Escritas

Escritas

Esta noite

Esta noite
senti o mar incendiar-se
nas tuas mãos

arderam os olhos
nas tuas mão inteiras
enormes

esta noite no teu peito
inventei estrelas
que não conhecia

Anomalias

Nada de anomalias!
Quero a vida
matemática redonda hipócrita

Como convém.

Sem passar as manhãs doente a delirar
sonhos de seixos a brincar..

Lábios

Os teus lábios sobre os meus
no pátio do silêncio
como um altar

Lágrima

Peguei numa lágrima devagar

água sódio
nada mais.

Sempre pensei que tivesse
extractos de sonhos
e olhos grandes

Interrupção

Interrompemos aqui a emissão para uma notícia de ultima hora.

Uma epidemia de beijos está a espalhar-se rapidamente pelo país e começa já afectar Espanha e as ilhas. Nas ruas toda a gente se abraça e beija indiscriminadamente. Os hospitais estão cheios de pessoas aos beijos. Há engarrafamentos em quase todas as esquinas porque as pessoas saem dos carros para beijar e serem beijados.

Por todo o lado há bocas que se abraçam.

Amo-te

Amo-te com uma força que não tenho, com passos que não sei.
Amo-te com raiva.
Amo-te com desespero. Com ânsia de ti. Amo-te com uma ternura louca.
Amo-te com imensidão.

Peço

Peço a morte.
Quero-a pelo pescoço,
pela garganta fora
por esta fala turva e cansada

a golpes de caneta encontrá-la
neste branco esventrado

tê-la e nunca mais.

Segunda-feira

é segunda-feira.
Há árvores céu e estradas sem fim.
Existe uma normalidade rectilínea em tudo o que me cerca
e no entanto choro.

Choro lágrimas anormalmente rectilíneas
vazias de árvores céu e estradas sem fim.

Amores

não gosto de amores limpos

o amor nasce da lama, onde a música é mais límpida

INEM

há quem diga que a chuva são lágrimas

Pessoalmente não acredito. O INEM não sairia de casa por tão pouco.
Não se fecha estradas ou interrompe o trânsito por um lamento.

No entanto, mesmo quando choras em silêncio, sinto o grito da terra.

e nesse momento o mundo acaba

Meterologia

A tua meterologia é tão simples.
Se me sorris o sol brilha,
se não te vejo caem trovões.

Meu deus,
que escuros são os dias sem ti!

Pedido

que te peço eu?

um ramo noutro ramo
e a voz baixinho junto ao peito

encontros e desencontros

nos intervalos do amor não há nada
só o bolor

como pode o bolor queimar tanto como queima?



mas mesmo nas cinzas resta fogo

mesmo no fogo restas tu

Tu és tu

Tu és tu em demasia
da mão despudoradamente nua
aos olhos que não vêem
e que levas nos meus.

A minha vontade

A minha vontade é cobarde
foge do que quer
como do que arde
e se tanto mais me ardera
ainda mais quisera

Como pedir o que não sei dizer
fora destas páginas sem peso?
Como as línguas que não sei roubar
longe desta caneta sem alma

Não sei se por acanhamento
se por sofrimento
me encontro afastado
estou morto talvez
da vida descansado

Água

Nas tuas costas
desce a chuva
aos meus olhos molhados.

é pelos olhos que entra a água.

Deus

Deus não faz esforço
para ser Deus
é naturalmente

Como uma flor é uma flor
ou uma pedra é uma pedra
assim és tu

Diário sem nada de especial de um dia qualquer

Não suporto que amanhã seja mais um dia. Que hoje seja um prolongamento de agora.

Vou-me abandonar à minha sorte. Acreditar no que não creio.

Vejo uma senhora de moral alevantada por oposição às tetas abandonadas

Grande é a embarcação que se dá a navegar. (Obrigado pelo barco...)

Quais os pés mais bonitos? Os atrofiados pelos sapatos ou os marcados pelo chão?

