perderedes i,
e vedes que vos averrá:
des quand'eu quiser, nom será;
[e] ora vos defend'aqui
       que nulha rem nom creades
       que vos diga - que sabiades,

filha, ca perderedes i
no voss', e demais pesa a mim.
624

Que Muitas Vezes Eu Cuido No Bem

Que muitas vezes eu cuido no bem
que meu amigo mi quer e no mal
que lhi por mi de muitas guisas vem!
Mais, quand'aquesto cuid', ar cuid'eu al:
       se mi quer bem, que lho quer'eu maior,
       e, se lhi vem mal, que é por senhor.

E, pois assi [é], que razom diria
por que nom sofra mal? Nom há razom;
e, u eu cuido que nom poderia
- tam gram bem mi quer -, cuido log'entom,
       se mi quer bem, que lho quer'eu maior,
       e, se lhi vem mal, que é por senhor.

E por tod'esto dev'el a sofrer
tod'aquel mal que lh'hoje vem por mi,
pero cuido que nom pode viver
- tam gram bem mi quer -, mais [cuido] log'i,
       se mi quer bem, que lho quer'eu maior,
       e, se lhi vem mal, que é por senhor.
573

Voss'amigo Que Vos Sempre Serviu

- Voss'amigo que vos sempre serviu,
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.

- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.

- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
756

Senhor, Sempr'os Olhos Meus

Senhor, sempr'os olhos meus
ham sabor de vos catar
e que os vossos pesar
nunca vejam; e, por Deus,
       nom vos pês e catarám
       vós, que a desejar ham

sempr'enquanto vivo for;
ca nunca podem dormir,
nem haver bem, senom ir
u vos vejam; e, senhor,
       nom vos pês e catarám
       vós, que a desejar ham

sempre, mia senhor; ca prez
nom é fazerde-lhes mal;
mais, por Deus, e nom por al,
que os vossos taes fez,
       nom vos pês e catarám
       vós, que a desejar ham.
650

Par Deus, Senhor, de Grado Queria

Par Deus, senhor, de grado queria
se Deus quisesse, de vós ũa rem:
que nom desejass'eu o vosso bem
como desej'a noit'e o dia,
por muit'afã que eu sofr'e sofri
por vós, senhor; e oimais des aqui
poss'entender que faç'i folia.

E pois nom quer a ventura mia
que vos doades do mal que mi avém
por vós, senhor, e maravilh'é-m'en
como nom moir'e morrer devia;
por en rog'a Deus que me valha i,
que sab'a coita que por vós sofr'i,
senom, mia morte mais me valria.
571

Disserom-M'hoj', Ai Amiga, Que Nom

Disserom-m'hoj', ai amiga, que nom
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
       o que do mar meu amigo sacou
       saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou

mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
       o que do mar meu amigo sacou,
       saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou

mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
       o que do mar meu amigo sacou
       saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
476

Dom Afonso Lopes de Baiam Quer

Dom Afonso Lopes de Baiam quer
fazer sa casa, se el pod'haver
madeira nova; e, se mi creer,
fará bom siso: tanto que houver
madeira, logo punh', ena cobrir,
o fundamento bem alt'; e guarir
pod'o lavor per i, se o fezer.

E, quand'el a madeira adusser,
guarde-a bem e faça-a jazer
em logar que nom chôvia, ca torcer-
s'-ia mui tost', e nom ar há mester;
e, se o lavor nom quer escarnir,
abra-lh'o fundament'alt'; e ferir,
e muito batê-lo, quanto poder.

E pois o fundamento aberto for
alt'e bem batudo, pode lavrar
em salvo sobr'el; e, pois s'acabar,
estará da madeira sem pavor;
e do que diz que a revolverá,
ant'esto faça, senom matar-s'-á,
ca est'é o começo do lavor.

E Dom Afonso pois há tal sabor
de fazer bõa casa, começar
a dev[e] assi; e des i folgar
e jazer quand'e quando mester for
descobri-la e cobri-la poderá
e revolvê-la, ca todo sofrerá
a madeir', e seerá-l[h]i en melhor.

E Dom Afonso tod'esto fará
que lh'eu conselho; se nom, perder-s'-á
esta casa per mao lavrador.
476

Ai Santiago, Padrom Sabido

Ai Santiago, padrom sabido,
vós mi adugades o meu amigo;
       sobre mar vem quem frores d'amor tem;
       mirarei, madre, as torres de Jeen.

Ai Santiago, padrom provado,
vós mi adugades o meu amado;
       sobre mar vem quem frores d'amor tem;
       mirarei, madre, as torres de Jeen.
658

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