Lista de Poemas

A Mia Senhor Já Lh'eu Muito Neguei

A mia senhor já lh'eu muito neguei
o mui gram mal que me por ela vem,
e o pesar, e nom baratei bem;
e des oimais já lho nom negarei:
       ante lhi quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.

Neguei-lho muit'e nunca lhi falar
ousei na coita que sofr'e no mal
por ela; e se me cedo nom val,
eu já oimais lho nom posso negar:
       ante lhe quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.

Eu lhe neguei sempre, per bõa fé,
a gram coita que por ela sofri;
e eu morrerei por en des aqui,
se lho negar, mais pois que assi é,
       ante lhe quer'a mia senhor dizer
       o por que posso guarir ou morrer.
776

Gram Sazom Há Que Eu Morrera Já

Gram sazom há que eu morrera já
por mia senhor, desejando seu bem;
mais ar direi-vos o que me detém
que nom per moir', e direi-vo-lo já:
       falam-me dela, e ar vou-a veer,
       [e] já quant'esto me faz já viver.

E esta coita 'm que eu viv'assi,
nunca en parte soube mia senhor;
e vou vivend'a gram pesar d'amor,
e direi já por quanto viv'assi:
       falam-me dela, e ar vou-a veer,
       [e] já quanto esto me faz já viver.

Nom viv'eu já se per aquesto nom:
ouç'eu as gentes no seu bem falar,
e vem amor logo por me matar,
e nom guaresco, se per esto nom:
       falam-me dela, e ar vou-a veer,
       [e] já quant'esto me faz já viver.

E viverei, mentre puder viver;
ca pois por ela m'e[u] hei a morrer.
348

Deus! Como Se Forom Perder E Matar

Deus! Como se forom perder e matar
mui boas donzelas, quaes vos direi:
foi[-se] Dordia Gil e foi[-se] Guiomar,
que prenderom ordim. Mais se foss'eu rei
eu as mandaria por en[de] queimar
porque forom mund'e prez desemparar.

Nom metedes mentes em qual perdiçom
fezerom no mundo e se forom perder?!
Com'outras arlotas, vivem na raçom,
por muito de bem que poderom fazer.
Mais eu por alguém já mort'hei de prender,
que nom vej'e moiro por alguém veer.

Outra bõa dona que pelo reino há,
de bom prez e ric'e de bom parecer,
se mi a Deus amostra, gram bem mi fará,
ca nunca prazer verei sen'a veer.
Que farei, coitado? Moiro por alguém
que nom vej'e moiro por veer alguém.
521

Quer'eu, Amigas, o Mundo Loar

Quer'eu, amigas, o mundo loar
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
       aqueste mundo x'est a melhor rem
       das que Deus fez, a quem El i faz bem.

O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
       aqueste mundo x'est a melhor rem
       das que Deus fez, a quem El i faz bem.

Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
       aqueste mundo x'est a melhor rem
       das que Deus fez, a quem El i faz bem.

[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
571

Esso Mui Pouco Que Hoj'eu Falei

Esso mui pouco que hoj'eu falei
com mia senhor, gradeci-o a Deus,
e gram prazer virom os olhos meus!
Mais do que dixe gram pavor per hei;
       ca me tremi' assi o coraçom
       que nom sei se lho dixe [bem] se nom.

Tam gram sabor houv'eu de lhe dizer
a mui gram coita que sofr'e sofri
por ela! Mais tam mal dia naci,
se lho hoj'eu bem nom fiz entender!
       ca me tremi' assi o coraçom
       que nom sei se lho dixe [bem] se nom.

Ca nunca eu falei com mia senhor
senom mui pouc'hoj'; e direi-vos al:
nom sei se me lho dixe bem, se mal.
Mais do que dixe estou a gram pavor:
       ca me tremi' assi o coraçom
       que nom sei se lho dixe [bem] se nom.

E a quem muito trem'o coraçom,
nunca bem pod'acabar sa razom.
682

Cuidou-S'amor Que Logo Me Faria

Cuidou-s'Amor que logo me faria
per sa coita o sem que hei perder;
e pero nunca o pôdo fazer,
mais aprendeu outra sabedoria:
quer-me matar mui cedo por alguém,
e aquesto pod'el fazer mui bem,
ca mia senhor esto quer todavia.