No actual contexto sócio-económico, a taxa de amizade está muito abaixo dos valores normalmente considerados satisfatórios.

Vou dizer um lugar comum. A vida é uma espiral. Tudo se repete, só que num ponto diferente.

Muita raiva é um grito, muita ternura é um lamento.

Escrevo com o pão que comi numa garrafa partida: A Humanidade está com hemorróidas.

Se o pensamento é o meu rio, a consciência é o seu dique.

Vontade: Mosaico de anéis e pregos.

Detesto gente cuja linguagem é a do deve e do haver. Em que a vida se alinha pelas colunas do débito e do crédito. Com cinco casas decimais.

Dançando no orvalho do tempo. Estátuas perdidas.

Ouvido na barbearia: "Doer às vezes é coisa boa. É sinal de que se vive."

Os apaches são tão sanguinários como os ocidentais. Mas mais puros. Orgulham-se da sua bravura.
Nós somos cruéis apesar dos escrúpulos. Afastamos a morte como afastamos a vida. Receamos e combatemos tudo o que é natural com as nossas máquinas, a nossa lógica, os nossos papéis e artifícios.

As máquinas não morrem e se morressem tornar-se-iam humanas. O maquinismo e a tecnologia é a busca da ilusão da imortalidade.

Desde que comprei o relógio que ando atrasado.

Esfera

Numa esfera monocorda
um pouco de vermelho
Ternas lágrimas, flor de fruto
lentas feridas ao correr do campo

Pânico

Tomou-se-lhe um pânico de chão

Um medo irracional de pôr os pés no chão. Andava sempre aos pulos, ao pé-coxinho, por cima de mesas e tábuas. Acabou por se consumir e desfazer em fumo.

Está agora no meio de nós. é deus.

Estou farto

Estou farto
desta ausência entre lençóis
do sono que há
no pesadelo que me sou
não levo veias nem vinho nem deus
só as unhas dentro dos bolsos
e o lugar do salgueiro

Ser mais terra que nunca
pedra de calçada com pés por cima
ter um buraco na sola
e haver mijo no chão
tenho nojo das manhãs
húmidas e solenes

Quando da noite me faço homem
a manhã da noite se faz dia
e eu não caibo nos restos
da noite que sobrou

Parto
e não há aqueduto que eleve
as águas que correm baixinho
como se fora choro de erva.

Glória

Ah! A glória de pintar
frescos de sonho
no silêncio crispado de raiva
deixando as raízes quebrarem a crosta
e florescerem nos dedos

Negrume

gosto do negrume
que há no rosto dela
o negro chove-me pelos dedos

os cabelos descem como beijos
e a noite era algo que guardávamos em silêncio no corpo
assim reinventámos a inútil arte de amar

No escuro

No escuro da noite
um táxi, uma vida
ritos urbanos
sinfonia de plástico
caos de dor
silenciada no corpo
duma mulher
culto de morte
absurda
violinos de aço
ferindo com furor

Nuvens

Por isso as nuvens
se zangam em trovoadas
e vociferam trovões.

É a carcaça que grita
o que o resto cala.

Objecto

Pegue-se num objecto, qualquer objecto
Aprenda-se a gostar dele
Construa-se sobre ele a teia das nossas fantasias
E sinta-se desapontado
Quando ele se comporta como mero objecto que é

Odeio-me

Odeio-me mais que a mim mesmo
Será que tenho olhar de poeta?
Será que te mudo quando me olham?

Olhares

Deixando cair suavemente olhares de prata,
derramei a teus pés pétalas de luar.

