João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

1250–1270 · viveu 20 anos PT PT

João Garcia de Guilhade foi um trovador medieval português, ativo na segunda metade do século XIII e início do XIV. Destacou-se na poesia lírica galego-portuguesa, principalmente nas cantigas de amigo e de amor. Sua obra reflete os costumes, os sentimentos e a visão do mundo da nobreza da época, com um estilo que mescla a tradição lírica provençal com a expressão de uma sensibilidade ibérica.

n. 1250, Milhazes, Barcelos, Braga, Portugal · m. 1270, Portugal

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Cantiga de maldizer

Martim jogral, que defeita,
sempre convosco se deita
vossa mulher!

Vedes-me andar suspirando;
e vós deitado, gozando
vossa mulher!

Do meu mal não vos doeis;
morro eu e vós fodeis
vossa mulher!

Português antigo

Martim jograr, que gram cousa:
já sempre convosco pousa
       vossa molher!

Ve[e]des m'andar morrendo,
e vós jazedes fodendo
       vossa molher!

Do meu mal nom vos doedes,
e moir'eu, e vós fodedes
       vossa molher!
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Biografia

Identificação e contexto básico

João Garcia de Guilhade foi um trovador galego-português, figura proeminente da lírica medieval em língua galaico-portuguesa. Sua produção poética insere-se no contexto da Península Ibérica durante a Idade Média, um período marcado pela Reconquista e pela formação dos reinos ibéricos. A sua obra é um testemunho da cultura cortesã e da expressão sentimental que floresceu nas cortes reais e nos círculos da nobreza.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e a formação de João Garcia de Guilhade. Presume-se que, como outros trovadores da época, pertencesse à nobreza ou a um círculo próximo a ela, o que lhe permitiu ter acesso à educação e à cultura cortesã. A formação de um trovador incluía, para além da educação literária, o domínio da música e, possivelmente, de artes militares, essenciais para a vida na corte.

Percurso literário

O percurso literário de João Garcia de Guilhade situa-se entre a segunda metade do século XIII e o início do século XIV. É conhecido pela sua participação ativa na produção poética galego-portuguesa, integrando a tradição das cantigas líricas. As suas composições eram frequentemente apresentadas em cantigas de amigo, onde a voz poética é feminina, expressando saudades e lamentos amorosos, e cantigas de amor, onde se explora o sofrimento do trovador perante a dama inacessível. A sua obra encontra-se preservada em cancioneiros medievais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Garcia de Guilhade é composta por cantigas líricas, predominantemente de amor e de amigo. As suas cantigas de amigo são notáveis pela sua profundidade sentimental e pela capacidade de retratar a voz feminina com autenticidade, explorando temas como a saudade do amado, a natureza como confidente e os rituais sociais da época. Nas cantigas de amor, Guilhade demonstra um domínio das convenções da vassalagem amorosa, expressando o sofrimento e a devoção do trovador. O seu estilo caracteriza-se pela musicalidade, pelo uso de um vocabulário relativamente simples, mas expressivo, e pela melancolia que permeia muitas das suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Garcia de Guilhade viveu num período de transição e consolidação dos reinos ibéricos, onde a cultura trovadoresca desempenhava um papel importante na vida social e política das cortes. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada em grande parte da Península Ibérica, servindo como veículo para a comunicação e a expressão artística entre a nobreza. O contexto histórico da época, com as suas constantes guerras e a importância da honra e do amor cortês, reflete-se nas temáticas e nos sentimentos expressos nas suas cantigas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Garcia de Guilhade são escassas. Sabe-se que era um trovador ativo, o que sugere uma ligação com os círculos da corte e da nobreza. A sua obra, rica em sentimentos amorosos e lamentos, pode oferecer vislumbres sobre a sua sensibilidade e a sua visão das relações humanas, mas não permite inferências diretas sobre a sua biografia detalhada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Garcia de Guilhade assenta na sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, como o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro Colocci-Brancuti. A sua obra foi preservada e estudada por gerações de filólogos e críticos literários, que reconhecem o seu valor como um dos expoentes da poesia medieval ibérica. A sua contribuição para a diversidade e a riqueza da lírica galego-portuguesa é amplamente reconhecida.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Garcia de Guilhade foi influenciado pela tradição lírica provençal, que chegou à Península Ibérica através da influência da corte de Afonso X, o Sábio. Por sua vez, o seu legado reside na sua contribuição para o desenvolvimento da cantiga de amigo e de amor em língua galego-portuguesa, enriquecendo o repertório poético com a sua sensibilidade particular. A sua obra continua a ser estudada como um exemplo da expressão lírica medieval.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As cantigas de João Garcia de Guilhade são frequentemente analisadas sob a perspetiva da psicologia do amor cortês, da representação da mulher na Idade Média e da relação entre a poesia e a realidade social da época. A sua capacidade de evocar a voz feminina de forma credível nas cantigas de amigo tem sido objeto de particular interesse, levantando debates sobre a autoria feminina na poesia medieval.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre João Garcia de Guilhade é a sua possível ligação a outros trovadores e figuras da corte, como o rei D. Dinis, conhecido por ser um patrono das artes e da poesia. A preservação da sua obra em cancioneiros, muitas vezes com variações textuais, é um aspeto interessante do estudo da transmissão das obras literárias medievais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos concretos sobre as circunstâncias da morte de João Garcia de Guilhade. A sua memória perdura através da sua obra poética, preservada nos cancioneiros medievais, que continuam a ser a principal fonte de conhecimento sobre a sua vida e o seu legado literário.