E tem-s'Amor que demandei folia
em demandar o que nom poss'haver;
e aquesto nom poss'eu escolher,
ca logo m'eu en[d'] al escolheria:
escolheria, mentr'houvesse sem,
de nunca já morrer por nulha rem;
ca esta morte nom é jograria.

Ai! que de coita levei em Faria!
E vim aqui a Segóbia morrer!
Ca nom vej'i quem soía veer
meu pouc'e pouc'e per esso guaria.
Mais pois que já nom posso guarecer,
a por que moiro vos quero dizer:
d'i d'alguém éste filha: de Maria.

E o que sempre neguei em trobar,
ora o dix'! E pês a quem pesar,
pois que alguém acabou sa perfia.
399

Treides Todas, Ai Amigas, Comigo

Treides todas, ai amigas, comigo
veer um home muito namorado,
que aqui jaz cabo nós mal chagado,
e pero hoj'há muitas coitas sigo,
       nom quer morrer, por nom pesar a'lguém
       que lh'amor há, mais el muit'ama alguém.

Já x'ora el das chagas morreria,
se nom foss'o grand'amor verdadeiro.
Preçade sempr'amor de cavaleiro;
ca el, de pram, sobr'aquesto perfia:
       nom quer morrer, por nom pesar a'lguém
       que lh'amor há, mais el muit'ama alguém.

Lealmente ama Joam de Guilhade,
e de nós todas lhi seja loado
e Deus lhi dê, da por que o faz, grado,
ca el, de pram, com mui gram lealdade,
       nom quer morrer, por nom pesar a’lguém
       que lh'amor há, mais el muit'ama alguém.
422

Por Deus, Amigas, Que Será

Por Deus, amigas, que será,
pois [j]á o mundo nom é rem,
nem quer amig'a senhor bem?
E este mundo que é já?
Pois i amor nom há poder,
que presta seu bom parecer,
nem seu bom talh'a quen'o há?

Vedes por que o dig'assi:
porque nom há no mundo rei
que viss'o talho que eu hei
que xe nom morresse por mim;
siquer meus olhos verdes som,
e meu amig'agora nom
me viu, e passou per aqui.

Mais dona que amig'houver
des hoje mais (crea per Deus)
nom s'esforç'enos olhos seus,
ca des oimais nom lh'é mester:
ca já meus olhos viu alguém
e meu bom talh', e ora vem
e vai-se tanto que s'ir quer.

E, pois que nom há de valer
bom talho nem bom parecer,
parescamos já como quer.
944

Estes Meus Olhos Nunca Perderám

Estes meus olhos nunca perderám,
senhor, gram coita, mentr'eu vivo for;
e direi-vos, fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que ham:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

Guisado têm de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçom,
e estas coitas, senhor, mĩas som:
mais los meus olhos, por alguém veer,
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.

E nunca já poderei haver bem,
pois que Amor já nom quer nem quer Deus;
mais os cativos destes olhos meus
morrerám sempre por veer alguém:
       choram e cegam, quand'alguém nom veem,
       e ora cegam por alguém que veem.
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Par Deus, Amigas, Já Me Nom Quer Bem

Par Deus, amigas, já me nom quer bem
o meu amigo, pois ora ficou
onde m'eu vim e outra o mandou;
e direi-vos, amigas, ũa rem:
       se m'el quisesse como soía,
       já 'gora, amigas, migo seria.

E já cobrad[o] é seu coraçom,
pois el ficou, u lh'a mia cinta dei,
[.............................]
e, mias amigas, se Deus mi perdom,
       se m'el quisesse como soía,
       já 'gora, amigas, migo seria.

Fez-m'el chorar muito dos olhos meus
com gram pesar que m'hoje fez prender:
quant'eu dixi, outro m'ouvira dizer,
ai mias amigas, se mi valha Deus;
       se m'el quisesse como soía,
       já 'gora, amigas, migo seria.
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Comentários (6)

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ghdfyeur
ghdfyeur

dddddddddddddddd

agostinho pires
agostinho pires

grande homem! . foi pena a junta de milhazes e câmara de Barcelos ter deixado destruir sua casa milenar

Beatriz
Beatriz

Demais ??

