Lista de Poemas

Vi Eu Estar Noutro Dia

Vi eu estar noutro dia
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
       "Cada casa, favas lavam!"

Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
       "Cada casa, favas lavam!"

Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
       "Cada casa, favas lavam!"
402

Que Muitos Me Preguntarám

Que muitos me preguntarám,
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.

E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
       moir'eu, porque nom vej'aqui
       a dona que nom vej'aqui.
751

Senhor, Veedes-Me Morrer

- Senhor, veedes-me morrer
desejando o vosso bem,
e vós nom dades por en rem,
nem vos queredes en doer!
- Meu amig', enquant'eu viver,
       nunca vos eu farei amor
       per que faça o meu peior.

- Mia senhor, por Deus que vos fez,
que me nom leixedes assi
morrer, e vós faredes i
gram mesura, com mui bom prez!
- Direi-vo-lo, amig', outra vez:
       nunca vos eu farei amor
       per que faça o meu peior.

- Mia senhor, que Deus vos perdom!,
nembre-vos quant'afã levei
por vós! Ca por vós morrerei;
e forçad'esse coraçom!
- Meu amig', ar direi que nom:
       nunca vos eu farei amor
       per que faça o meu peior.
702

Queixei-M'eu Destes Olhos Meus

Queixei-m'eu destes olhos meus;
mais ora, se Deus mi perdom!,
quero-lhis bem de coraçom,
e des oimais quer'amar Deus;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

Sempre m'eu d'Amor queixarei,
ca sempre mi dele mal vem;
mais os meus olhos quer'eu bem,
e já sempre Deus amarei;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

E mui gram queixum'hei d'Amor,
ca sempre mi coita sol dar;
mais os meus olhos quer'amar,
e quer'amar Nostro Senhor;
       ca mi mostrou quem hoj'eu vi:
       ai! que parecer hoj'eu vi!

E se cedo nom vir quem vi,
cedo morrerei por quem vi.
694

Amigos, Nom Poss'eu Negar

Amigos, nom poss'eu negar
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
       os olhos verdes que eu vi
       me fazem ora andar assi.

Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
       os olhos verdes que eu vi
       me fazem ora andar assi.

Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
       os olhos verdes que eu vi
       me fazem ora andar assi.
873

U M'eu Parti D'u M'eu Parti

U m'eu parti d'u m'eu parti,
log'eu parti aquestes meus
olhos de veer e, par Deus,
quanto bem havia perdi,
ca meu bem tod'era 'm veer;
e mais vos ar quero dizer:
pero vejo, nunca ar vi.

Ca nom vej'eu, pero vej'eu:
quanto vej'eu nom mi val rem,
ca perdi o lume por en,
porque nom vej'a quem me deu
esta coita que hoj'eu hei,
que jamais nunca veerei,
se nom vir o parecer seu.

Ca já ceguei, quando ceguei;
de pram ceguei eu log'entom,
e já Deus nunca me perdom,
se bem vejo, nem se bem hei;
pero, se me Deus ajudar
e me cedo quiser tornar
u eu bem vi, bem veerei.
657

Se M'ora Deus Gram Bem Fazer Quisesse

Se m'ora Deus gram bem fazer quisesse,
nom m'havia mais de tant'a fazer:
leixar-m'aqui, u m'ora 'stou, viver;
e do seu bem nunca m'El outro desse!
Ca já sempr'eu veeria daqui
aquelas casas u mia senhor vi,
e cataria alá quant'eu quisesse.

Daqui vej'eu Barcelos e Faria,
e vej'as casas u já vi alguém,
per bõa fé, que me nunca fez bem,
vedes por quê: porque xe nom queria.
E pero sei que me matará Amor,
enquant'eu fosse daqui morador,
nunca eu já del morte temeria.

Par Deus Senhor, viçoso viveria
e em gram bem e em mui gram sabor!
Veê'las casas u vi mia senhor,
e catar alá... quant'eu cataria!
Mentr'eu daquesto houvess'o poder,
daquelas casas que vejo veer,
nunca en já os olhos partiria!

E esso pouco que hei de viver,
vivê-lo-ia a mui gram prazer,
ca mia senhor nunca mi o saberia.
625

Amigos, Quero-Vos Dizer

Amigos, quero-vos dizer
a mui gram coita 'm que me tem
ũa dona que quero bem,
e que me faz ensandecer;
e, catando pola veer,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu.

E já m'eu conselho nom sei,
ca já o meu adubad'é,
e sei mui bem, per bõa fé,
que já sempr'assi andarei:
catando se a veerei,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu.

E já eu nom posso chorar,
ca já chorand'ensandeci,
e faz-mi amor andar assi
como me veedes andar:
catando per cada logar,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu,
       assi and'eu, assi and'eu.

E já o nom posso negar:
alguém me faz assi andar.
701

A Bõa Dona Por Que Eu Trobava

A bõa dona por que eu trobava,
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.

E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:

por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:

sandec'e morte, que busquei sempr'i,
e seu amor me deu quant'eu buscava!
916

Quantos Ham Gram Coita D'amor

Quantos ham gram coita d'amor
eno mundo, qual hoj'eu hei,
querriam morrer, eu o sei,
e haveriam en sabor;
mais, mentr'eu vos vir, mia senhor,
       sempre m'eu querria viver
       e atender e atender.

