Lista de Poemas

Cantiga de maldizer

Martim jogral, que defeita,
sempre convosco se deita
vossa mulher!

Vedes-me andar suspirando;
e vós deitado, gozando
vossa mulher!

Do meu mal não vos doeis;
morro eu e vós fodeis
vossa mulher!

Português antigo

Martim jograr, que gram cousa:
já sempre convosco pousa
       vossa molher!

Ve[e]des m'andar morrendo,
e vós jazedes fodendo
       vossa molher!

Do meu mal nom vos doedes,
e moir'eu, e vós fodedes
       vossa molher!
7 477

Amigas, Que Deus Vos Valha, Quando Veer Meu Amigo

Amigas, que Deus vos valha, quando veer meu amigo,
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
       ca muitas cousas diremos
       que ante vós nom diremos.

Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
       ca muitas cousas diremos
       que ante vós nom diremos.
781

Dona fea

Ai dona fea! Foste-vos queixar
Que vos nunca louv'en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!

Ai dona fea! Se Deus mi pardon!
E pois havedes tan gran coraçon
Que vos eu loe en esta razon,
Vos quero já loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero muito trobei;
Mais ora já en bom cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!"
1 749

Morr'o Meu Amigo D'amor

Morr'o meu amigo d'amor
e eu nom vo-lho creo bem;
e el mi diz logo por en
ca verrá morrer u eu for,
       e a mi praz de coraçom
       por veer se morre, se nom.

Enviou-m'el assi dizer:
que eu, por mesura de mim,
o leixasse morrer aqui,
e o veja quando morrer;
       e a mi praz de coraçom
       por veer se morre, se nom.

Mais nunca já crea molher
que por ela morrem assi,
ca nunca eu esse tal vi,
e el moira, se lhi prouguer,
       e a mi praz de coraçom
       por veer se morre, se nom.
581

Chus Mi Tarda, Mias Donas, Meu Amigo

Chus mi tarda, mias donas, meu amigo,
que el migo posera,
e crece-m'end'ũa coita tam fera
que nom hei o cor migo,
       e jurei já que, atá que o visse,
       que nunca rem dormisse.

Quand'el houv'a fazer a romaria,
pôs-m'um dia talhado
que veesse, [e] nom vem, mal pecado,
hoje se compr'o dia;
       e jurei já que, atá que o visse,
       que nunca rem dormisse.

Aquel dia que foi de mi partido
el mi jurou chorando
que verria, e pôs-mi praz'e quando;
já o praz'é saído;
       e jurei já que, atá que o visse,
       que nunca rem dormisse.
685

Per Boa Fé, Meu Amigo

Per boa fé, meu amigo,
mui bem sei eu que m'houvestes
grand'amor e estevestes
mui gram sazom bem comigo;
mais vede-lo que vos digo:
       já safou.

Os grandes nossos amores
que mi e vós sempr'houvemos,
nunca lhi cima fezemos,
coma Brancafrol e Flores;
mais tempo de jogadores
       já safou.

Já eu falei em folia
convosc'[e] em gram cordura
e em sem e em loucura,
quanto durava o dia,
mais est', ai dom J'am Garcia,
       já safou.

E dessa folia toda
       já safou.

Já safad'é pam de voda,
       já safou.
559

Fostes, Amig', Hoje Vencer

Fostes, amig', hoje vencer
na voda, em bafordar bem,
tôdolos outros e praz-m'en;
ar direi-vos outro prazer:
       a leva do parecer da voda,
       per bõa fé, eu mi a levo toda.

E, poilos vencedes assi,
nunca deviam a lançar
vosc', amigo, nem bafordar;
ar falemos logo de mi:
       a leva do parecer da voda,
       per bõa fé, eu mi a levo toda.

E muito mi praz do que sei
que vosso bom prez verdad'é,
meu amigo, e, per bõa fé,
outro gram prazer vos direi:
       a leva do parecer da voda,
       per bõa fé, eu mi a levo toda.