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Yvhivhvhocyy

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zxcvbnm,

Identificação e contexto básico

João Garcia de Guilhade foi um trovador galego-português, figura proeminente da lírica medieval em língua galaico-portuguesa. Sua produção poética insere-se no contexto da Península Ibérica durante a Idade Média, um período marcado pela Reconquista e pela formação dos reinos ibéricos. A sua obra é um testemunho da cultura cortesã e da expressão sentimental que floresceu nas cortes reais e nos círculos da nobreza.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e a formação de João Garcia de Guilhade. Presume-se que, como outros trovadores da época, pertencesse à nobreza ou a um círculo próximo a ela, o que lhe permitiu ter acesso à educação e à cultura cortesã. A formação de um trovador incluía, para além da educação literária, o domínio da música e, possivelmente, de artes militares, essenciais para a vida na corte.

Percurso literário

O percurso literário de João Garcia de Guilhade situa-se entre a segunda metade do século XIII e o início do século XIV. É conhecido pela sua participação ativa na produção poética galego-portuguesa, integrando a tradição das cantigas líricas. As suas composições eram frequentemente apresentadas em cantigas de amigo, onde a voz poética é feminina, expressando saudades e lamentos amorosos, e cantigas de amor, onde se explora o sofrimento do trovador perante a dama inacessível. A sua obra encontra-se preservada em cancioneiros medievais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Garcia de Guilhade é composta por cantigas líricas, predominantemente de amor e de amigo. As suas cantigas de amigo são notáveis pela sua profundidade sentimental e pela capacidade de retratar a voz feminina com autenticidade, explorando temas como a saudade do amado, a natureza como confidente e os rituais sociais da época. Nas cantigas de amor, Guilhade demonstra um domínio das convenções da vassalagem amorosa, expressando o sofrimento e a devoção do trovador. O seu estilo caracteriza-se pela musicalidade, pelo uso de um vocabulário relativamente simples, mas expressivo, e pela melancolia que permeia muitas das suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Garcia de Guilhade viveu num período de transição e consolidação dos reinos ibéricos, onde a cultura trovadoresca desempenhava um papel importante na vida social e política das cortes. A poesia galego-portuguesa era a língua de expressão literária privilegiada em grande parte da Península Ibérica, servindo como veículo para a comunicação e a expressão artística entre a nobreza. O contexto histórico da época, com as suas constantes guerras e a importância da honra e do amor cortês, reflete-se nas temáticas e nos sentimentos expressos nas suas cantigas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Garcia de Guilhade são escassas. Sabe-se que era um trovador ativo, o que sugere uma ligação com os círculos da corte e da nobreza. A sua obra, rica em sentimentos amorosos e lamentos, pode oferecer vislumbres sobre a sua sensibilidade e a sua visão das relações humanas, mas não permite inferências diretas sobre a sua biografia detalhada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Garcia de Guilhade assenta na sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, como o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro Colocci-Brancuti. A sua obra foi preservada e estudada por gerações de filólogos e críticos literários, que reconhecem o seu valor como um dos expoentes da poesia medieval ibérica. A sua contribuição para a diversidade e a riqueza da lírica galego-portuguesa é amplamente reconhecida.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Garcia de Guilhade foi influenciado pela tradição lírica provençal, que chegou à Península Ibérica através da influência da corte de Afonso X, o Sábio. Por sua vez, o seu legado reside na sua contribuição para o desenvolvimento da cantiga de amigo e de amor em língua galego-portuguesa, enriquecendo o repertório poético com a sua sensibilidade particular. A sua obra continua a ser estudada como um exemplo da expressão lírica medieval.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As cantigas de João Garcia de Guilhade são frequentemente analisadas sob a perspetiva da psicologia do amor cortês, da representação da mulher na Idade Média e da relação entre a poesia e a realidade social da época. A sua capacidade de evocar a voz feminina de forma credível nas cantigas de amigo tem sido objeto de particular interesse, levantando debates sobre a autoria feminina na poesia medieval.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre João Garcia de Guilhade é a sua possível ligação a outros trovadores e figuras da corte, como o rei D. Dinis, conhecido por ser um patrono das artes e da poesia. A preservação da sua obra em cancioneiros, muitas vezes com variações textuais, é um aspeto interessante do estudo da transmissão das obras literárias medievais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos concretos sobre as circunstâncias da morte de João Garcia de Guilhade. A sua memória perdura através da sua obra poética, preservada nos cancioneiros medievais, que continuam a ser a principal fonte de conhecimento sobre a sua vida e o seu legado literário.