Pero já nom posso guarir,
ca já cegam os olhos meus
por vós, e nom mi val i Deus
nem vós; mais, por vos nom mentir,
enquant'eu vos, mia senhor, vir,
       sempre m'eu querria viver
       e atender e atender.

E tenho que fazem mal sem,
quantos d'amor coitados som,
de querer sa morte, se nom
houverom nunca d'amor bem,
com'eu faç'; e, senhor, por en
       sempre m'eu querria viver
       e atender e atender.
801

Comentários (6)

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ghdfyeur
ghdfyeur

dddddddddddddddd

agostinho pires
agostinho pires

grande homem! . foi pena a junta de milhazes e câmara de Barcelos ter deixado destruir sua casa milenar

Beatriz
Beatriz

Demais ??

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Yvhivhvhocyy

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zxcvbnm,

Identificação e contexto básico

João Garcia de Guilhade foi um trovador galego-português, figura proeminente da lírica medieval em língua galaico-portuguesa. Sua produção poética insere-se no contexto da Península Ibérica durante a Idade Média, um período marcado pela Reconquista e pela formação dos reinos ibéricos. A sua obra é um testemunho da cultura cortesã e da expressão sentimental que floresceu nas cortes reais e nos círculos da nobreza.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e a formação de João Garcia de Guilhade. Presume-se que, como outros trovadores da época, pertencesse à nobreza ou a um círculo próximo a ela, o que lhe permitiu ter acesso à educação e à cultura cortesã. A formação de um trovador incluía, para além da educação literária, o domínio da música e, possivelmente, de artes militares, essenciais para a vida na corte.

Percurso literário

O percurso literário de João Garcia de Guilhade situa-se entre a segunda metade do século XIII e o início do século XIV. É conhecido pela sua participação ativa na produção poética galego-portuguesa, integrando a tradição das cantigas líricas. As suas composições eram frequentemente apresentadas em cantigas de amigo, onde a voz poética é feminina, expressando saudades e lamentos amorosos, e cantigas de amor, onde se explora o sofrimento do trovador perante a dama inacessível. A sua obra encontra-se preservada em cancioneiros medievais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Garcia de Guilhade é composta por cantigas líricas, predominantemente de amor e de amigo. As suas cantigas de amigo são notáveis pela sua profundidade sentimental e pela capacidade de retratar a voz feminina com autenticidade, explorando temas como a saudade do amado, a natureza como confidente e os rituais sociais da época. Nas cantigas de amor, Guilhade demonstra um domínio das convenções da vassalagem amorosa, expressando o sofrimento e a devoção do trovador. O seu estilo caracteriza-se pela musicalidade, pelo uso de um vocabulário relativamente simples, mas expressivo, e pela melancolia que permeia muitas das suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Garcia de Guilhade viveu num período de transição e consolidação dos reinos ibéricos, onde a cultura trovadoresca desempenhava um papel importante na vida social e política das cortes. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada em grande parte da Península Ibérica, servindo como veículo para a comunicação e a expressão artística entre a nobreza. O contexto histórico da época, com as suas constantes guerras e a importância da honra e do amor cortês, reflete-se nas temáticas e nos sentimentos expressos nas suas cantigas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Garcia de Guilhade são escassas. Sabe-se que era um trovador ativo, o que sugere uma ligação com os círculos da corte e da nobreza. A sua obra, rica em sentimentos amorosos e lamentos, pode oferecer vislumbres sobre a sua sensibilidade e a sua visão das relações humanas, mas não permite inferências diretas sobre a sua biografia detalhada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Garcia de Guilhade assenta na sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, como o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro Colocci-Brancuti. A sua obra foi preservada e estudada por gerações de filólogos e críticos literários, que reconhecem o seu valor como um dos expoentes da poesia medieval ibérica. A sua contribuição para a diversidade e a riqueza da lírica galego-portuguesa é amplamente reconhecida.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Garcia de Guilhade foi influenciado pela tradição lírica provençal, que chegou à Península Ibérica através da influência da corte de Afonso X, o Sábio. Por sua vez, o seu legado reside na sua contribuição para o desenvolvimento da cantiga de amigo e de amor em língua galego-portuguesa, enriquecendo o repertório poético com a sua sensibilidade particular. A sua obra continua a ser estudada como um exemplo da expressão lírica medieval.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As cantigas de João Garcia de Guilhade são frequentemente analisadas sob a perspetiva da psicologia do amor cortês, da representação da mulher na Idade Média e da relação entre a poesia e a realidade social da época. A sua capacidade de evocar a voz feminina de forma credível nas cantigas de amigo tem sido objeto de particular interesse, levantando debates sobre a autoria feminina na poesia medieval.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre João Garcia de Guilhade é a sua possível ligação a outros trovadores e figuras da corte, como o rei D. Dinis, conhecido por ser um patrono das artes e da poesia. A preservação da sua obra em cancioneiros, muitas vezes com variações textuais, é um aspeto interessante do estudo da transmissão das obras literárias medievais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos concretos sobre as circunstâncias da morte de João Garcia de Guilhade. A sua memória perdura através da sua obra poética, preservada nos cancioneiros medievais, que continuam a ser a principal fonte de conhecimento sobre a sua vida e o seu legado literário.