A tôdalas donas pesou
quando me virom sigo estar,
e punharom de s'afeitar,
mais praza-vos de como eu vou:
       a leva do parecer da voda
       per bõa fé, eu mi a levo toda.
593

Estas Donzelas Que Aqui Demandam

Estas donzelas que aqui demandam
os seus amigos que lhis façam bem,
querrei, amigas, saber ũa rem:
que [é] aquelo que lh'e[le]s demandam?
Ca um amigo que eu sempr'amei
pediu-mi [a] cinta e já lha er dei,
mais eles cuido que a[l] lhis demandam.

O meu seria perdudo conmigo
por sempr', amigas, se mi pediss'al;
mais pedir cinta nom é nulho mal,
e por aquesto nom se perdeu migo;
mais se m'el outra demanda fezesse,
Deus me cofonda, se lh'eu cinta desse,
e perder-s'ia já sempre [con]migo.

Maila donzela que muit'há servida
o seu amigo, esto lh'é mester:
dé-lhi sa cinta, se lhi dar quiser,
se entender que a muito há servida;
mais se x'el quer outro preito maior,
maldita seja quem lh'amiga for
e quem se del tever por [bem] servida.

E de tal preito nom sei end'eu rem;
mais, se o ela por amigo tem,
nom lhi trag'el lealdade comprida.
662

Cada Que Vem o Meu Amig'aqui

Cada que vem o meu amig'aqui
diz-m', ai amigas, que perd'o [seu] sem
por mi, e diz que morre por meu bem,
mais eu bem cuido que nom est assi:
       ca nunca lh'eu vejo morte prender
       nen'o ar vejo nunca ensandecer.

El chora muito e filha-s'a jurar
que é sandeu e quer-me fazer fiz
que por mi morr', e pois morrer nom quis,
mui bem sei eu que há ele vagar;
       ca nunca lh'eu vejo morte prender
       nen'o ar vejo nunca ensandecer.

Ora vejamos o que nos dirá
pois veer viv'e pois sandeu nom for;
ar direi-lh'eu: "Nom morrestes d'amor?"
Mais bem se quite de meu preito já:
       ca nunca lh'eu vejo morte prender
       nen'o ar vejo nunca ensandecer.

E jamais nunca mi fará creer
que por mi morre, ergo se morrer.
386

Fez Meu Amigo Gram Pesar a Mi

Fez meu amigo gram pesar a mi,
e, pero m'el fez tamanho pesar,
fezestes-me-lh', amigas, perdoar,
e chegou hoj'e dixi-lh'eu assi:
       "Viinde já, ca já vos perdoei,
       mais pero nunca vos já bem querrei".

Perdoei-lh'eu, mais nom já com sabor
que [eu] houvesse de lhi bem fazer,
e el quis hoj'os seus olhos m'erger
e dixi-lh'eu: "Olhos de traedor,
       viinde já, ca já vos perdoei,
       mais pero nunca vos já bem querrei".

Este perdom foi de guisa, de pram,
que jamais nunca mig'houvess'amor,
e nom ousava viir com pavor,
e dixi-lh'eu: "Ai cabeça de cam!,
       viinde já, ca já vos perdoei,
       mais pero nunca vos já bem querrei".
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Comentários (6)

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ghdfyeur
ghdfyeur

dddddddddddddddd

agostinho pires
agostinho pires

grande homem! . foi pena a junta de milhazes e câmara de Barcelos ter deixado destruir sua casa milenar

Beatriz
Beatriz

Demais ??

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Yvhivhvhocyy

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Identificação e contexto básico

João Garcia de Guilhade foi um trovador galego-português, figura proeminente da lírica medieval em língua galaico-portuguesa. Sua produção poética insere-se no contexto da Península Ibérica durante a Idade Média, um período marcado pela Reconquista e pela formação dos reinos ibéricos. A sua obra é um testemunho da cultura cortesã e da expressão sentimental que floresceu nas cortes reais e nos círculos da nobreza.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e a formação de João Garcia de Guilhade. Presume-se que, como outros trovadores da época, pertencesse à nobreza ou a um círculo próximo a ela, o que lhe permitiu ter acesso à educação e à cultura cortesã. A formação de um trovador incluía, para além da educação literária, o domínio da música e, possivelmente, de artes militares, essenciais para a vida na corte.