Para viver

Para viver
livros e folhas
são tudo quanto preciso
Porque o primeiro reconhecimento
é o que me mereço
nestas folhas perdidas

E se por acaso outra coisa recordo
da sua falta
á minha mão retorno
sem nunca de lá ter partido

Outro eu de outro precisa
para de eu mesmo se apartar
mas se fosse possível ver claro
distinto desta massa indistinta
um pouco mais á frente
esse outro que vejo
esse mesmo sou eu

Pele

A pele esbate-se num gesto final
liberto-me da escravidão dos dias
(somos todos escravos da vida)
Pairo simplesmente
lá fora o néon
circula com certeza matinal
caos de cimento e tédio

Pêndulos

Que todos os pêndulos sejam pontes
entre mim e parte incerta

Que todas as pontes sejam pernas
alvos de púrpura e cetim

Que todas as pernas sejam frutos
só sem mais nada ou ninguém

Pequenas coisas

Há pequenas coisas que atiçam o amor
Que nos dão um grande desejo de amar
Uma enorme ânsia de sofrer

Pequenas coisas que me vão passando pela cabeça

No outro dia uma educadora de infância parou o carro no meio da ponte, 
saiu, chegou-se à amurada e saltou. Segundo parece causou 
engarrafamentos monstros. Não é preciso muito para atrapalhar o 
trânsito. Basta um carro parado.

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Morri quinta-feira ao fim da tarde
a autópsia foi clara 
causa da morte: saudades tuas

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Renasci junto a um oceano branco 
levado por dois braços de mar salgado 

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Não, não quero ser livre 
quero ser cativo de amores 
preso a paixões e tormentas tamanhas 
Não, não quero ter ideias 
só a paz de ver o mar 
e as coisas mudas a sorrir para mim 

Não, não quero ser contente 
quero a raiva de todo o mal 

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A vida é uma coisa engraçada que rola na minha mão. 
Das vezes que a consigo ver de fora é giro olhar para as coisas. E tudo 
parece estranhamente igual. O que é que eu tenho a ver com tudo isto? As
pessoas movem-se de um lado para outro, fazem coisas, mexem-se como se 
movidas por uma necessidade necessária. Para que o mundo não pare e 
continue a girar como antes. Quando a única finalidade que faz sentido é
sermos felizes. Quantas destas necessidades necessárias nos fazem felizes? 
Fecho os olhos. Devo representar a farsa de uma máquina, 
não porque acredite no que faz a máquina, mas porque a rosca não pode 
viver sem um parafuso. 

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Era interessante saber a largura dos dias 
e sabermos com antecedência se cabemos neles 
para não ficarmos com os pés de fora 

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Preciso de uma droga que me reduza a pena. A vida é-me demasiado grande. E os meus pés tão pequenos. Os olhos vazios. 
Ou eu me levantei ou o mundo encolheu. Estou a bater com a cabeça no tecto do mundo. 

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Sou normal, 
na maioria que sou em mim 
estou perfeitamente na média 

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Pássaros surdos loucos 
De amor encantados 

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Alguém escreveu sobre a mágica tarefa de viver, a mim ocorre a vã tarefa de viver 

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O corpo estava acompanhado. Mas ninguém se sente só com o corpo. 

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Alguém me perguntava com admiração. A beleza agride-te. 
Sim. A beleza deve ser violenta. 

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Pensamentos dum ouvido ao redor duma laranjeira 

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Hóstia babada de ranho 
Cona ungida de pano 

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Aos céus sobe a espada que nos mata 
e ficamos a vê-la subir ao alto 
tão do chão 
tão lentamente 

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O erasmo era feio e tinha mau gosto para chapéus.

Pobre de mim

Pobre de mim que só sei que amar é triste
que a dor de uma paixão é tudo quanto há.

E quando me perguntam o que sinto, nunca sei que dizer
porque se soubesse estaria a pensar
e não a sentir.

Porta Fechada

A porta fechada
A cara voltada
O chão se aproxima

Do murro arrependido
Do elevador não caído
O corpo se aperta

E eu não sou já de mim
sou do gosto que não dei
e de mim se tomou

E não sei que mais tarde
serei das águas do Tejo
ou doutro rio mais aquém

Não terei trejeito, nem geito sequer
poderei quanto muito rimar
com quem, como eu, tal não puder:
Uma cor, uma pedra ou talvez um pomar.

