Lista de Poemas

Natureza morta

Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!

Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém ...
Nem a presença dos corvos.

(publicado com o pseudônimo Solange Sohl em 1948, noSuplemento Literário do jornalDiário de São Paulo.)
3 231

Um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.
1 613

Nothing

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel"s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

(publicado n"A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962)
1 330

Canal

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
917

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Pagu
Pagu

Pagu

Paulo Freire
Paulo Freire

Paulo Freire

Identificação e contexto básico

Patrícia Galvão, nascida em 1905, é uma das figuras mais emblemáticas do modernismo brasileiro. Conhecida pelo seu pseudónimo "Pagu", foi uma intelectual completa: escritora, jornalista, dramaturga, cineasta e ativista política. A sua obra e a sua vida foram intrinsecamente ligadas às transformações sociais, culturais e políticas do Brasil nas primeiras décadas do século XX.

Infância e formação

Nascida numa família abastada de São Paulo, Patrícia Galvão teve acesso a uma educação privilegiada para a época. Desde cedo, demonstrou uma inteligência aguçada e um espírito rebelde, que a levaram a questionar os papéis tradicionais da mulher na sociedade. A sua formação incluiu um contacto precoce com a arte e a literatura, que moldaram a sua visão de mundo e a sua posterior atividade intelectual.

Percurso literário

O percurso literário de "Pagu" iniciou-se com a publicação de textos em jornais e revistas, onde já evidenciava o seu talento e a sua ousadia. A sua obra mais conhecida, o romance "Parque Industrial", publicado em 1945, é um marco do modernismo, abordando a vida operária com uma linguagem crua e inovadora. Colaborou ativamente em publicações importantes da época, como a "Revista de Antropofagia" e o "Diário de São Paulo", onde exercia um jornalismo crítico e interventivo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Patrícia Galvão é caracterizada pela experimentação formal, pela crítica social contundente e por uma profunda liberdade de expressão. Em "Parque Industrial", ela introduz uma narrativa fragmentada e um vocabulário que reflete a realidade da classe trabalhadora, rompendo com as convenções literárias vigentes. Os seus temas centrais incluem a exploração social, a condição feminina, a modernidade e a crítica ao sistema capitalista. O seu estilo é direto, por vezes irónico e sempre provocador.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico "Pagu" foi uma figura central no movimento modernista brasileiro, participando ativamente das discussões e manifestações artísticas da época. A sua relação com Oswald de Andrade, um dos líderes do movimento, foi fundamental para a sua inserção nos círculos intelectuais. Viveu e produziu em um período de grandes transformações no Brasil, marcado pela industrialização, pela urbanização e por intensos debates políticos e culturais. A sua postura desafiadora e a sua militância política, inclusive no Partido Comunista, fizeram dela uma figura controversa, mas admirada pela sua coragem.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Patrícia Galvão foi tão intensa e marcada quanto a sua obra. O seu casamento com Oswald de Andrade e o relacionamento com outros intelectuais da época a colocaram no centro da cena cultural. As suas convicções políticas levaram-na a ser presa e exilada em diferentes momentos da sua vida. A sua experiência como mulher livre e independente num Brasil conservador foi, em si, um ato de transgressão e inspiração.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora "Pagu" tenha sido uma figura reconhecida em vida pelos seus pares, a dimensão total da sua obra e do seu impacto só foi plenamente apreendida décadas após a sua morte. O seu romance "Parque Industrial" é hoje considerado um clássico da literatura brasileira, e a sua figura é estudada em universidades e admirada pela sua coragem intelectual e política. O reconhecimento póstumo tem sido crescente, com a reedição das suas obras e a realização de estudos aprofundados sobre a sua vida e legado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Patrícia Galvão foi influenciada pelo modernismo europeu e pelas vanguardas artísticas, mas soube criar uma linguagem genuinamente brasileira e pessoal. O seu legado reside na sua audácia em questionar normas sociais e literárias, na sua representação pioneira da mulher e do trabalhador na literatura, e na sua atuação política engajada. Inspirou gerações de escritoras e intelectuais a desafiar limites e a lutar por um mundo mais justo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Patrícia Galvão é objeto de análise crítica sob diversas perspetivas: a sua importância para o feminismo, para a literatura social e para a história do modernismo brasileiro. A interpretação da sua escrita revela uma crítica feroz ao capitalismo e às estruturas de poder, bem como uma profunda sensibilidade em relação à condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos "Pagu" foi uma das primeiras mulheres a possuir carteira de motorista no Brasil e a pilotar um avião. A sua personalidade vibrante e o seu estilo de vida transgressor, que incluíam o uso de roupas masculinas e a ousadia nas suas declarações, chocavam a sociedade da época. A sua passagem por Paris e o contacto com o surrealismo também enriqueceram a sua visão artística. A sua criatividade estendia-se à culinária, sendo conhecida por seus dotes de cozinheira.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Patrícia Galvão faleceu em 1962, em São Paulo, após uma longa luta contra um cancro. A sua memória é mantida viva através da reedição das suas obras, de estudos académicos, de exposições e de documentários que celebram a sua vida e a sua vasta contribuição para a cultura brasileira. O seu nome tornou-se um símbolo de resistência, liberdade e inteligência.