Poemas

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Que Muitos Me Preguntarám

Que muitos me preguntarám,
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.
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A Bõa Dona Por Que Eu Trobava

A bõa dona por que eu trobava,
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.

E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:

por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:

sandec'e morte, que busquei sempr'i,
e seu amor me deu quant'eu buscava!
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A Mia Senhor Já Lh'eu Muito Neguei

A mia senhor já lh'eu muito neguei
o mui gram mal que me por ela vem,
e o pesar, e nom baratei bem;
e des oimais já lho nom negarei:
       ante lhi quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.

Neguei-lho muit'e nunca lhi falar
ousei na coita que sofr'e no mal
por ela; e se me cedo nom val,
eu já oimais lho nom posso negar:
       ante lhe quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.

Eu lhe neguei sempre, per bõa fé,
a gram coita que por ela sofri;
e eu morrerei por en des aqui,
se lho negar, mais pois que assi é,
       ante lhe quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.
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Por Deus, Amigas, Que Será

Por Deus, amigas, que será,
pois [j]á o mundo nom é rem,
nem quer amig'a senhor bem?
E este mundo que é já?
Pois i amor nom há poder,
que presta seu bom parecer,
nem seu bom talh'a quen'o há?

Vedes por que o dig'assi:
porque nom há no mundo rei
que viss'o talho que eu hei
que xe nom morresse por mim;
siquer meus olhos verdes som,
e meu amig'agora nom
me viu, e passou per aqui.

Mais dona que amig'houver
des hoje mais (crea per Deus)
nom s'esforç'enos olhos seus,
ca des oimais nom lh'é mester:
ca já meus olhos viu alguém
e meu bom talh', e ora vem
e vai-se tanto que s'ir quer.

E, pois que nom há de valer
bom talho nem bom parecer,
parescamos já como quer.
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Deus! Como Se Forom Perder E Matar

Deus! Como se forom perder e matar
mui boas donzelas, quaes vos direi:
foi[-se] Dordia Gil e foi[-se] Guiomar,
que prenderom ordim. Mais se foss'eu rei
eu as mandaria por en[de] queimar
porque forom mund'e prez desemparar.

Nom metedes mentes em qual perdiçom
fezerom no mundo e se forom perder?!
Com'outras arlotas, vivem na raçom,
por muito de bem que poderom fazer.
Mais eu por alguém já mort'hei de prender,
que nom vej'e moiro por alguém veer.

Outra bõa dona que pelo reino há,
de bom prez e ric'e de bom parecer,
se mi a Deus amostra, gram bem mi fará,
ca nunca prazer verei sen'a veer.
Que farei, coitado? Moiro por alguém
que nom vej'e moiro por veer alguém.
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Videos

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Comentários (3)

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agostinho pires
agostinho pires

grande homem! . foi pena a junta de milhazes e câmara de Barcelos ter deixado destruir sua casa milenar

Beatriz
Beatriz

Demais ??

Ccccccccccccc
Ccccccccccccc

Yvhivhvhocyy