Percurso literário

O percurso literário de João Garcia de Guilhade situa-se entre a segunda metade do século XIII e o início do século XIV. É conhecido pela sua participação ativa na produção poética galego-portuguesa, integrando a tradição das cantigas líricas. As suas composições eram frequentemente apresentadas em cantigas de amigo, onde a voz poética é feminina, expressando saudades e lamentos amorosos, e cantigas de amor, onde se explora o sofrimento do trovador perante a dama inacessível. A sua obra encontra-se preservada em cancioneiros medievais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Garcia de Guilhade é composta por cantigas líricas, predominantemente de amor e de amigo. As suas cantigas de amigo são notáveis pela sua profundidade sentimental e pela capacidade de retratar a voz feminina com autenticidade, explorando temas como a saudade do amado, a natureza como confidente e os rituais sociais da época. Nas cantigas de amor, Guilhade demonstra um domínio das convenções da vassalagem amorosa, expressando o sofrimento e a devoção do trovador. O seu estilo caracteriza-se pela musicalidade, pelo uso de um vocabulário relativamente simples, mas expressivo, e pela melancolia que permeia muitas das suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Garcia de Guilhade viveu num período de transição e consolidação dos reinos ibéricos, onde a cultura trovadoresca desempenhava um papel importante na vida social e política das cortes. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada em grande parte da Península Ibérica, servindo como veículo para a comunicação e a expressão artística entre a nobreza. O contexto histórico da época, com as suas constantes guerras e a importância da honra e do amor cortês, reflete-se nas temáticas e nos sentimentos expressos nas suas cantigas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Garcia de Guilhade são escassas. Sabe-se que era um trovador ativo, o que sugere uma ligação com os círculos da corte e da nobreza. A sua obra, rica em sentimentos amorosos e lamentos, pode oferecer vislumbres sobre a sua sensibilidade e a sua visão das relações humanas, mas não permite inferências diretas sobre a sua biografia detalhada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Garcia de Guilhade assenta na sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, como o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro Colocci-Brancuti. A sua obra foi preservada e estudada por gerações de filólogos e críticos literários, que reconhecem o seu valor como um dos expoentes da poesia medieval ibérica. A sua contribuição para a diversidade e a riqueza da lírica galego-portuguesa é amplamente reconhecida.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Garcia de Guilhade foi influenciado pela tradição lírica provençal, que chegou à Península Ibérica através da influência da corte de Afonso X, o Sábio. Por sua vez, o seu legado reside na sua contribuição para o desenvolvimento da cantiga de amigo e de amor em língua galego-portuguesa, enriquecendo o repertório poético com a sua sensibilidade particular. A sua obra continua a ser estudada como um exemplo da expressão lírica medieval.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As cantigas de João Garcia de Guilhade são frequentemente analisadas sob a perspetiva da psicologia do amor cortês, da representação da mulher na Idade Média e da relação entre a poesia e a realidade social da época. A sua capacidade de evocar a voz feminina de forma credível nas cantigas de amigo tem sido objeto de particular interesse, levantando debates sobre a autoria feminina na poesia medieval.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre João Garcia de Guilhade é a sua possível ligação a outros trovadores e figuras da corte, como o rei D. Dinis, conhecido por ser um patrono das artes e da poesia. A preservação da sua obra em cancioneiros, muitas vezes com variações textuais, é um aspeto interessante do estudo da transmissão das obras literárias medievais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos concretos sobre as circunstâncias da morte de João Garcia de Guilhade. A sua memória perdura através da sua obra poética, preservada nos cancioneiros medievais, que continuam a ser a principal fonte de conhecimento sobre a sua vida e o seu legado literário.