Quando tiver

Quando tiver a tua idade
usarei a roupa que vestistes
poderei então coxo dos teus pés
pelas ruas dentes podres
ir dizendo wind-surf bolero graçola
e do círculo assim nascido
queimarei os braços agora livres
Mas parai!
reconheço o quieto percurso
dourado trajecto, vagabundo dilecto
nem sombra é
mais que nada seria muito

Que faria eu, senhor

Para conquistar as tormentas
seria capaz de muito
até de sofrer.
Mas para me perder no vento dos teus lábios
que faria eu, senhor!

Cruzar oceanos, caminhar montes e vales
derrubar as árvores mais fortes.
Tudo seria pouco.
Qualquer proeza é mesquinha
face à luz que ferve nos teus olhos.

Meu deus, faz-me uma montanha tão alta
que lhe alcance o coração

Quem inventou

Quem inventou a dor ao fim de um dia de sal?

Quem te imaginou na minha cabeça?
Quem apagou a luz do céu?

Quero

Quero habitar o teu corpo
entrar pelos teus olhos
demorar-me na língua
dormir no cabelo

Sabes o que custa

Sabes o que custa calar
o que não se consegue calar
conter o incontível.

Estranho mundo este
onde os olhos rolam pelo chão
e os amores não ateiam fogos imensos
A loucura apodrece
e cheira mal

Porra!
que os sonhos aconteçam
que a fúria fresca das manhãs
tenha lugar

Sol deus maior
que os corações expludam
que braços se encontrem
que a vida seja vida e não apenas morte

Álcool deus menor
leva-me lá para longe
leva-me e esquece-me
eu não estou
não existo.

(escrito em 10 minutos na autoestrada por alturas de palmela, rápido e banal)

Subir

Subir aos céus
pelo degrau mais alto da estima
pelo portal mais sagrado da loucura

TU

enlouqueces-me maravilhas-me atrapalhas-me apaixonas-me cegas-me confundes-me. Tu inspiras-me.
Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu .....

Quero tanto de ti e tão próximo que anseio que fosses o ar, o chão, as paredes, tudo.

Que tudo o que tocasse fossem os teus braços. Que tudo o que sentisse fossem os teus lábios.

Como quando fecho os olhos e tudo o que não vejo és tu. Como quando não durmo e tudo o que sonho és tu.

Contigo não consigo respirar. Sem ti não consigo viver.

Quero estar tão dentro de ti que nem a luz do dia exista para mim. Quero abraçar-te tanto que todo o mundo colapse e desapareça num pequeno ponto entre os meus braços.

Toca-me com as tuas mãos. Faz-me desaparecer com a tua pele. Sufoca-me na tua língua. Arrasta-me pelo ar com o teu perfume. Mata-me de vez.

Odeio-te porque existes. Odeio-te porque não estás aqui. Amo-te tanto.

De repente tomo consciência da tua ausência e faz-se noite. Porque não me respondes quando te falo? Porque não te sinto quando estendo o braço? Porque te escondes?

TU
se fosses chuva, do céu só cairiam pérolas ... E até o chão gritaria de prazer

Tudo quase nada

Tudo quase nada

dá-me algo que arda
um verão, o fogo ou a boca

para por momentos esquecer
a tua boca e chamas




tudo quase nada irremediavelmente perdido
 

Uma palavra

Há uma palavra que persigo
foi-se por lá desterrada e morta
viúva e fria como os sargaços
que longe daqui dão à costa
todos os setembros pela manhã
como a folha pesarosa de ser outuno
e da brisa mole de entardecer.

Vem

Vem.
Vem comigo
Cansados de amor
mergulhemos juntos na noite
no silêncio dos amantes

amor amor amor
repete comigo
as palavras que nos dão paz.

Vi passar

Vi passar uma nuvem

corri para te apanhar
e pela primeira vez
andei sorrindo pelo céu
nos teus braços evaporados de branco

Escritas · Luis Rodrigues
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